A voz de Elza Soares num dos momentos mais marcantes da cerimónia de abertura dos JO


A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos é sempre um evento marcante. Televisões de todo o mundo sintonizam a mesma frequência e o espectáculo tem sempre proporções globais.

Alguns pormenores acabam sempre ofuscados pela magnitude do show e a confusão de estímulos com que somos bombardeados. As vozes ouvem-se sem se escutar e o fica do que passa é muito pouco ou nada para além das momentos visualmente mais marcantes e de um ou outro pormenor, geralmente cómico. É também habitual que neste tipo de concentração seja tudo consensualmente e politicamente afirmativo.

A excepção deu-se esta sexta feira no ano em que os Jogos se dão num país a atravessar uma momento politicamente muito complicado. O Presidente Interino foi brutalmente vaiado mas ao olharmos para trás – e valha-nos a ajuda da imprensa brasileira – esse parece nem ter sido o principal momento de repudio da noite que ficou a cargo de Elza Soares.

Elza Soares é conhecida pela sua proveniência humilde e pela sua história de vida dramática mas mantém o génio que toca quem se cruza com a sua voz. Seja pela beleza do seu timbre ou pelo peso das palavras. A escolha feita pela cantora para interpretar na cerimónia de abertura dos Jogos é mais uma prova.

Elza escolheu levar a palco um trecho de “Canto de Ossanha”, uma música de Vinicius de Moraes e do violinista Baden Powell que nos transporta até 1966, o segundo ano da ditadura civil-militar brasileira, símbolo da luta de minorias religiosas de origem africana. O excerto escolhido pela cantora brasileira parece reforçar toda a interpretação aludindo à figura de um homem traidor.

O vídeo da actuação não está disponível na Internet devido às restrições impostas pela competição mas o áudio pode ser ouvido no Youtube.

O homem que diz “dou”
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz “vou”
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz “sou”
Não é!
Porque quem é mesmo “é”
Não sou!
O homem que diz “tou”
Não tá
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor…

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!…