Les Plages Electroniques Lisboa: um ano zero que promete mais e melhor


De Cannes para Lisboa, o Les Plages Electroniques prometia trazer para a costa do Atlântico as grandes noites de pé descalço que já se estabeleceram na Côte d’Azur. Em Cannes, ano após ano, tocam alguns dos melhores produtores da música electrónica mundial e o nome do Les Plages Electroniques carrega por isso alguma expectativa que exigia um nível alto para que esta fosse minimamente correspondida. Mantendo as devidas distâncias, muitos são os que gostariam de ver no Porto todos os nomes que tocam no Primavera de Barcelona, o que quase nunca acontece. Neste caso, foram alguns os bons nomes que vieram até à Caparica, mas o caminho para que se possa atingir o nível do que acontece em Cannes ainda agora começou.

O começo desta primeira edição foi prova disso mesmo. O Shifter chegou à Praia do Rei ainda antes do sol se pôr e ainda que já se ouvissem as primeiras batidas, o público parecia tardar em chegar. O grupo espanhol Yall e a dupla britânica Bondax mantiveram o profissionalismo e entregaram bons sets ainda que a diversão que recebessem em troca fosse diminuta. À excepção de alguns êxitos como “Giving It All”, poucos foram os momentos que mereçam destaque, mais por culpa do pouco público do que pela qualidade e talento dos que giravam os discos.

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Começávamos a entrar num registo mais noturno e o português Magazino mostrou que quem já anda nestas andanças há alguns anos consegue sempre tirar qualquer coisa dos que começavam então a juntar-se à frente do palco. Um pequeno grupo que nesta altura era composto por recém chegados ainda à procura do melhor sítio e uma facção de verdadeiros party animals que já mergulhavam involuntariamente na areia mostrando que não precisam de um grande ambiente para se divertir à grande. Olhando para as origens da plateia dessa noite, e que pouco mudaram nos dias seguintes, tínhamos um misto entre (muitos) franceses, britânicos e nórdicos, obviamente recebidos pelos amantes portugueses deste género.

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Ainda que a moldura humana não crescesse muito mais no resto da noite, o ambiente morno aqueceu um bocadinho com a boa performance dos catalães Villanova que, com um remix de uma das obras de Hans Zimmer que faz parte a banda sonora de Interstellar, chegaram a fazer o público perguntar-se o que era aquilo que a tantos soava familiar. Era desta forma que abriam caminho para a chegada de um dos grandes nomes da noite. Danny Daze veio mostrar às praias da Caparica o que se faz lá pelas praias da Flórida. Natural de Miami, chegou algo tímido mas rapidamente subiu o ritmo do que até aí se ouvia. Estava lançado um final de noite que merecia ter sido partilhado por mais do que os que estiveram presentes.

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Bastou chegar um pouco mais tarde no segundo dia para perceber que aquela seria uma noite bem diferente da anterior. O público que faltou na sexta-feira resolveu aparecer em força no sábado e ainda a noite estava a começar e já pouco areal sobrava para estender a toalha. Pete Rock, filho do hip hop, mostrou-se num registo bem mais festivo pautado essencialmente pelo funk e disco.

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Já o DJ Marfox trazia ritmos africanos e parecia levar a noite para um rumo bem diferente daquele que tomou. O plot twist chegaria pelas sábias mãos de Etienne de Crecy. Chamar-lhe veterano seria uma ofensa para quem agarra a pista (ou o areal) como ele soube fazer, mas a verdade é que são muitos anos e muitos discos a rodar para que não seja visto como um dos grandes. Uma lenda dos primórdios do género, admirado e devidamente homenageado pelo senhor que se seguia na cabine.

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E o senhor que se seguiu não quis ficar mal perante tão ilustre convidado. Xinobi, que deveria ter actuado em back to back com Moullinex, acabou por assumir as despesas do resto da noite, devido a problemas pessoais que acabaram por afastar o seu habitual cúmplice. O ritmo deixado por De Crecy era rápido e pesado mas Xinobi não se acanhou.

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Lançou-se num set imersivo onde foi encaixando alguns dos seus êxitos. (Pequeno grande parêntesis apenas para constatar que um desses êxitos – Puma –  é uma das melhores coisinhas que já se produziu no nosso país). Apesar do avançar da noite ter feito a natural separação entre o trigo e o joio, os que foram ficando tiveram a oportunidade de presenciar um final de noite com contornos épicos, com agradecimentos mútuos entre público, convidados e organização.

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Em jeito de balanço, os números revelados pela organização apontam para mais de 4 mil pares de pés a mexer no areal da Praia do Rei. Os 3 dias, que fecharam no domingo com uma goodbye party em ambiente familiar, assumem-se como o ponto de partida de um festival que se quer assumir como o melhor festival de praia da capital portuguesa. Um caminho que começou a ser traçado com uma primeira noite que precisa claramente de outros números para que possa ser visto como tal, mas que teve na noite de sábado uma forte motivação para que o trabalho nesse sentido continue a ser feito. Ficou prometida nova edição no próximo ano e da nossa parte fica a promessa de que lá estaremos para testemunhar o crescimento do Les Plages Electroniques Lisboa. Em números e em nomes.