Tsuno, dois, três, a electrónica chegou outra vez


Entre as promessas d’A Maternidade, Spring Toast Records, Nariz Entupido ou Cuca Monga — editoras e coletivos de rapazes e raparigas com sonhos bem definidos — nasce no ano de 2016 a Tsuno Records, label de música electrónica independente, embora ligada, de um modo ou outro, à influência da Match Attack e Gin & Juice.

A identidade da Tsuno, como carinhosamente se vê abreviada pelos integrantes, parte da agremiação de produtores de música electrónica sub-30 com bases firmes no post-rock lisboeta e setubalense. EGBO ou DWARF, nomes de código de Iuri Landolt e Zé Quintino, pertenceram aos Lydia’s Sleep, saudosa banda com influências entre os Radiohead e Godspeed You! Black Emperor; tendo também Raccoon, de quem já falámos no passado, militado na mesma causa, desta feita enquanto integrante de Almada e o Número.

É precisamente em Raccoon, a cara mais jovem da Tsuno, que nos pretendemos concentrar. If, o segundo EP lançado pela editora e também o número dois do músico sediado nos Anjos, vem a provar uma teoria nossa, que aliás não é recente: aos 21 anos, não há muitos jovens que produzam tão bem e com tamanha qualidade no nosso país. Engane-se, no entanto, quem pensa que o nosso aval parte apenas e só da questão de idade. O gosto e a técnica, bem como as influências, estão definitivamente lá — quanto às últimas, diz este rever-se em projetos como Badbadnotgood, J. Views, Nosaj Thing ou Moderat. Caso para um sólido 10 na nossa lista de bom gosto (represente ele o que representar nos dias de hoje).

Mas o mais impressionante de tudo é a facilidade com que o vemos a criar canções. Racccoon descobre em minutos, lá bem fundo das listas do Ableton Live (software com que produz os temas), novos sintetizadores e kits de percussão dos quais não nos lembraríamos, mesmo com meses de experiência em Digital Audio Workstations. “Mitchu Pachu” é um bom exemplo disso: do princípio ao fim vamos conhecendo roupagens novas e antigas que se conjugam sem problemas — escutando apenas os inícios e os fins dos temas, encontramos melodias sobremaneira distintas, mas que mesmo assim conhecem conexões lógicas. Aos que se perguntam, também o truque de manter uma linha harmónica do principio ao fim, acrescentando-se-lhe outros elementos, é usado ao longo do EP, não sendo a única estratégia usada pelo produtor ao longo destes 6 temas. Variedade, mesmo dentro de um só género, é o que não parece faltar.

Como nos bons escritores e argumentistas, o caminho do primeiro ao terceiro ato — neste caso servindo como uma mais do que adequada metáfora para a composição de If— mostra-se quase sempre imprevisível e prazeroso de ultrapassar. Mesmo seguindo os passos que vêm nos livros e tutoriais, há sempre algo de novo nas faixas, um toque que os garotos que pegam pela primeira vez no Garage Band ou Cubase não conseguem replicar de imediato, e que suspeitamos que os produtores da Tsuno só dominam pela longa experiência que têm com instrumentos ditos “reais”.

“EXQVIS”, composta a meias com DWARF, é o cartão de visita final para o disco — que, nem de propósito, tão bem começa arrepiado pelos synths em “Chrysalis”. Um tema maior (o melhor de If, dir-se-ia, sem vergonhas), que nos leva numa odisseia sinestética — o equivalente ao fosfeno de olhos bem abertos — por entre as identidades criativas de cada um dos dois produtores; não conseguimos dizer se é uma faixa mais à Raccoon ou à DWARF, e isso é o que nos deixa clara a abertura para a experimentação e autoconhecimento por parte dos dois músicos. Quintino ajudou na masterização e o comparsa de editora seguiu os conselhos, havendo no disco uma implícita relação mestre/discípulo, que aliás só fica mais exposta se conhecermos as personagens na via real e passarmos a associar rostos a personalidades.

A Tsuno e os seus discos vão-se munindo do companheirismo de bairro, crescendo a passos bem medidos entre o olhar dos irmãos mais velhos da Gin & Juice  e Match Attack, que tão bem têm acolhido DWARF e EGBO nas suas noites vibrantes pela noite lisboeta. If, se as coisas correrem de feição, poderá muito bem ser o disco seguinte a rodar pelas playlists das festas mais vibrantes da nova electrónica. Entretanto, o caminho para o futuro já se vai traçando: os longa-duração de DWARF e Raccoon estão na calha, prontos para sair dos apartamentos que se separam por uma paragem apenas na distinta, ecuménica e tão multicultural linha Verde.

Os tempos vindouros serão certamente cintilantes, agora que nasce mais um coletivo no burgo que tanta gente diferente acolhe, como tão bem mostrou Sérgio Tréfaut no seu magnum opus. Vive-se, entre outras coisas, o fervor ardente dos tempos, trazendo-nos ele o melhor do que se pode pedir na urbe: músicos jovens, com a cabeça polvilhando de ideias artísticas, culturais e sobretudo cooperativas — estranhamente, os novos dias reaproximaram os amigos que têm crafts diferentes, ideologias diferentes e modus vivendi ainda mais distintos: cada um deles é agora uma peça óbvia e bem retalhada neste manto que é a música alternativa lisboeta. Os 2010’s sucedem aos anos zero com uma ideia em mente: é do coletivo que se quer partir, para que finalmente se chegue ao indivíduo, e dele se extraia o melhor que nos tem a ofertar. Nós, aqui, neste canto escuro das pessoas que escrevem coisas, só podemos acenar com a cabeça e, como quem faz o controlo de qualidade nas grandes fábricas, assinalar o nosso “certo”. Vai tudo bem, aqui na capital.