O mundo não quis saber de um dos ataques mais mortíferos do ISIS


Johan Galtung, sociólogo norueguês, e Richard Vincent, professor americano de comunicação, desenvolveram um modelo de difusão de notícias que todos os dias se torna real. Este projecto académico define dois factores para o modelo.

O primeiro estabelece como ponto orientador as relações centro-periferia, dando relevância mediática às notícias que contenham matérias centro-centro. O segundo aponta para doze critérios a preencher de modo a uma notícia entrar no fluxo internacional. Dois destes consistem na referência a pessoas de elite e na referência a países de elite.

Em 2016, este esboço teórico teima em ter razão dias após dias. Na semana que passou, ocorreu um atentado terrorista no aeroporto de Ataturk, em Istambul, que vitimou 45 pessoas. O ataque foi concretizado através da explosão de coletes explosivos depois da realização de um tiroteio. Segundo as autoridades, a responsabilidade ficou a cargo do ISIS. Imediatamente a ansiedade mediática se fez sentir. Com um acontecimento destes num dos aeroportos mais movimentados do mundo, estariam os aeroportos americanos e europeus seguros?

Uns dias depois, novo ataque alegadamente a cargo do ISIS, desta vez em Daha, no Bangladesh. Um grupo de homens armados entrou num restaurante da capital do país e manteve os clientes reféns durante doze horas. O balanço traduziu-se num banho de sangue. Morreram 20 civis, 18 dos quais estrangeiros italianos, japoneses, norte-americanos e indianos. A estes números juntam-se dois polícias entre as vítimas mortais. Novamente, este atentado ganhou uma repercussão mediática internacional, sobretudo pela identidade das pessoas vitimadas.

Depois, ataque em Bagdad, no Iraque. Um carro explodiu num bairro comercial da cidade tendo causado mais de 200 mortos, num dos atentados mais mortíferos dos últimos anos. Deste impressionante número de vítimas mortais estarão um número elevado de crianças. De recordar que milhares de iraquianos se reúnem em mês de Ramadão. No tweet seguinte é possível ver no mapa de Bagdad, todos os carros-bomba dos últimos 10 anos.

Para muitos será apenas mais um atentado numa zona do globo onde a relevância mediática roça o nulo. Não há ansiedade, problemas ou inquietações. Nem minutos de silêncio em jogos de futebol ou hashtags de solidariedade. Não há mobilizações no Facebook nem primeiras páginas de jornais com a história de vida dos humanos que ali perderam a vida. Não há centro, não há pessoas de elite, não há um país de elite. Há apenas tristeza.

Uma palavra para Amsterdão. Na noite do dia 4 de Julho uma enorme bandeira do Iraque foi erguida no Palácio Real da cidade. Respeito.