James Blake deu-nos o que já estávamos à espera e mais ainda


O dia 6 de Maio, sexta-feira, foi marcado por um variado conjunto de lançamentos, desde Skepta a Kaytranada, não esquecendo Death Grips e os rappers portugueses Keso e Mase. Mas nem esta quantidade atípica de lançamentos num mesmo dia fez o último projecto do cantor e compositor James Blake passar despercebido. Durante este mês, cada faixa deste The Colour In Anything foi reproduzida mais que uma vez, acompanhando na rotina diária, nas alturas introspectivas ou até mesmo na procrastinação.

Com 17 faixas, é o maior projecto que James Blake já produziu. O terceiro álbum possui o estilo a que já estamos habituados mas existem diferenças – que foram causadas pela sua mudança de ares, dada a troca da melancólica Londres pelo sul da California, pelos novos amigos e pelo seu novo amor. Todas estas mudanças levaram a que James não produzisse sozinho como anteriormente, permitiram-lhe convidar outros artistas e produtores para a concepção do projecto. Sete faixas das finais 17 foram co-produzidas por Rick Rubin (o lendário produtor e co-fundador da Def Jam Records) nos seus estúdios Shangri-La em Malibu, onde o álbum foi mixado e masterizado quase na sua totalidade. Blake, ao contrário dos seus álbuns anteriores, teve a participação de Justin Vernon (Bon Iver) e Frank Ocean nas faixas “I Need A Forest Fire” e “My Willing Heart”, respectivamente, e ainda a participação de Connan Mockasin como baixista.

Podemos ouvir emoções que nos agarram e nos fazem sentir como uma parte de Blake. Toda a produção de The Colour In Anything não nos encaminha totalmente para uma floresta de cores primaveris onde se engloba a data deste lançamento, mas sim para um universo que persiste em nos faz sentir que nem tudo é bonito. O novo disco continua a ser realizado através de uma mente perturbada e algumas vezes, profundamente alienada, que é maioritariamente denotada pela lírica melancólica e introspectiva que consome cada synth, cada 808 e cada percussão que perfura, acompanhada de melódicos auto-tunes e outras vezes por acordes de pianos que completam o vazio de cada faixa. Influências que navegam entre o hip hop, gospel, R&B, post-dubstep e a restante música electrónica britânica emergem ao longo deste álbum, interligadas pelo estilo único do cantor, em que a sua lírica entrelaça-se de forma quase natural a toda a sonoridade existente, faz viajar no tempo, por vezes para 2011 e outras vezes, directamente para 2016.

Sendo este um dos seus projectos mais extensos, o cantor e produtor britânico pôde expor a sua nova vida, os seus pensamentos e emoções – um hábito que, aliás, o próprio criou com a sua música desde 2010. Começa de forma eximia com “Radio Silence”, faixa que introduz este The Colour In Anything e que disfere a melancolia e a nostalgia de um amor passado, com as suas habituais lyrics repetidas para enfatizar a temática, e com a subtileza do piano entre as synths. Quando a escuta torna-se progressiva e por vezes viciante, podemos denotar que algo mudou, “Timeless”mostra isso mesmo, onde o bass mórbido toma outras frequências, intensificando todas as linhas sonoras e captando uma variante mais trappy dentro da sua música electrónica. Ao longo do restante LP, faixas como “Points”, “Always” e “Modern Soul” dão outra vida à listagem, consumidas por elementos mais fresh e consequentemente mais sombrios, imprimindo uma nova versatilidade ao artista. Não nos podemos esquecer de “I Need A Forest Fire”, primeiro single com a participação de Justin Vernon, foi praticamente um hit automático. Nele a temática passa por “começar de novo”, como uma floresta depois de um fogo que é um novo terreno fértil para algo renascer. The Colour In Anything  termina com “Meet You In The Maze”, uma acapella sintetizada, uma voz com auto-tune que resulta numa letra composta que acalma, não entristece mas que apenas nos deixa a divagar pela sua voz.

Demorou algum tempo, mas James Blake lançou o seu terceiro álbum e não poderia ser melhor. Deu-nos o que já estávamos à espera mas ainda deu mais.