O vai-e-vem dos Quinta-Feira 12


Já foram My Cubic Emotion, isto nos anos em que a Secret Society of Friends arrastava marés de gente na zona da grande Lisboa, depois passaram a The Year (mais próximos do fim do emocore, marcado pelo desaparecimento dos One Hundred Steps e Triplet) e agora reinventam-se em português — Quinta-Feira 12 nasce numa fase em que o nosso corpus linguae parece ser o caminho a seguir, mas em que as certezas desse mesmo caminho ainda se almejam com razoável vigor e confiança.

A identidade sonora dos Quinta-Feira 12 é complexa: em “Madrasta” vão surgindo vocoders, artifício a que nos tínhamos desabituado, mas em “Fiasco” são as guitarras acústicas que mandam. Parece haver sempre um pé no digital, que passa sobretudo pelos sintetizadores em registo high pitch e samples disparados, mas também um desejo último de cumprir ao máximo a forma e o tradicional. Excepções há, como em “Isidro Mãos-de-Canalha”, em que os saltos ao passado são óbvios: os breakdowns e vozes isoladas dos tais anos do emocore não resistem a surgir; ao vivo, as expectativas correspondem ao que se premeditou na sala de ensaios.

Se tivermos de recorrer ao hibridismo, talvez os possamos encaixar entre dois exemplos populares entre os jovens: Quinta-Feira 12 tem tanto de D’Alva como de Linda Martini; dos primeiros herdam a energia e o fulgor, dos segundos as guitarras em cascata e a vontade de intervir com o liricismo. Se fizermos, por oposição, uso da justiça, tenderemos a distanciá-los tanto de um projecto como de outro: as mudanças que tornaram possível esta nova vida dos projectos de Rodolfo Jaca e João Correia são tão biográficas que deixamos de lado esta tendência de comparar o que não é cópia directa e o que não bebe sequer da mesma fonte de influências.

As viagens ao Japão, os vídeos temáticos e o design distinto — nos concertos há bolachas com gatos que encenam manguitos, tote bags e camisolas vistosas — dão coesão a esta identidade que por vezes nos parece menos óbvia. Onde julgámos não haver fio-condutor, ele de súbito nos aparece: este é um projecto pop que não mede salas nem públicos, e tanto se afigura impactante numa semana académica ou num bar ruidoso; uma banda que surge com força nas redes sociais e delas tira sábio proveito — a comunicação e a imagem são cuidadas, mas não deixam de prestar atenção redobrada aos temas, que têm produção e mistura atenta das suas idiossincrasias musicais (não deixa no entanto de nos parecer que a decisão de lançar um EP e não um disco long-play faça necessariamente justiça ao registo tão distinto da banda; concentrar o bruto das melhores faixas talvez tivesse sido mais sábio, mas bygones serão sempre bygones).

Há, claro, uma sobeja vontade de ver o que parte daqui; nunca estes rapazes tinham dado uma volta tão grande aos seus mundos (e saído tanto de pé). Parece estranho que, na viragem dos seus vintes para os trintas, a mudança tenha sido tão distinta, mas o arrojo e o desprendimento — salvo seja — com que a levam a cabo ganham-nos um sorriso cúmplice; no rock, como na música em geral, o empenho e lavoro das bandas contam muitíssimo para quem de fora as observa. E, até ver, estamos franca e honestamente bem impressionados.

Fotos por Rui Gaiola