4 obras, 4 documentários, 1 arquitecto: Siza Vieira


É impossível escaparmos à arquitetura, seja no nosso campo de visão, seja porque interagimos recorrentemente com ela. Por esse motivo, todas as ocasiões são boas para se falar da arte de construir. A jornalista Cândida Pinto aproveitou o acontecimento da Bienal de Arquitetura de Veneza para fazer exatamente isso. Mais concretamente para nos fazer pensar sobre quatro projetos de habitação social concebidos por Álvaro Siza Vieira.

A ideia surgiu do convite feito pelos curadores do Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza. Foi assim que nasceu Vizinhos, uma série documental composta por quatro episódios. Ao longo de cada um desses momentos somos levados a conhecer as soluções encontradas por Siza Vieira para os diferentes desafios. São quatro casos, provenientes de quatro tempos e geografias diferentes, mas sempre com o denominador comum de se tratarem de bairros sociais desenhados pelo arquiteto português.

O público da Bienal foi o primeiro a ter acesso a Vizinhos, que entretanto chegou aos espetadores portugueses através do canal de televisão SIC Notícias. Os primeiros dois episódios passaram nos dias 28 e 29 de Maio e os restantes vão ser emitidos a 4 e 5 de Junho. Porém, não te preocupes caso tenhas perdido ou venhas a perder alguma das emissões. Os episódios transmitidos já estão acessíveis no site da SIC Notícias, que também irá disponibilizar os seguintes.

O percurso desta série de documentários inicia-se com o bairro da Bouça, no Porto. Começado a construir num período conturbado da história portuguesa, em que a sociedade se adaptava a um regime democrático ainda recente, o projeto da Bouça tem tanto do arquiteto quanto daqueles que o vieram a habitar. Os contornos do bairro saíram de discussões e trocas de ideias entre Siza Vieira e os futuros moradores. Situação que não foi exclusiva deste projeto. O caráter acessível e humano do arquiteto que possibilita tal postura é igualmente observável ao longo dos episódios. Siza, acompanhando a equipa que visitou cada um dos espaços, conversa com quem o interpela, sem quaisquer barreiras ou entraves.

Vemo-lo a cumprimentar de volta toda a gente com quem se cruza na Bouça e a ser recebido por moradores do bairro holandês De Punt en De Komma, em Haia, como se também ali habitasse, ou seja, fosse um vizinho. Essa familiaridade dos moradores com Álvaro Siza não é totalmente descabida ou fruto do acaso. Aquelas casas têm qualquer coisa de quem as desenhou. Depois do projeto e de concretizada a obra, fica nela um bocado do que é o seu arquiteto. Aliás, isso é parte relevante do que justifica o reconhecimento internacional de que Siza desfruta e que culminou na atribuição do Prémio Pritzker, em 1992. Desde o cruzamento de uma arquitectura de travo moderno com técnicas de construção e conhecimentos vernaculares, passando pelo uso que é feito dos materiais, até aos jogos com o espaço e a luz, há Siza Vieira naqueles edifícios.

No próximo fim-de-semana retomamos a viagem pela habitação social do arquiteto português. Segue-se o episódio dedicado ao Bonjour Tristesse, em Berlim, edifício através do qual Siza provoca o nosso olhar com um jogo contraditório. Observamos a rigidez das janelas, muito geométricas e uniformemente distribuídas, que vão ao arrepio da ondulação da planta e da fachada do edifício. Por fim, o último episódio terá lugar no Campo di Marte, na ilha da Giudecca em Veneza. Aqui, não só Siza se cruzou com outros arquitetos de igual renome internacional (Aldo Rossi, Carlo Aymonino e Rafael Moneo), como é neste espaço que está concentrada a presença portuguesa na Bienal de Arquitectura de Veneza.

Para compreender a arquitectura é necessário vivê-la, interagir com ela, e desse exercício eventualmente começamos a perceber aquilo que faz cada edifício. Por conseguinte, passamos igualmente a captar a especificidades que distinguem Siza Vieira e que fazem dele um dos mais importantes arquitetos dos nossos dias. Mas, para nossa infelicidade, tal é impossível para uma obra tão vasta e dispersa pelo planeta como a deste arquitecto.

Nesse sentido, Vizinhos é um ótimo trabalho que dá a conhecer um capítulo crucial do percurso arquitetónico de Álvaro Siza. Ajuda-nos a refletir sobre o papel da arquitectura e como esta evolui, por exemplo através da renovação das tipologias de moradores. Seguramente que estes quatro documentários vão despertar a tua curiosidade pela disciplina e pelo arquiteto.