Fraude do maior jornal brasileiro é ainda pior do que se pensava


No dia 20 de Julho, o The Intercept denunciou um caso de manipulação noticiosa por parte da Folha de São Paulo. Com base numa sondagem realizada pela Datafolha, a notícia reiterava que 50% dos brasileiros pretendiam a continuidade de Temer no executivo do país, assim como a rejeição através de percentagens baixas de voto na hipótese novas eleições. Como aqui relatámos, Greenwald, editor do The Intercept, conduziu uma investigação que desmascarou os resultados falaciosos e fraudulentos da pesquisa de opinião.

Após a denúncia, as reacções não demoraram a surgir e o caso conheceu novos detalhes ainda mais graves. Naturalmente, diversos jornalistas e interessados pelo acontecimento juntaram-se, de modo a ajudar a perceber o que levou a um encadeamento noticioso errado com base supostamente cientifica. Brad Brooks, correspondente chefe da Reuters no Brasil, visualizou uma contradição grotesca entre dados da mesma pesquisa. O jornal compunha títulos com a vontade de 50% de brasileiros em manter Temer e que apenas 3% dos inquiridos queriam novas eleições, enquanto que a empresa responsável pela sondagem, Datafolha,  anunciava à imprensa que 60% dos eleitores queria novas eleições. Estranho no mínimo.

fraudefolhaspaulo_02

Após esta revelação, e acedendo aos dados publicados pela Datafolha, The Intercept não percebia onde se encontravam os 60% que a empresa falava. Chegava-se à conclusão que só algumas perguntas e respostas foram do conhecimento público, permanecendo em regime privado as restantes. O resumo da resposta que 60% dos brasileiros inquiridos queria novas eleições era uma desses componentes não públicas. Num esforço de Fernando Brito do site Tijolaço e através de manobras digitais foi possível aceder à versão original, entretanto retirada, da sondagem e o pior cenário confirmava-se.

A pergunta 14 dizia o seguinte: “Uma situação em que poderia haver novas eleições presidenciais no Brasil seria em caso de renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer a seus cargos. Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a Presidência da República ainda neste ano?”. As respostas não podiam ser mais claras. 62% dos inquiridos são a favor, enquanto 30% são contra. Assim, e ao contrário do que os títulos da Folha de São Paulo diziam, existe pelo menos 62% que querem novas eleições e a renúncia de Temer. A condição “pelo menos” é ainda mais relevante. Os 62% de resultado podem ser inferiores à dimensão real. Dos inquiridos, existe uma fatia considerável das pessoas que são apoiantes do PT e responderam que são contra devido ao facto de quererem Dilma de volta à presidência, o que agrava ainda mais a percentagem de rejeição a Temer.

fraudefolhaspaulo_03

Na versão original do documento está também a pergunta: “Na sua opinião, o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff está seguindo a regras democráticas e a Constituição ou está desrespeitando as regras democráticas e a Constituição?”. 49% das pessoas inquiridas respondeu que está seguindo, enquanto que 37% afirmou que está desrespeitando as regras democráticas. Fácil de adivinhar que a mesma pergunta foi omitida.

Na defesa da Folha de São Paulo, Sérgio Dávila, editor executivo, respondeu que é “prerrogativa da redacção escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa”. Acrescentou ainda que certas componentes da pesquisa e que foram alvo de investigação pelo The Intercept ,não suscitaram interesse jornalístico.

Fica claro que o rol de opções jornalísticas não justificam a fraude de informações. Ao ocultar diversas informações extraídas da sondagem, os editores da Folha manipularam os seus leitores e a opinião pública através dos títulos e notícias escolhidas. O The Intercept pela mão de Glenn Greenwald conclui a sua investigação com uma frase que espelha na perfeição o que aconteceu: “Motivos à parte, é indiscutível que a Folha essencialmente enganou seus leitores no que diz respeito a questões políticas cruciais e escondeu provas fundamentais apenas publicadas após serem pegos em flagrante.”