Snowden: um filme que nos deixa confusos entre a realidade e a ficção

Filme sobre Edward Snowden e as revelações da NSA estreia esta quinta-feira em Portugal.

Foi no ISCTE que se realizou a ante-estreia de Snowden com Joseph Gordon Levitt no papel principal e realizado por Oliver Stone. O filme retrata de forma cronológica a história de um jovem nascido na Carolina do Norte que, por razões físicas, é impedido de singrar nas forças armadas norte-americanas. Como tal, o serviço ao país passa por tarefas tecnológicas e de vigilância contra o terrorismo. O enredo é atravessado por dois sentimentos que se cruzam e contra cruzam na cabeça de Snowden: a noção de protecção do Estado contra ameaças externas e a percepção crescente que a vigilância ultrapassou o limite seguro e moral.

Paralelo à carreira profissional está a vida familiar que o ex-analista da NSA procura preservar ao longo da metragem, tendo na sua companheira alguém que desconhece as suas actividades mas que demonstra uma devoção inabalável no futuro dos dois. No filme, Lindsay Mills é o ponto de contacto entre Edward e a realidade.

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Entre analepses e prolepses, está o fornecimento das informações secretas ao jornalista do The Guardian Glenn Greenwald e à documentarista Laura Poitras, que lançou, em 2014, o seu Citizenfour. Num quarto de hotel em Hong Kong procede-se aos momentos decisivos da passagem de testemunho. É naquele momento que a informação confidencial passa a informação pública com um relevo jornalístico tremendo.

Snowden é o filme que nos deixa confusos sobre o que é realidade e o que é ficção. Além da componente entretenimento, comporta informação, conhecimento e história. Não endeusa a nação poderosa do mundo nem mascara com narrativa o que pode ser sensível. O filme não é o ponto final, é apenas o começo de uma história que com toda a certeza terá novos capítulos brevemente. Este trabalho do Oliver Stone, realizador/produtor conhecido por JFK (1991) ou Platoon (1986), é um óptimo complemento ao documentário Citizenfour da Laura Poitras.

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#SnowdenTalks: estará alguém seguro?”

Antes da exibição do filme, tiveram lugar dois espaços de discussão que acrescentaram matéria importante ao tema da segurança digital e da privacidade dos dados.

Micael Pereira foi o moderador de serviço e começou por conversar com o jornalista Luke Harding, autor do livro Snowden Files que deu origem ao filme em causa. Numa lógica de questões gerais com vista à abertura da discussão ao auditório, o debate tocou na importância das revelações para o mundo e no que mudou a partir daí. Luke afirmou que devido aos leaks de Snowden, deu-se um alerta de consciências. As pessoas tomam hoje parte da discussão de um tema que antes de 2013 não queriam saber. O escritor considera que a tomada de posição do ex-analista da NSA foi um acto de serviço público, contudo nada de estrutural mudou a partir daí, apenas a mentalidade dos utilizadores. Harding remata a sua intervenção, já após ter afirmado que um perdão por qualquer administração americana será impossível, com um pensamento importante para o futuro: “estamos hoje numa era de ouro para o jornalismo de investigação”.

No segundo painel, reuniram-se em duas mesas redondas, 4 convidados:  José Pacheco Pereira, historiador, Sandra Miranda, CTO da Microsoft Portugal, Rui Cruz, criador do site Tugaleaks e Pedro Veiga, coordenador do Centro Nacional de Cibersegurança.

A intervenção da responsável pela Microsoft foi pautada por uma rejeição em programas de recolhas massivas de dados. Sandra Miranda acrescentou ainda que as fugas de informação de Edward Snowden vieram trazer mais preocupações e por conseguinte, protecções legais de segurança digital aos cidadãos. Numa retórica formal e institucional, Pedro Veiga resumiu o estado da segurança cibernáutica em Portugal como satisfatória e com espaço a melhorar. Rui Cruz colocou algumas questões no ar sobre detalhes de navegação na óptica de utilizador mas também chamou a atenção para a proporcionalidade de utilizadores da internet e de pessoas com intuitos maliciosos em rede. Por fim, Pacheco Pereira alertou para a hipocrisia com que se debatia este assunto. O historiador considera que as pessoas têm hoje menos apego pela privacidade, dando o exemplo da intrusão da máquina fiscal na vida dos portugueses. Com a linha de raciocínio definida, detalhou que existe hoje uma cultura de eficácia sacrificando o valor da privacidade.

A sessão de debate ficou fechada com algumas questões em torno do acesso indevido de órgãos públicos aos dados dos cidadãos e à falta de literacia digital na população portuguesa.