O Alive vive. E bem


Não podemos começar um texto sobre o Alive sem deixar claras algumas notas prévias:

  • Qualquer comparação entre as primeiras edições do festival e as que em diante decorreram é escusada: a Everything is New cresceu exponencialmente desde 2007, tornando-se a maior promotora de espectáculos do país; o número de festivaleiros explodiu e a festivalização das cidades — esse fenómeno sociológico cada vez mais premente nos novos estudos culturais — efectivou-se como uma realidade também portuguesa, embora o NOS Alive se enquadre num tipo de festival que em nada tem que ver com essa dimensão sociocultural. Com isto assente, presume-se que qualquer indivíduo, seja ele da classe A ou F e tenha ele que idade tiver, está predisposto a frequentar festivais de verão, sobretudo aqueles que reúnem com o mesmo modus operandi do Alive , isto é: ser grande sem segregar públicos (gosta de Hip-Hop e electrónica? Tem-na no cartaz. Prefere artistas pop? A maior parte deles está no palco NOS. É mais dado ao alternativo? O palco Heineken e o Coreto G-Star Raw são os palcos indicados para si).
  • A presença de indivíduos de mais de 80 nacionalidades afecta obviamente a maneira portuguesa de viver os festivais: os espanhóis falam muito alto, os ingleses gostam mais de cerveja do que das próprias mães e as outras dezenas hão-de servir desculpa para o que resta. O que se tem de aceitar, no entanto, é que são os “bifes” e “nuestros hermanos” que esgotam este festival em particular e dinamizam inúmeros sectores da nossa economia, sendo eles principalmente a cultura, turismo, restauração e transportes. Sem os “visitantes”, teríamos, é certo, menos ruído, cervejas derramadas e outras inconveniências, como o não vermos absolutamente nada porque um viking com 4 metros se decidiu plantar à nossa frente. No entanto, convém também lembrar o lado menos favorável dessa perda. Falo obviamente das quebras nas receitas que pagam os artistas e da nossa eventual reduzida capacidade de aceitar o outro, coisa que tão prementemente parece acontecer. Faça-se um esforço e perceba-se: sem estrangeiros, o Alive não teria a mesma graça (em tantas músicas fui eu arrastado por ingleses com as letrinhas bem decoradas, contrastando com os nossos tugas entretidos nas suas selfies e conversa para o lado — esse nosso grande problema. Muitos outros terão sido ainda melhor tratados por eles — vi nascer amizades mais ou menos sérias nos comboios da CP. Entre a espera, lusos e camones trocavam endereços de Facebook, prometendo uns estadia em Portsmouth e outros na nossa capital. Se não é a diferença que torna este festival interessante, então não sei certamente o que será.
  • Nem toda a gente vai a festivais de música pela música, e não falo de quem escolheu assistir a 50 minutos de concerto do Agir. Homens feitos e miúdos com menos barba do que uma modelo da American Apparel não parecem resistir a pinturas faciais, t-shirts gratuitas, rappel, escalada, slide e derivados. Tudo isso temos nós de saber aceitar em festivais como o Rock in Rio ou o NOS Alive (semelhantes a nível da estrutura, segurança e logística e desenhados, como disse acima, para todas as idades e classes). Sem eles não haveria patrocinadores, e sem patrocinadores não se fazem festivais. Uma dica para lidar com estas pessoas: agradeçam-lhes do fundo do coração o não estarem a enlatar mais as multidões durante os concertos, sobretudo nos palcos secundários.

nosalive16ambiente_03

Postos de parte estes pontos, podemos passar ao que interessa. A 10ª edição do Alive deu-se sem problemas de maior. O cartaz, mais do que diversificado, foi coerente (salvo algumas excepções, como aconteceu com os Sean Riley & The Slowriders — mas já falamos deles em detalhe mais à frente).  Sem serem sublimes — os que andaram mais perto foram, sem grandes dúvidas, os Arcade Fire —, os cabeças de cartaz saíram de cena sem que lhes pudéssemos apontar o dedo, e isso aconteceu em todos os palcos. Os “nomes do meio”, uns mais interessantes, outros menos (ainda estamos a perceber o que fazia, por exemplo, Carlão no palco Heineken), também não deixaram de nos mostrar que o Alive, com aquele grande “apesar de tudo” pelo meio, continua vivo. Um gigante vivo, acordado, abastado e disposto a acolher gentes distintas. Noutros tempos seria filantropia, hoje é negócio.

nosalive16ambiente_27

Sobre os concertos, ficam algumas considerações (nota: decidiu-se, justa ou injustamente, atribuir uma classificação de 1 a 5 a cada uma das actuações. Nem todos os concertos puderam ser avaliados, mas o escriba espera a compreensão dos leitores: um só homem não dá para mais de 120 e muitos artistas).

Palco NOS 

The 1975  (3/5)

As guitarras e baixo gingam como nos Friendly Fires, o som de bateria é monstruoso e não há como o misturar mal ao vivo. Matthew Healy e seus companheiros de estrada são óptimos executantes, basta ver o que este último faz aos trastes — da guitarra, pois claro — enquanto canta.  Há grandes canções nos 1975, como é o caso de “Chocolate”, “Heart Ou” ou “The Sound”, singles óbvios, mas a necessidade extrema de desperdiçar esses momentos com chorrilhos de baladas insensíveis, insípidas, inadequadas e outras coisas começadas por “in”, torna-os numa banda irritante, talvez das mais irritantes da década. Uma banda que sabe escrever canções gingonas nunca deve fazer o que os 1975 fazem ao vivo, que é por em causa uma promoção ao palco principal à custa de temas sensaborões e a descambar para o baladesco, como “Girls” ou “You”.

nosalive16dia1the1975_04

nosalive16dia1the1975_10

Biffy Clyro (4/5)

3 vezes no Alive, 3 vezes chutados para a lista de primeiros concertos da tarde. É inacreditável como se deixa escapar uma oportunidade fazer de um bom concerto uma actuação inolvidável. Apesar de o seu novo disco ser provavelmente o menos generoso para a música, isto entre os 7 que já lançaram, os escoceses deixam sempre tudo o que têm e o que não têm em palco. O grande “sim” desta banda é a intensidade e prazer com que Simon, Ben e James ainda tocam juntos (gaba-se-lhes isto sabendo que se aturam há mais de 20 anos — e aturar qualquer pessoa mais de vinte anos na indústria musical equivale a um prémio Lopes Graça, ou coisa que lhe valha). “Wolves of Winter” e “Animal Style” cintilaram o possível, mas foram “Bubbles”, “Black Chandelier” e “Mountains” que escarrapacharam nos grandes ecrãs o porquê de os Biffy Clyro merecerem um slot mais agradável, mesmo que no palco secundário. Uma banda com tanto interprete dedicado na plateia não merece repetir a dose de infortúnio que já se havia sentido em 2012 e 2010.

nosalive16dia1biffyclyro_02

nosalive16dia1biffyclyro_07

Pixies (3/5)

Começa com os Pixies uma queixa que se há de repetir ao longo das diversas considerações: o som de frente do palco NOS não pode nem deve ser a principal razão pela qual as pessoas desgostam dos concertos. Por que motivo somos nós obrigados a olhar de lado para “Monkey Gone to Heaven” ou a torcer o nariz à maravilhosa “Tame”, sem esquecer aquilo que os Pixies fizeram com o “Head On” ali à frente de tanta gente? Não há como justificar estas limitações de som. A juntar-se ao mau som, entrou também, muito infelizmente, o mau tocar. Joey Santiago, por muito que me custe dizer isto, já não atina bem com aquelas Les Paul e Deusenbergs que traz para o palco. Para além de se dar ao luxo de tocar canção e meia com uma guitarra tão desafinada que nem grungeira conseguia ser (valeu-nos o roadie, bem atento, a sugerir-lhe a troca), escorrega meios tons música-sim-música-não, tornando-se difícil prestar a devida reverência às malhas de Surfer Rosa e Doolittle, obras maiores da história do Grunge, e aí tão bem-mal tocadas e influenciadas pelos Hüsker Dü e Captain Beefheart.

nosalive16dia1pixeis_05

 Tal como na edição de 2014 do Primavera Sound, Paz Lenchantain e David Lovering aguentaram as rédeas de uma banda bem disforme, com Black Francis a ter momentos inesquecíveis — tão bem que lhe correu o final, dadas as circunstâncias —, mas outros tantos sofríveis. Não foi, à semelhança do primeiro concerto com a nova formação em solo luso, bom nem mau. Como tudo o que os Pixies passaram a ser depois dos anos 90, o concerto do Alive não passou de um tímido “mais ou menos”.

nosalive16dia1pixeis_08

Chemical Brothers (4/5)

Aparentemente estranha, a escolha dos Chemical Brothers para cabeça de cartaz tornou-se numa feliz realidade, funcionando em jeito de ácido big beat para esquecer todas as pequenas-grandes-desilusões dos Pixies (já com o som consideravelmente alto).

nosalive16dia1chemical_08

Chemical Ed e Chemical Tom não têm muito por onde falhar: os visuais absolutamente estonteantes engolem o palco sem que sequer os possamos vislumbrar e as canções praticamente que se tocam sozinhas. O duo sabe que quem o aguarda precisa de clássicos para satisfação instantânea, e por isso despeja logo nas primeiras músicas “Hey Boy Hey Girl” e “Do It Again”. São truques que vêm com a experiência desde os dias do Heavenly Sunday Social Club e que não se esgotam em 2016. Simons e Rowlands parecem ter a noção de que o seu último grande disco foi “We Are The Night” e por isso aceitam com humildade a tarefa de fazer desfilar as canções que até aí compuseram. Com simpatia, também nos oferecem as mais desinspiradas e recentes “EML Ritual” e “Don’t Think”, e nós, como anfitriões cordiais que somos, aceitámos de bom grado.

nosalive16dia1chemical_06

Foals (4/5)

Um mito urbano diz-nos que os Foals, por muito que queiram, não conseguem dar maus concertos. Para já, parece ser verdade; basta lembrarmo-nos do debute da banda de “Cassius” e “Miami” neste mesmo festival. Em 2011, já Yannis Phillipakis cantava do fundo das entranhas a dor e a raiva nas canções adultas a que os Foals conseguiram chegar logo no segundo disco. 5 anos volvidos, “Spanish Sahara” continua a ter a mesma recepção, ainda que tocada para mais uns quantos milhares de melómanos do que nessa edição do Alive. Volta e meia, os ingleses vão despejando temas crescentemente pop, como “My Number” ou “Mountain at my Gates”, mas é a catarse sempre à espreita que torna as actuações dos Foals um momento único. Há meia década esperávamos ansiosamente pela demolidora “Two Steps Twice”, hoje contamos com “What Went Down” para o desabamento final, aquele momento em que, já de aorta bem pulsante, nos deixamos carregar no mar de frustrações e angústia que a banda traz à pele. Não terá sido tão memorável como no Coliseu ou no Super Bock (mais uma vez, há bandas que não vale a pena deixar para os slots da tarde), mas, caramba, foi um bonito concerto, com um som óptimo e um público a igualar-se-lhe.

nosalive16dia2foals_11

nosalive16dia2foals_09

Radiohead (4/5)

Aos Radiohead reserva-se, na qualidade de banda de culto — a maior dos últimos 20 anos, e a terminologia não impede que encabecem festivais ou mesmo os esgotem— o direito de fazerem o que bem lhes apetecer. Se isso implica termos de passar pelas brasas enquanto suas excelências reproduzem nas primeiras cinco músicas o tracklisting de A Moon Shaped Pool , isto para que depois possamos ouvir o que realmente interessa, que o seja. “Burn The Witch”, faça-se justiça, dá um saboroso 10-0 à versão de estúdio quando tocada para 55 mil pessoas. Um concerto que começa com Jonny Greenwood a agarrar no aro de violino e enfiar a guitarra num caldeirão de reverbs e delays não pode, em tempo algum, ser um mau concerto, mesmo com um som de frente baixíssimo. “My Iron Lung” trouxe os Radiohead de volta a Algés, depois da passagem pelo disco que ninguém parece querer ouvir, tendo o caminho sido trilhado (quase) de single em single até ao encore — atacar as faixas mais difíceis ao princípio para rejubilar no fim não nos parece mal, e é um truque mais do que justo quando resulta, como em Algés, mas certo é que eventualmente acaba por desgastar grande parte da plateia (sobretudo a mais jovem, que se refugiou nas grades do palco secundário até ao final do concerto). “Identikit” e “The Numbers” soam-nos melhor quando amalgamadas entre “Reckoner” e “Exit Music”, o que não quer dizer que se possam sequer comparar a algo que Greenwood e Yorke tenham escrito até In Rainbows. As faixas de King of Limbs também conseguem ser bem amadas, mas nunca com devoção semelhante ao que veio para trás, cronologicamente falando, claro.

nosalive16dia2radiohead_07

O 1º encore, momento que mais do que outro qualquer, merece destaque no concerto, é verdadeiramente arrepiante: “Paranoid Android”, “Nude” ,”2+2=5″ e “There There” de rajada (“Bloom” é omitida por motivos óbvios) não deixam qualquer homem ou mulher inteiros. Pode parecer um pormenor mínimo, mas é impressionante o dom que Thom Yorke tem para pegar nestas músicas e ainda fazer delas o que quer. “Nude”, sem guitarras ou instrumentos a mais, fá-lo serpentear entre agudos numa luz dourada, quase angelical. “There There”, com Greenwood a guiar o ritmo da banda entre percussões, leva-nos à lágrima, mesmo que não sejamos fãs — é difícil resistir a tanta emoção condensada em tão poucos minutos. Concentrados e rápidos a tocar os hits, ainda trazem outro encore. “Creep” satisfez tudo e todos os que tinha a satisfazer: serviu para vídeos no snapchat, para os fiéis levarem a sua vela à discreta mas forte igreja de Pablo Honey e deu à organização o seu brinde pelo 10º aniversário. “Karma Police”, essa sim, fez os malfeitores e maldizentes encontrar represálias: os Radiohead, enquanto executantes, continuam numa forma invejável, mesmo que se limitem a entregar êxitos (quem viu Greenwood de perto sabe do que falo: os leads oscilantes e tocados com o mesmo fulgor desde 1985 estão longe de ser esquecidos. Obrigado, herói).

nosalive16dia2radiohead_05

Nota: O NOS Alive não é, como alguns se terão apercebido, o local certo para receber uma banda que tão bom som merece, e que a intimidade de menos uns bons milhares de pessoas justifica, mas mesmo assim não deixamos de nos mostrar minimamente agradecidos. Podem voltar de quatro em quatro anos, a malta agradece.

Band of Horses (3/5)

Entre jantar condignamente ou ver os Band of Horses, os portugueses preferiram a primeira. Não criticamos: as filas para a restauração, como em anos anteriores, são largas e consomem grande parte do tempo aos festivaleiros. Adiante.

nosalive16dia3bandofhorses_13

Ben Bridwell, bem disposto, veio tentar apresentar Why Are You Ok, lançado há pouco mais de um mês. A plateia, que quase nunca esteve para aí virada, preferiu falar. Muito se falou em todos os pontos do recinto: perto da grade, em frente à régie, nas laterais. Tornou-se impossível fugir ao palrar geral. “No One’s Gonna Love You” e “Funeral”, obrigatórias nos alinhamentos, despertam, bem lá para o final, aqueles que acabam de chegar e dão a ilusão de um concerto sem percalços. A verdade é que os Band of Horses não falharam, mas há bandas que nunca deviam sair da Aula Magna. Nota mais do que positiva para os temas do novo disco: os rapazes continuam tão estridentes quanto enamorados, ou não viessem eles de uma das cidades que mais se presta a essa dicotomia, a belíssima e eterna Seattle.

nosalive16dia3bandofhorses_09

Arcade Fire (5/5)

Sem disco novo na calha, os Arcade Fire propuseram-se a fazer algo relativamente diferente dos Radiohead, ou não fossem as duas bandas exponencialmente diferentes. Assumindo o registo best of — com folia no início, meio e fim —, lançam de rompante “Ready To Start”, cristalina e cintilante canção, tal como Win Butler, vestido de branco da cabeça aos pés, em noite de celebração da vida (conjugal, de banda, até da vida dos outros). Reflektor, The Suburbs, Neon Bible e Funeral: todos eles são belíssimos discos pop, e por isso mesmo merecem também celebração adicional.

Assumida a folia, não deixa de haver o respeito pelas fases menos gingonas dos canadenses: “My Body Is A Cage” e “The Suburbs” não precisam de malabarismos e de festivalizações e por isso não os têm. “We Exist”, por outro lado, recebe a benesse de tudo o que é jogo de luzes, bolas de espelhos ou cabeçudos dançantes — e eles lá apareceram, mas só em “Here Comes The Night Time”. A coerência sempre foi trunfo nesta banda.

Dos Sex Pistols a Nirvana, Portugal tem direito a surpresas, tributos e evocações. O aparato em palco é menor do que nas duas últimas passagens por Portugal, mas mesmo assim vamo-nos sentido especiais. Bem desenhada, a setlist obriga a conviver as antigas “Neighborhood”, da fase mais folk-rock, com “No Cars Go” e “Ocean Of Noise”, do apianado Neon Bile. Aos Arcade Fire, sai-lhes tudo impressionantemente bem tocado. Régine Chassagne e os irmãos Butler têm argumentos fortes para os considerarmos uma das melhores bandas do NOS Alive 2016: as canções respiraram com calma, equilíbrio e vivacidade necessários. No fim, a felicidade nos rostos lusos tornou-se óbvia. Regra geral, gostamos de concertos festivos sem ser abrutalhados e demasiado sentimentalões, e aí estes meninos, tão completos, assentam-nos como uma luva.

M83 (5/5)

Antes do concerto, surgia a definitiva questão: “terão estes tipos tomates para encerrar o palco principal do Alive?”.  A resposta foi aparecendo aos poucos: “Steve McQueen” deu-nos o primeiro sinal de que em frente a nós estava uma grande banda pop capaz de fazer estragos, “Laser Gun” confirmou-o e “Midnight City”, com um som de frente maravilhoso, fez o resto.

Grande parte desse sucesso vem da contribuição de Jordan Lawlor. Baixista, guitarrista e percussionista incansável, atira-nos ao tapete com facilidade. A sua energia em palco é absolutamente contagiante, mesmo que dificultada pelo grilhão do instrumento. Anthony Gonzalez, o líder dos gauleses, justifica o resto: os teclados, gritantes sem serem histéricos, e as guitarras aéreas, fazem de “Sitting” ou “Intro” temas mais do que adequados para a despedida, sem cair no erro de adormecer os mais incautos.

A nostalgia da música francesa, que tão bem os americanos souberam usar, por exemplo, em séries como Mr.Robot, foi mesmo a escolha ideal para a banda sonora deste fim de festival. Sem deixar morrer a festa, os M83 deram-nos duas opções válidas: ou se continuava a festa no palco Heineken ou se ia para casa de sorriso arrancado pelas melodias orelhudas. Qualquer uma das duas, depois de hora e um quarto de luz, cor e som finalmente aceitável, se tornava mais fácil depois do que os franceses acabaram por fazer.

Palco Heineken

John Grant (5/5)

Este “grande filho da mãe” é, provavelmente, dos músicos mais completos que subiram ao palco no 1oº aniversário do NOS Alive. Já no Porto Grant havia deslumbrado casais e singulares chorosos na colina e plateia. Mais a sul, repetiu a dose.

A wittiness do ex-líder dos Czars é evidente: os liricismos não sobressaem ao resto da música, mas são tão importantes quanto ela e acompanham-na em todas as suas tensões. Em “Glacier”, petrificante ao vivo, ouvimos das coisas mais bonitas dos últimos anos, e não ficamos indiferentes (“This pain/ It is a glacier moving through you/ And carving out deep valleys/ And creating spectacular landscapes/ And nourishing the ground/ With precious minerals and other stuff / So, don’t you become paralyzed with fear /When things seem particularly rough”). Para além disso, Grant e a sua voz de barítono não desonram estas pérolas literárias. Em palco, emana-nos a energia de homem frágil, ora sentado ao piano, ora exibindo a sua barriga viril e quarentona em roupa de ginásio. Não deixemos, no entanto, que as aparências iludam: quando abre a boca, John Grant cala salas inteiras. E foi mesmo isso que aconteceu, debaixo da luz natural e quente do fim de dia em Algés.

Mesmo de sorriso no rosto e pomposa ironia a correr nas veias, Grant esconde por detrás da grande voz as cicatrizes que o fazem escrever tão bem o desamor e o desencanto. Como ele diz algures: “I’m willing to do anything to get attention from you, dear”. E não é que conseguiu mesmo?

Wolf Alice (4/5)

A banda de Ellie Rowsell, Joff Oddie, Joel Amey e Theo Ellis caiu no goto dos ingleses com o seu shogazey e sentido disco de estreia My Love Is Cool. Ganharam NME Awards, foram nomeados para um Mercury Prize e também para um Grammy. Os portugueses, de longe, perceberam-lhes o porquê de tanto sucesso: Rowsell, uma tipa muito gira (não que isso interesse minimamente para a música que faz), canta que se desunha, felizmente sem toques grungeiros; Oddie, apoiante de Bernie Sanders, sabe exatamente como chegar ao som das Hole, Slowdive ou Jesus And Mary Chain, sem parecer datado; Amey é feroz na bateria (em “Your Love’s Whore”, tocada logo de início, dificilmente olhamos para outro membro que não ele) e Ellis entra na história como mais um espevitado baixista que agarra as filas da frente só com o olhar.

O pequeno problema dos Wolf Alice é somente a falta de canções; os rapazes tocaram o disco quase de uma ponta a outra, mas de pouco serviu. Grande parte dos temas cai na redundância sonora (as guitarras e arranjos são demasiado parecidos, embora esse seja um handicap do grunge e do shoegaze em particular), mas damos-lhes abébias, porque são jovens, talentosos e cheios de bom gosto. “Lisbon”, escrita durante um fim-de-semana solarengo no nosso país, levou a melhor sobre os temas do restante alinhamento, mas foi “Giant Peach” a grande canção rock n’roll do set. É esperá-los daqui a uns anos, já com o segundo disco em mãos e em nome próprio. Vai ser bom de se ouvir.

Sean Riley and The Slowriders (3/5)

Há concertos que são uma verdadeira prova de fogo, e este não deixou de ser um deles. Passado menos de um mês desde o desaparecimento de Bruno Pedro Simões, baixista e braço direito de Afonso Rodrigues na composição, os Sean Riley and The Slowriders escolheram não desmarcar as datas já confirmadas e continuaram a apresentação do disco homónimo, lançado em Abril deste ano.

Por norma, os concertos dos Slowriders não costumam ser festivos, mas a noite do Alive, dadas as circunstâncias — o concerto principiou e acabou com discretas invocações e homenagens ao desaparecido “King B”—, carregou um lado ainda mais sombrio do que é habitual. Trajados de negro e com cruzes nas guitarras, trouxeram temas particularmente difíceis, como “Dili” (canção escrita por Bruno Pedro, tem um pré-refrão nada fácil de se pensar nos dias de hoje. Ainda hoje, ao ouvir aquele “I’m Still Here Brother”, pensamos no quão bem soava o seu Rickenbacker, ali deixado em palco para a memória não o deixar fugir) ou “Harry Rivers” — agora sem a melódica tocada por ele. Apesar do esforço, não conseguimos evitar relembrar as imagens que nos ficaram gravadas. Sem contar com os problemas técnicos numa das guitarras,  o concerto seguiu sempre inabalável. “This Woman” e “Houses and Wives” chegam oleadas e bem estudadas aos ouvidos de espanhóis, ingleses, italianos e de outros tantos que ali estavam de passagem, muitos deles em fuga da eletrónica dos Chemical Brothers. Tudo pareceu de feição, menos o domínio do tempo e o slot escolhido — sem prestar a menor atenção aos géneros de cada banda, alguém decidiu que seria boa ideia ter os portugueses a suceder a Soulwax. Muito, muito mal pensado.

Em fim abrupto — a banda tinha já ultrapassado a hora de concerto —,  ainda ouvimos as primeiras linhas de baixo de “BSS” (emprestadas pelos Death Cab For Cutie), agora tocadas por Nuno Filipe, companheiro de longa data da banda. Não é nem será necessariamente a mesma a coisa, mas temos de deixar as canções e os Slowriders viver. Longe da perda, ainda há milhentos temas para tocar e outras tantas plateias para deslumbrar. E eles sabem bem disso.

Jagwar Ma (4/5)

A premissa, como deixou claro Gabriel Winterfield, era simples: “viemos tocar temas novos e outros antigos também”. Melhores à noite do que durante uma tarde de sol abrasador, os Jagwar Ma trouxeram a sua discoteca móvel para junto dos calorosos portugueses, que lhes agradeceram ficar a conhecer as novas batidas e grooves do disco que aí vem. “Come Save Me” foi êxito, “OB1”, uma das novas faixas, acalentou a desbunda. Poucos concertos deste palco viram tanta gente dançante como o dos australianos.

Winterfield até pode não ter uma voz por aí além, mas contagia-nos com o bem tocar e bem dançar por cima das produções irresistíveis de Jono Ma. “Uncertainty” é favorita entre a multidão, que, sem excepções, se deixou arrastar pela psicadelia dos teclados e baixo corpulento.

Father John Misty (5/5)

J. Tillman, aqui encarnando a persona de Father John Misty, deu muito provavelmente o melhor concerto de todo o festival.

Até subir ao palco, Tillman é um tipo calmo e relativamente introvertido. Depois disso, não há quem o agarre: ele é guitarras voadoras em “Nothing Good Ever Happens at the Goddamn Thirsty Crow”, descidas à plateia em “I Love You Honeybear” e teatralidade durante… bem, durante o espetáculo inteiro. “Bored in the USA” cristaliza-nos e não podemos mais sair do palco Heineken, pelo menos até que Misty se vá embora e nos deixe com o tormento da espera pelo seu próximo concerto em solo luso.

nosalive16dia2father_06

As canções, tão mordazes que são, deixam-nos o coração em pedaços, mesmo sendo interpretadas no limite do credível, uma vez que sabemos que tudo o que ali se se escreve parte da experiência pessoal e do tormento. O que nós vemos sempre que Joshua Tillman se entrega à plateia é o extra, o que vai para além do tocar bem, do ter um espírito rock n’roll. Quem compra bilhetes para o ver sai sempre satisfeito, seja porque Father John Misty evoca o folk perfeito em “The Only Son of the Ladiesman”, seja porque chega ao estado mais elétrico e estelar em “The Ideal Husband”, a fechar o alinhamento. Sendo mais simples: como os bons filmes, as boas peças de teatro, os bons livros ou os bons quadros, os concertos de Tillman obrigam-nos a vidrar os nossos olhos no palco, como um holofote que o segue de uma ponta a outra. Vemos amiúde o que faz a sua imensa banda, mas é nele que está sempre o foco. Irradiante, recebe sutiãs, pendura-os nas calças, abraça senhoras de meia idade que com ele se deslumbram. É magia. O Father John Misty faz magia.

nosalive16dia2father_01

Two Door Cinema Club (5/5)

Os três anos de pausa fizeram bem aos rapazes de Bangor, Irlanda do Norte. Sam, Kevin e Alex libertaram-se da depressão causada por mais de 200 datas ao vivo em 2013 e estão de regresso com disco novo. “Gameshow” e “Are We Ready (Wreck)”, tão bem aceites quanto as relativamente conhecidas “Eat That Up It’s Good For You” ou “Pyramid”, não fizeram a banda liderada por um ruivo com alma passar a mínima vergonha.

nosalive16dia2tdcc_09

Sem mudar muito os alinhamentos desde o hiato, os Two Door Cinema Club continuam a apostar na estratégia “Undercover Martyn” ao início,  “Sun” a meio e “What You Know” no final. O que muda, desde então, é essencialmente a passagem de “Cigarettes in the Theatre” do início para o final da setlist. Em equipa ganhadora não se mexe, não é? Desta forma, e apesar da curta discografia, os temas vibrantes de Tourist History e mais cuidados de Beacon vão sendo recebidos como hits. Foram raros os momentos em que o singalong, mesmo que ajudado por amigos de terras de Sua Majestade, deixou de acontecer.

nosalive16dia2tdcc_02

“I Can Talk”, tornada viral pela campanha de uma operadora móvel, apareceu quase colada a “Something Good Can Work”, já na última  fase do concerto. Carregando padrões felinos, Alex Trimble está agora livre de grande parte das responsabilidades na guitarra e teclados, sendo esse trabalho delegado para o novo músico de tour Jacob Berry. Essa liberdade em palco reflete-se na performance do músico; sem guitarras (em algumas músicas), tem agora a voz e corpo mais soltos para se entregar as canções, e fá-lo. Consta, segundo o baterista Ben Thompson, que este foi dos melhores concertos do ano para os irlandeses. Nós não duvidamos minimamente: o público do Alive encontrou ali o seu melhor momento.

Hot Chip (3/5)

É obviamente difícil suceder a um concerto tão enérgico como o dos Two Door. Muito do público já havia saído, mas a restante parte ainda aguardava por uma dose de electrónica capaz de manter as almas vivas até de madrugada. Longe de terem dado um mau concerto, já os vimos fazer bem melhor noutras ocasiões (2013 ligou e quer de volta os rapazes que fizeram de Paredes de Coura uma discoteca para 30 mil pessoas).

Certo é que em 2013 os Hot Chip não tocavam covers de Springsteen e Prince, momentos altos em Algés, mas pareceu faltar-nos (e lhes) o ar para respirar as canções — o alinhamento era relativamente curto; 13 músicas é pouquíssimo para uma banda que tanto prometia. Talvez, tal como os M83, os londrinos merecessem o seu lugar abrilhantado pela lua no palco NOS. “Ready For The Floor” e “Flutes” teriam feito mais mossa, mas seriam convincentes? Ora aí está algo que só com uma repetição (como a que querem os franceses) se pode averiguar.

Ratatat (3/5)

Mike Stroud e Evan Mast voltaram a trazer os leões e outros tantos animais no seu jogo de luzes e som. Mais convincentes à segunda — agora sim estiveram num palco à sua altura —, continuam com um som de guitarra verdadeiramente azeiteiro, mas acabamos a perdoá-los. Se o propósito é animar as gentes com um electro-rock contagioso e pegadiço, aliado a um som de baixo do outro mundo, decidimos juntar-nos à festa.

Não podemos deixar de dizer que são uma má escolha para acabar o NOS Alive 2016 (Grimes ou Hot Chip teriam certamente feito uma festa maior), mas seríamos injustos se não falássemos no quanto os Ratatat nos entretêm com “Lex” ou “Loud Pipes” ao vivo. É preciso estar-se bem disposto, acordado e com vontade de ouvir uma electrónica apesar de tudo minimalista e produzida em espírito folião. Nem sempre isso acontece, mas felizmente, no NOS Alive os astros foram-se unindo.

Palco NOS Clubbing

Throes + The Shine (5/5)

Os Throes + The Shine são absolutamente maravilhosos (e isto é dito sem que haja qualquer relação editorial ou pessoal com a banda). Não vale a pena contextualizar muito: todos sabemos que praticam o rockduro, que misturam com uma qualidade imensa as guitarras com as batidas africanas e que Diron Shine e Mob partem a loiça toda sempre que aparecem para lançar o seu crioulo rico em bpm’s.

O que se pode dizer de novo é que, mesmo com disco a estrear — já experimentado na estrada em França e na Alemanha—, o entusiasmo chega em toda e qualquer música. Há mosh pits no final, os rapazes dão-se ao luxo de entrar com “Batida” e “Dombolo” para só depois apresentarem Wanga, de onde vem “Capuca”, febril e freneticamente distribuída. Para eles, o importante parece ir para além dos singles: a banda só fica satisfeita quando descruza os braços da última pessoa reticente em dançar.  Mesmo depois de termos visto alguns minutos do concerto de Soulwax, ficamos a achar que este foi o grande concerto para acabar a primeira noite em Algés. Em slot tardio, os Throes tiveram plateia completa no Clubbing. Ao que parece, não fomos só nós a ficar ainda mais fãs.

Isaura (2/5)

Precisamente ao contrário dos Throes + The Shine, Isaura parece ter poucos truques na manga, no que toca a entusiasmar plateias. Mesmo com produção cuidada de Ben Monteiro (produtor maravilha de D’Alva), pouca emoção salta à vista. Vocalmente, a lisboeta não quebra barreiras nem deixa de fazer o que a maior parte das snapchat e tumblr pop stars fazem. Há uma tendência e Isaura segue-a sem conseguir ganhar um espaço próprio, sem conseguir ter faixas que digam “isto sou eu” e definam o seu som como idioscópico. Mas, crentes, achamos que ela ainda pode chegar lá, ou não fosse Isaura Santos uma mulher de causas, como o feminismo e o empoderamento da comunidade LGBTQ. Sem tornar gratuito o ativismo, achamos que ainda pode ir mais longe no aprofundamento da simbiose entre o que compõe e aquilo em que acredita.

Gabamos-lhe o número de pessoas que conseguiu arrastar para uma tarde de competição com os Calexico e achamos que tem a postura certa para subir a um palco desta dimensão (para aplaudir, faz alusões engraçadas aos novos soundbites de Cristiano Ronaldo — e só quem já subiu a um é que sabe o quão difícil é ter esse à vontade na comunicação), mas ficamos sempre insatisfeitos por faltar o pormenor “extra” de que falávamos, por exemplo, no caso de Father John Misty. “Change It” é um belíssimo single e tem muita gente a cantá-lo? Certíssimo. No entanto, não nos deixa de ser uma amálgama de tudo o que já ouvimos nos últimos tempos, desde os XX, passando por MØ e acabando em Birdy. Ficamos atentos ao futuro, porque talento não parece ser o problema.

Coreto G Star Raw

Galgo (4/5)

Começaram influenciados pelos Foals e pelo math rock, descobrindo pouco depois o que podiam fazer com o afrobeat e até um pouco de rockduro. “Trauma de Lagartixa”, “Dronomania” e “Skella” são já uma evolução dos primeiros Galgo, que aliás foram dados a conhecer ao grande público  na edição passada do Alive.

Desde então, têm corrido todos os pontos do circuito alternativo e descoberto como se querem e gostam de exprimir: cantam quando é necessário, Miguel e Alex, os donos das guitarras, revezam-se entre o feedback e os leads tropicais. Joana e João não se descolam — uma base rítmica que anda sempre de mão dada. Mesmo sendo absurdamente jovens, parecem já saber domar plateias e granjear elogios. São espertos ao ponto de evitar power chords, dominam os pedais que têm sem precisarem de camiões para lhes levar o equipamento e souberam criar uma imagem própria, sem que qualquer um deles perca a identidade no meio das camisas florais. Seria tão bom se todas as bandas tivessem começado assim…

Fotos de: Manuel Casanova/Shifter

Fotogaleria

Ambiente

Dia 1

Dia 2

Dia 3