NOS Primavera Sound 2016 – dia 3


Último dia. As jolas dos dias anteriores já pesam e chegar cedo ao festival é quase um milagre. Estás a ver aquele despertador maroto de uma segunda de manhã? É quase a mesma coisa. Mas para não fazer nada na cama, faço nada na relva. Até porque há Sirumbas para ouvir, bem cedo.

Ainda rolava o Manel quando pisei a relva do Parque da Cidade. Da mesma terra natal que o festival, o catalão chegou ao Porto para apresentar o disco novo – Jo Competeixo – mas o folk-pop da banda nunca me chamou à atenção. Chegaram a estar entre os melhores de 2009, com o Els Millors Professors Europeus, mas fui fazer um pouco de fotosíntese nos pés, à espera dos Linda Martini.

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É bonito abrir o dia com bandas a cantar na sua língua mãe. Manel e Linda Martini nisso, já ganham. A banda foi a única portuguesa a subir ao palco principal do festival e mesmo sendo o primeiro do dia, o público aguentou a ressaca e levantou-se a tempo de vir curtir um bom concerto. Já os vi, revi e curto sempre. Os Linda Martini já são nome grande por cá e há algum tempo. Vês que uma banda tem sucesso quando consegue dar um concerto só com singles no line-up. Do Ep Intervalo ao mais recente LP Sirumba, deram show.

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Passa para mais uma surpresa neste festival. Algiers foi muita bruto e ainda bem. Foi daqueles nomes que descobri em artigos de discos do ano passado e chamou logo à atenção. Isto nem é normal. Normalmente preciso de ouvir os discos ainda umas vezes para a coisa pegar. O som é muito próprio e hoje em dia é cada vez mais raro ver isso – mistura uma séries de estilo que aparentemente não estariam ligados. Com muita base no pós-punk, encontras referências no funk, industrial e até o gospel. Ya isso mesmo, vai espreitar o primeiro e único disco homónimo destes meninos que não te vais arrepender. A banda liderada pelo Franklin James Fisher foi o primeiro abanão do dia e dos melhores do festival.

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Com a noite a aproximar-se voltava o drama de fazer decisões. Primeiro foi relaxar mais um pouco a espreitar Chairlift. O synthpop da Caroline Polachek e do Patrick Wimberly apareceu cedo a abrir uns gigs para os MGMT e tem ganho força e público ao longo dos discos. Até Beyonce convenceram. A rainha do pop ainda os chamou para brincaram aos músicos em malhas dela. A mim, ainda não me convenceram mas já acho que é mais o estilo que a própria banda.

Passei os ouvidos pelo shoegaze dos Autolux. Até são um nome que já li bastante por aí mas ainda não fui ouvir com atenção, nem ver. Há que comer, reabastecer de cevada e seguir para Battles. E com isto já estou a deixar de lado Car Seat Headrest, que pelo que contam foi do caralho. Já fui ouvir melhor em casa e fiquei com comichões de não ter visto. É um rock lo-fi com distorção bem porreiro e se perguntares à Google umas coisas sobre o jovem Will Toledo, encontras mil projetos do bandcamp – onde a Matador Records o encontrou.

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Mas os Battles fizeram me uma boa companhia. Nem explorei muito o novo La Di La Di, agora com menos um membro. Sem voz, inevitavelmente, o caminho é mais instrumental. No início, quando tomei mais atenção aos discos deles, o som também o era um pouco. Tinha um som mais math/post-rock e sempre com a base nas baterias maradas do John Stanier, também dos Tomahawk. Vibrei quando ouvi as malhas do Glass Drop e o som estava intenso. É isso que se quer. Mesmo quando o bar chama por ti, com aquela brutalidade e jogo de luzes, vais guardar os 2€ para daqui a bocado.

Ainda assim perdes o fim, que lá no fundo iam começar os Drive Like Jehu e era dos nomes que mais queria ver no último dia. Já cá andam há 20 anos mas só apareceram no meu iTunes há pouco mais de um. É muito tarde para descobrir um discaço como o Yank Crime. O post hardcore fez se sentir, ao ponto dos teus amigos te largarem até depois de Air e partir para o moche. A banda só tem 2 discos, por isso não tens desculpa para não perder uma tarde a ouvir, por favor. Tive sorte em começar a ouvi-los na altura do regresso e não bazei para os franceses até gritar uma “Do You Compute?”.

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Os Air foram tudo aquilo que eu tinha medo que fosse – uma seca. Tenho mesmo imensa pena que o tenha sido. O Moon Safari é brutal, têm singles incríveis e uma onda que eu adoro. Roda muitas vezes ao domingo para chillar a fumar uma. Mas ao vivo foi muito pobre. O som estava demasiado baixo, sem feeling e as malhas iam aparecendo sem grande poder ou entusiasmo. Percebes que o concerto está desinteressante quando ouves mais as vozes do público que a música. A dupla francesa formada pelo Nicolas Godin e Jean-Benoit Dunckel usa muito o glamour da sua terra num pop ambiental que é das coisas mais bonitas que tenho na estante. Ao vivo, bem longe de me convencer.

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E com esta desilusão perdi Titus Andronicus. Espreitei as últimas malhas, mas não conta. Com influências nos Pixies, o rock/punk da banda só me chegou aos ouvidos quando no ano passado lançaram um disco com 29 malhas. Sim, não ouvi o disco todo. Foi quase a mesma atitude que no disco de 3h do Kamasi Washigton, pôr em shuffle e deixar correr. Vou esperar um regresso para os ver com mais atenção, tinha potencial de ser uma coisa explosiva.

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Agora é desfrutar um pouco do post-rock dos Explosions in the Sky antes do dilema Moderat vs Ty Segall and The Muggers. O quarteto do Texas dispensa apresentações. Já são nomes grande do som ambiental e, como era de prever, trouxeram muita gente para o Palco Super Bock. Aquilo conseguiu ser pesado e fofo ao mesmo tempo. As composições de guitarra transformam o post-rock em complexas atmosferas shoegaze que funcionam muito bem ao vivo. Podia ter sido seca, mas não foi. Escaparam-me as malhas do último disco The Wilderness que ainda não o fui ouvir com atenção. É o que acontece quando não se faz o trabalho de casa antes do festival. Mas os singles do Take Care, Take Care, Take Care e do The Earth Is Not A Cold Dead Place fizeram-me sair do palco de barriga cheia.

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Sabes que um festival é um sucesso quando não consegues decidir a que palco ir. A última decisão foi a mais difícil mas fui ver Ty Segall e deixei Moderat para ver o fim. Se acertei? Sim e não. Ty Segall já veio cá mas nunca o cheguei a ver. Falhei aquele concerto no Lux e este álbum com os The Muggers tinha de ser visto. Teve pesado, teve fuzz a transbordar pelas colunas e teve bebés. Foi com nenucos dos demónios e samples de choros que começou a fritaria. O californiano tem apenas 28 anos e já vai com mais de 30 singles e uma dúzia de LPs na prateleira, cada um mais frito que o outro. Tudo perfeito a combinar com a sua presença em palco.

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Sai a correr para Moderat e foi a maior jarda do fim-de semana inteiro. O que foi aquilo?! O trio alemão teve, provavelmente, o som mais alto que se sentiu, com um techno muita pesado. Foi incrível. Bastaram 30 minutos de concerto para ouvir a “Intruder”, a minha malha preferida do novo disco III, e me fazer comprar o vinil assim que cheguei a Lisboa.

Fotos de: Nuno Diogo/Shifter