TNW Conference: as primeiras lições que trouxemos de Amesterdão

O TNW Conferência é uma espécie de "SBSR" da tecnologia. Aconteceu em Amesterdão e este é o resumo do primeiro dia.

Os primeiros momentos de qualquer evento são sempre marcantes, especialmente se for longe de casa e numa língua diferente. Todos os detalhes nos parecem rasgos de genialidade ou erros flagrantes. Nada é normal – ou nada é o nosso normal – e isso sente-se. Mesmo num festival em que o tema central é a Internet e em que a audiência é uma mistura aleatória de geeks from all over the world seria impossível escrever sem começar pela cidade anfitriã, Amesterdão.

Habitualmente notada pelas coffeshops ou pela red light street revelou-se atipicamente preparada e acolhedora para um festival desta dimensão e para o somar de acontecimentos que marcaram estes dias em terras holandesas.

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O local da TNW Conference, uma antiga fábrica de gás desactivada, Westergasfabriek, foi a primeira grande surpresa. Um espaço industrial tornado verde dividido entre propósitos, do lazer às artes, temporariamente decorado por bandeiras com o gradiente laranja-rosa, numa convivência entre natureza e espectáculo difícil de alcançar. Sem tempo para qualquer tour seguimos directos ao silo principal onde estava montado o palco principal da conferência.

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Depois da grande abertura, tempo para as aguardadas actuações. Adam Leibsohn foi o primeiro a subir ao imponente palco. Um dos fundadores do Giphy que numa apresentação sempre decorada com imagens em movimento deu o mote perfeito para o frenesi que se seguiu.

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Sempre com bom humor, como o giphy.com já nos habituou, Adam mostrou como trabalham focados em dar ferramentas às pessoas para que consigam expressar as suas emoções de uma nova forma – sempre com observações pertinentes sobre a evolução do diálogo entre os homens através das máquinas.

Depois de Adam foi tempo de fazer a volta de reconhecimento ao recinto, mapear por interesse, localizar a comida e o WC, e descobrir o posto de reabastecimento de tech fuel, ou café em português. Para além dos 4 palcos, a Westergasfabriek tinha ainda espaço para duas tendas de exposição de start ups. A solo ou em representação, por ali viu-se de tudo, desde uma secção de inovação da clássica Microsoft, a exposições apoias pelo governo sueco e sul coreano, a criadores solistas de apps/sites/jogos.

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Gary Vaynerchuk era um dos nomes mais aguardados do evento, embora possa passe despercebido do grande público e muita gente não perceba ao certo o que faz. Vaynerchuk é dono de uma personalidade contagiante e de uma visão de sucesso. Tendo sido um dos principais impulsionadores das novas formas de comunicação online, investiu com sucesso em empresas como o Facebook, Twitter ou Tumblr, em negócios que lhe garantiram o retorno e parte do status que hoje tem. Depois disso e de ter feito da companhia de vinho dos pais uma empresa milionária, não tem parado o hustle como lhe chama.

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Numa palestra dividida entre o investidor, o criador e o uma espécie de life coach, não faltaram os fãs saídos da plateia só para a selfie nem as mensagens para o futuro. Vaynerchuk foi peremptório na sua atitude “think ahead and get thinks done”, ilustrando com exemplos do seu percurso a importância de estar e pensar à frente – mesmo que às vezes isso represente estar sozinho.

Depois da injecção de adrenalina do bielorrusso, seguiu-se Emma Holter, uma jovem dinamarquesa que, ao contrário dos restantes oradores nada fez para ali estar, mas cuja presença fez todo o sentido. Emma foi mais uma vitima de um dos males deste novo mundo, quando viu a sua conta de e-mail “hackeada” e fotos que enviara para o namorado circular na Internet à mercê dos trolls.

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Com um testemunho comovente, sem ser lamechas, Emma captou a atenção do público e despertou consciências para a dimensão do problema. Situações idênticas à de Emma são autênticos vírus de propagação rápida a que nenhum formulário de denúncia consegue fazer frente.

A subida de Steve Huffman ao palco foi ligeiramente diferente. O fundador, ex-CEO e CEO novamente do Reddit subiu acompanhado de Boris, co-fundador e actual CEO do TNW. O registo não permitiu momentos elevados mas a conversa foi boa. Ficámos a saber que Steve Huffman aos 26 anos nem sabe quanto ganha e que a visão retrógrada da Condé Nast quase deitou por terra a front page da Internet.

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Steve contou-nos como foi voltar aos comandos de um site depois de a sua equipa de manutenção ter sido reduzida a 1 engenheiro, e de como os 6 primeiros meses de retoma foram de contratações e mudanças estruturais. Pelo caminho ficou também a nota já habitual em conversas sobre Reddit: sim, o site é feio e toda a gente o sabe mas ainda não chegou o momento de o mudar na lista de prioridades.

A conversa de Steve com Boris foi um momento de descompressão depois da manhã em alta rotação. O público dividiu-se pelas vários cantinhos de street food onde se podia provar dutch fries, hambúrgueres em slow-cooking ou a tão conhecida salsicha com mostarda. O tom da conversa nunca diminuiu e nos sorrisos de cada pessoa percebia-se o balanço positivo da manhã de conferências. O espaço descontraído, a comida de rua e o abençoado sol holandês marcavam o invulgar espaço de networking entre geeks, investidores. Sempre regado a cerveja.

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Para a tarde estavam reservados os nomes mais sonantes do dia: a vice-presidente de design do Facebook, Julie Zhuo; da Google, Aparna Chennapragada; e Jeff Jarvis, um insólito jornalista e pensador americano.

O cargo de Julie Zhuo representava por si só um must-go ainda que não soubéssemos ao certo o que reservaria a conferência. Rapidamente percebemos o tópico e a atenção manteve-se, embora nada fosse particularmente surpreendente – a líder de design da maior rede social do mundo partilhou o workflow por trás das maiores decisões e inovações do Facebook como o Live, as reactions ou o discover entre grupos.

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Embora seja interessante poder espreitar os bastidores, os 15 minutos de Julie provaram o que já sabíamos, a enorme capacidade do Facebook para recolher e analisar dados, qualitativos e quantitativos, e a cautela com que dão cada passo. Assim, o processo de design que se divide em detecção de problemas, verificação da realidade do problema e desenho de soluções é altamente sustentado por research e testes constantes na enorme base de utilizadores disponível.

Aparna Chennapragada é a responsável de produto da Google e foi a mulher que se seguiu no no desfilar de gigantes pelo grande palco do The Next Web. Com uma apresentação em que prometia revelar lições e observações dos seus anos de experiência na área mobile, Arpana começou por mostrar que grande parte dos problemas do mundo real são problemas de informação e que, se uma start-up quiser resolver um obstáculo real, terá de desenvolver produtos de informação – por exemplo, uma app que, através de um mapa, informa do trânsito da cidade, o que permite estradas mais descongestionadas.

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Como criar esses produtos de informação? Aparna apresentou a fórmula: inteligência artificial (AI) + interface (UI) + adaptação à pessoa e ao contexto de utilização (I). Com esta combinação, diz, é possível criar os produtos mobile do futuro. Aparna Chennapragada usa vários produtos da Google, como o Search, o Now, o Photos e o Android, para ilustrar o seu ponto de vista. Aproveitando os exemplos para mostrar ao público como pequenos pormenores contribuem para a afinação da complexa máquina.

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Jeff Jarvis começou a conferência pedindo desculpa em nome dos americanos pela existência de Donald Trump, com um boné de campanha de Hillary Clinton, o jornalista que arrancou aplausos com o pedido de desculpa não foi tão consensual ao falar do apoio a Hillary. Esse não era contudo o tema central da conversa que depressa se re-centrou. Jeff é um dos pensadores mais influentes na área dos novos media e dedicou os seus 20 minutos a uma espécie de desmistificação do panorama.

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Para o jornalista e professor, a analogia é simples: a Internet matou os mass media; os mass media é que tinham criado o conceito de massa; então a Internet matou a massa. E é sob este pressuposto que Jeff introduz a ideia de serviço e relação no negócio dos media, propondo uma visão mais atenta sobre as comunidades interessadas e o estabelecimento de propósitos concretos. Para Jarvis o desnorte dos publishers que produzem conteúdo em série numa lógica de massa é o tendão de Aquiles dos novos media que num ambiente mais interactivo, têm que se tornar também eles mais interactivos e disponíveis para responder às solicitações do público.

Foi um primeiro dia surpreendente e em crescendo num evento que em poucos minutos nos conquistou. Para o dia seguinte as expectativas ficaram reforçadas pela boa experiência e, para a noite, uma série de ideias efervescentes em processo de digestão.