Maior jornal brasileiro acusado de ter manipulado notícias para ajudar Temer


Glenn Greewald, fundador e editor do jornal digital The Intercept, parece ter desmontado a construção de uma narrativa falacciosa com base na elevação positiva do novo Presidente do Brasil, Michel Temer.

Através da Folha de São Paulo, jornal histórico brasileiro e da Datafolha, respectiva instituição de sondagens que trabalha para o meio de informação, foram compostos estudos de opinião que serviram de suporte a notícias e parangonas que elevavam a popularidade de Temer sustentados em dados factuais. Contudo, as premissas de investigação estavam inquinadas à partida resultando em conclusões erradas.

Vamos por partes até chegar ao desenlace de Greewald. O jornalista norte-americano começa por estranhar a falta de sondagens políticas nos grandes meios de comunicação social nos últimos meses. 3 meses após a destituição de Dilma e a entrada de Temer no Palácio do Planalto não ocorreu nenhuma divulgação de estudos de opinião, sendo Abril o mês da última sondagem publicada.

Todavia no passado sábado, a Folha de São Paulo através do centro Datafolha divulgou uma sondagem com resultados surpreendentes e que suscitaram curiosidade. Nos títulos podia-se ler que metade do Brasil desejava que Temer continuasse à frente do executivo. Igualmente pertinente era a percentagem residual, 4% e 3% de brasileiros, que respondeu não querer nenhum dos dois presidentes ou a realização de novas eleições, respectivamente.

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Não só estas informações pareciam ser estranhas. Ao analisar os outros dados da pesquisa, o editor do The Intercept percebeu que haviam dados incongruentes e que não faziam sentido. Na mesma sondagem, os eleitores foram inquiridos sobre quem seria o melhor presidente em 2018. Além da hipótese Lula da Silva ter sido a resposta mais dada, Temer continha apenas 5% das intenções de resposta.

Mais curioso ainda é a conclusão que um terço dos votantes brasileiros não sabe o nome do Presidente Temer. No fim de análise, e atentando nas últimas sondagens de Abril, é “inconcebível”, segundo palavras de um site de esquerda que analisou esta sondagem, que a percentagem de brasileiros favoráveis a novas eleições tenha caído de 60% para 3 %, assim como o aumento de 8% para 50%, as pessoas que querem a permanência de Temer no executivo.

Inicialmente, a Folha de São Paulo não divulgou o processo metodológico do estudo de opinião, porém na passada terça-feira foram publicados dados auxiliares e por sua vez as questões que orientaram a sondagem. É precisamente nesta condição que reside a manipulação da investigação. Pode ler- se no artigo do The Intercept: “Apenas 3% dos entrevistados disseram que desejavam a realização de novas eleições, e apenas 4% disseram que não queriam nem Temer nem Dilma como presidentes, porque nenhuma dessas opções de resposta encontrava-se disponível na pesquisa.”

Portanto, os inquiridos tinham duas hipóteses de resposta fechadas e estavam condicionados a responder uma em detrimento da outra. Seguindo o raciocínio, 50% das pessoas não disseram que queriam a continuidade de Temer na presidência, responderam sim que essa seria a melhor opção face à segunda hipótese de resposta, o retorno de Dilma.

A realização de novas eleições parece ser uma opção válida e presente na sociedade brasileira e que segundo Greewald deveria ter sido incluída no leque de respostas. Agrava ainda mais a questão, o facto de em Abril a mesma empresa que concretizou esta sondagem ter incluído a hipótese “novas eleições” nas possibilidades de solução. A omissão da metodologia foi apenas um dos pecados capitais. O seguimento lógico de raciocínio terminando nos títulos chamativos e fraudulentos são o culminar de um processo de manipulação da opinião pública.

Na procura do contraditório, The Intercept falou com Luciana Chong da DataFolha, a empresa que fornece as sondagens para a Folha. Segundo Chong, foi o jornal quem definiu as perguntas postas aos inquiridos, confessando o carácter enganoso e impreciso em extracções erradas de perguntas que não foram colocadas.

A fraude foi revelada e parece indesmentível a falta de rigor e seriedade no tratamento da informação com vista à manipulação da sociedade. Todavia as conclusões não se findam aqui. Será importante perceber o porquê destas opções, omissões e manipulações por parte da Folha de São Paulo e que influência tiveram no meio brasileiro. O nome de Temer não pode igualmente passar em claro.