É assim que começa: voltamos todos a Coura

Conta que este ano foi, para o melhor e para o pior, mais ou menos assim...

A responsabilidade de escrever sobre Paredes de Coura é grande: de todos os festivais, Coura é certamente um dos mais acarinhados pelos portugueses. Ninguém esquece a história dos 5 amigos que se juntaram para criar um festival no meio de nenhures, levando o nome da vila aos artistas e media internacionais; muito menos se esquece o triunfo no início dos anos 00, com cartazes memoráveis de 2003 em diante. Cada linha, e isto é a mais pura das verdades, tem um peso diferente das outras que se escrevem em papel de enrolar castanhas, ou não coubesse aos jornalistas, escritores e bloggers a palavra final sobre um fenómeno vivido com fervor por mais de três gerações.

vpdc16dia1ambiente_30

Ainda a rabiscar sobre as notas tiradas entre concertos, caio num monólogo interior sobre a eventual relevância ou conhecimento de causa que possa ter para avaliar de cima a baixo um festival que tanto me deu (para mim, o amor começa em 2011, com os Pulp a gravarem nas estrelas o seu nome em lasers verdes — uma coisa incrível). É absurdamente duro julgar-se algo que é feito com amor; ponderam-se mais as palavras, mesmo quando não se deve, porque há, como nas BDs e filmes de animação, uma voz por cima do ombro que nos guia ao longo do texto. “Achas mesmo que estes tipos foram assim tão maus? Já pensaste que podem só ter tido um voo cansativo?” são algumas das questões que vão aparecendo por aqui e por ali nesta coisa da autocrítica quase maoísta. Quer-se sempre escrever o melhor sobre quem tenta fazer o melhor, e isso não vem nos manuais de jornalismo (tão difícil que é dizer bem e mal). Por isso mesmo decidi que o texto devia ser mais livre — não há lead nem o formato habitual da crónica —  o que vos escrevo é apenas e só mais um esboço da imagem que fui guardando mentalmente em quatro dias impares. Tentei não cair numa diatribe de Internet, evitando também o resumo curto e sem sumo do que se passou. Conta que este ano foi, para o melhor e para o pior, mais ou menos assim…

vpdc16dia1ambiente_03

Os lusos

O cartaz de Paredes de Coura sempre foi um bom indicador das boas bandas portuguesas que começaram e acabaram entre 1993 e os dias que correm. Certamente nem todos os grandes grupos terão por lá passado, mas a colheita de 2016 prova onde quero chegar:

1) Os Bad Legs, praticamente desconhecidos de todos, arrancaram em modo O Bisonte e só pararam porque estavam contratualmente obrigados a isso. Não são necessariamente inventivos (soam a muito das bandas que percorrem as ondas do soul rock e ficaram-lhes com alguns dos tiques), mas a energia e o feliz sotaque inglês do Fernando Fernandes rendem-lhes os elogios possíveis — um concerto à Coura.

2) Em First Breath After Coma, provavelmente a melhor participação lusa no festival, pouco tempo houve para responder a Whatshapps e E-mails. Drifter, disco fresquíssimo, apanhou-nos completamente desprevenidos, ou não tivesse a banda de Leiria dado um salto enorme desde The Misadventures of Anthony Knivet. Homens feitos, guiam-se agora pela leitura de Tierra Del Fuego, do Chileno Luis Sepúlveda, em torno de leads de guitarra e e histórias de baleias corajosas. Ainda perto dos Explosions In The Sky, vão pedindo a sonoridade ambient emprestada, mas não deixam de mostrar o bilhete de identidade: o trompete e trombone que trazem para avolumar os crescendos e amplificar o lado epopeico da coisa — isto para além das letras — dão-lhes o som próprio e inviolável que precisam para evitar rótulos e comparações mesquinhas. Não foi pouca a comoção provocada por gente tão jovem quanto talentosa. É impossível ficar-lhes indiferente.

vpdc16dia3firstbreathaftercoma_04

3) Com concerto preparado exclusivamente para o Vodafone Paredes de Coura, os Capitão Fausto aproveitam para se re-consagrar junto dos novos e velhos fãs. Os novos discos trouxeram uma fornada de gente cada vez mais nova, pronta a debitar de cor as passagens cáusticas de Tomás Wallenstein pela mocidade e vida de adulto. A norte, cantou-se a morte confortável, a vida de vegan e a preguiça no Portugal que nos corre pelos olhos. Tudo pareceu eficaz e bem pensado — desde a entrada ao som de um clássico da geração Raw e Smackdown ao final inesperado, com “Lameira” a acenar um adeus pesado em tarde festiva. A crítica que não lhes reconhece mérito e/ou talento perde mais uma vez os argumentos: som de frente fantástico, canções tocadas sem hesitações e um dos melhores singles portugueses dos últimos 15 anos (“Amanhã Tou Melhor”) a raiar sobre a grande enchente da tarde no palco principal. Que mais se pode pedir?

vpdc16dia4capitaofausto_12

vpdc16dia4capitaofausto_07

4) Entre tanto outro trunfo, aquele que melhor os Best Youth exibem é o da delicadeza. Subtil, a dupla Salinas-Gonçalves faz estragos nos corações sem que nos apercebamos; ginga-se ao som de “We Can Still Be Friends” sem nunca perder a amargura da canção. “Red Diamond” e “Mirrorball” têm o mesmo efeito — são canções pop pertinentes que não deixam a secção rítmica emprestada pelos X-Wife fraquejar. Quando é para dançar, dança-se com gosto, tal qual festa high end nova-iorquina. Salinas — e isto não é novidade para quem conhece minimamente a banda — contagia e petrifica: o pulsar das canções funde-se com o tom afogueado da vocalista — uma voz doce que convida a ficar na plateia, como quem sugere que nos sentemos no sofá de sua casa enquanto prepara bolinhos e café. Não é canto da sereia, até porque não tem qualquer efeito dissimulador nem traz a mínima consequência, mas chega para que nos mantenhamos atentos ao que faz a banda durante 45 curtos e insuficientes minutos. Talvez o palco principal e o slot (os Best Youth antecederam a explosão controlada dos Minor Victories) não tenham sido as melhores opções para um grupo que pede maior cuidado com a atmosfera dos concertos. Não obstante isso, não deixou de ser bonito, vibrante a espaços e sobretudo muito, muito delicado.

5) Filho da Mãe e Ricardo Martins são, se não houver termo mais correto, dois virtuosos. Rui Carvalho — aka Filho da Mãe — pelo talento que tem ao dedilhar a guitarra, e não tanto pelo modo como gere os pedais de efeitos, e Martins pela capacidade polirítmica — bem como pelo domínio absoluto de todos os componentes da bateria acústica. A junção de dois músicos fora de série não significa necessariamente que o projeto seja interessante, mas neste caso acaba por ser o caso. Filho da Mãe volta à guitarra elétrica, aplicando-lhe os princípios que explorou na clássica e junta-a a compassos lunáticos e nada lineares tocados com a força de mil homens. Juntos, são altos como tudo, o que dificulta a mistura ao vivo (o som, diga-se de passagem, não foi dos melhores), mas acresce ao valor total da banda. Sem grandes truques, enchem o palco como se de uma banda inteira se tratasse. Andam oitavas para a frente e para trás em cima de temas complexos mas audíveis, sem qualquer tipo de vedetismo ou de demonstração gratuita de talento. Uma agradável e nada petulante simbiose, é o que é.

Os cabeças de cartaz

Havendo uma distância relativamente grande entre os LCD Soundsystem e as restantes bandas que encabeçaram o festival, fica uma certeza grande entre todos os: o maior argumento para estes artistas voltarem a Paredes de Coura é a história de amor já existente com o Taboão, os portugueses e a organização. Em quase todos os concertos de headliner, e o dos LCD não foi exceção, os artistas relataram episódios passados em Coura. Falou-se em Lemmy Kilmister, Nine Inch Nails e Peaches — concertos que nos mudaram a nós, a eles e ao festival.

Unknown Mortal Orchestra

As entradas de Quincy McCrary e Amber Baker e a saída de Riley Geare abanaram indubitavelmente a estrutura dos UMO. Sem Geare, o lado indie-rock começa a esvanecer-se, confundindo a identidade da banda. Ele há solos de bateria jazzísticos, jams de costas viradas para o público, quase ao estilo canal Mezzo.

vpdc16dia1umo_07

Das últimas passagens por cá, e uma das mais competentes foi mesmo no palco secundário do Vodafone Paredes de Coura, a mais recente visita da banda de Ruban Nielson e Jacob Portrait foi decerto a menos inspirada. O som de frente custou 3 das 10 músicas tocadas e a imperceptibilidade das restantes deixou-nos com sabor amargo na boca.

vpdc16dia1umo_02

“Can’t Keep Checking My Phone”, “Multi-Love” e “So Good At Being In Trouble” tiveram o efeito esperado: como singles, brilharam o que tinham a brilhar, mas nem o crowdsurf endiabrado de Nielson em “Stage Or Screen” salvou o resto. Houve brio na hora de agarrar o instrumento, mas faltou entregar as canções como as conhecemos. Com isto não quer dizer que a orquestra deve continuar sempre no mesmo tom e com as mesmas soluções; a haver canções novas em formato quarteto de jazz/funk, elas serão mais do que bem-vindas. Não existe, no entanto, a necessidade de transformar temas já existentes, e até bem recebidos, em rapsódias de 10 minutos. É esperar para ver o que acontece com a maior rodagem de Baker — tecnicamente superior a Geare, mas não tão entrosada com a banda — e a composição de novos temas.

LCD Soundsystem

É como se nunca tivessem acabado. 5 anos de pausa (a palavra “fim” é sobremaneira exagerada para falarmos neste hiato) serviram para Murphy, Whang, Mahoney e Doyle recarregarem baterias, apresentando-se em bem melhor forma do que da última vez. O que os une e sempre uniu, continua lá, e temos dúvidas de que alguma vez venha a evaporar-se.

 

vpdc16dia2lcdsoundsystem_08

Em 2010, o alinhamento, francamente parecido ao da tour de reunião, ainda que mais reduzido, parecia estafado e gasto. Não quero com isto tudo dizer que o fervor electronica de Sound Of Silver ou do primeiro disco tivesse esmorecido, mas o calor não era necessariamente o mesmo — ainda mais a tocar depois de Pearl Jam, no palco principal do maior festival português. Em Coura, a história foi diferente.

O estatuto de cabeças de cartaz obriga agora os LCD a serem melhor considerados pelos promotores: em vez de 50 minutos, há cerca de duas horas para distribuir êxitos de uma carreia não tão longa quanto isso. “Us V Them” e “Daft Punk Is Playing at My House” entram em ritmo acelerado sem o mínimo desafinanço. Murphy, imperial e posh, não se excede para além do que lhe é pedido; a meio, diz-nos que é especial estar em Paredes de Coura. Não temos margem para duvidar.

vpdc16dia2lcdsoundsystem_07

“You Wanted a Hit” mantém o fulgor de “Daft Punk…” e define o ritmo do concerto: entre o gingão e o contemplativo, ouvimos sintetizadores modulares desgovernados, slaps de baixo e baterias acertadas com relógio suíço. É redondamente improvável ouvir uma cavilha que seja nesta banda tão certa na sua desorganização. Al Doyle, experiente em tocar no anfiteatro natural, arranca leads de guitarra estridentes em “Tribulations”, causando a grande cacofonia rock da noite.

A parte final de alinhamento, dedicada a Kilmister (“When someone great has gone” – serve-se assim uma humilde homenagem), fez igual estrago no tímpano e no coração: “Losing My Edge” é pop borbulhante, “Home” e “New York, I Love You But You’re Bringing Me Down” são canções arrasadoras que nos fazem atirar a toalha e verter a lágrima discreta, num concerto que tem tudo para ser uma festa de regresso, ao invés de um “adeus, até para o ano”. “Dance Yrself Clean”, com aquele crescendo imenso, palpita-nos ainda mais o coração e encerra, antes de “All My Friends”, o capítulo da festa brava. Faz-se crowdsurf, explodem cordiais mosh pits e presta-se a reverência devida a Gavin Russom e Tyler Pope, “músicos de fundo”, mais do que indispensáveis no concerto.

vpdc16dia2lcdsoundsystem_04

“All My Friends” é sinónimo de abraço caloroso a todos os companheiros de festival e de despedida em êxtase: sob luzes vibrantes, a tarefa é dada como concluída. Em palco, o festim foi sempre controlado, ou não pesassem as dezenas de concertos de verão nos ombros da banda. Já cá em baixo, na plateia, não se deu menos que o delírio dos vintões, trintões e quarentões. A juntar aos concertos de Arcade Fire e Queens of The Stone Age, a atuação dos fundadores da DFA adensa a mitologia já existente sobre Coura. Parece que ali perto de Espanha, entre Vila Nova de Cerveira e Ponte de Lima, tem por hábito haver magia. Sabiam?

Portugal The Man

Reza a lenda que as bandas mais aguardadas, ou pelo menos aquelas que não repetem a presença anualmente nos nossos festivais, têm por hábito ser as mais emotivas e marcantes. Foi exatamente o que se passou com os Portugal The Man. A dever-nos o regresso desde 2009, ano de estreia em solo lusitano, trouxeram o indie psych em volumes estridentes: à segunda música, tal não era o ruído do subgrave, foi-se abaixo o amplificador de baixo. As guitarras embrenhadas em pedais de fuzz são só uma das melhores partes de “Atomic Man”, single breve, gingão, orelhudo, vibrante e stadium pleaser. Em dez minutos fomos conquistados; o resto foi triunfo.

vpdc16dia4portugaltheman_12

Com o conta-rotações em ritmo crescente, os Portugal The Man fazem o essencial: lançam singles ao início e não deixam a velocidade quebrar. A divertida e petulante (atente-se à letra) “Evil Friends” tem início baladesco, mas cedo se converte em festim alt-rock. “People Say”, oasiezesca, antecede, e bem, um cover da maior banda de Manchester que ainda faz os alarmes soarem mais alto (“Don’t Look Back in Anger” rouba os coros mais altos da noite, justificadamente).

Zachary Carothers, baixista, vai amiúde agradecendo “por tudo, mesmo”. Para ele, a vida mudou em Paredes de Coura com os Nine Inch Nails. Entretanto já houve mais três discos e inúmeras mudanças de membros: Eric Howk, o último a chegar à banda, conhecido pelo seu acidente em 2007 — que o imobilizou da cintura para baixo — sola em “Holly Roller” como se sempre tivesse feito para da mobília.

vpdc16dia4portugaltheman_06

O fim chega com o desacelerar da energia: “All Your Light” pede às luzes escuras que desçam. John Gourley tira o capuz, muda de guitarra e canta num falsete andrógino sobre a sua natureza numa das suas frases mais questionáveis (“I’m just the shadow of a bigger man”). “Purple Yellow Red and Blue” ganha a casa. Quase tão alto como na canção dos Gallaghers, fomos gastando a garganta com uma das bandas que mais o mereceu.

Chvrches

Ao segundo disco, é seguro dizer que os Chvrches não são nem nunca serão uma grande banda. Lauren Mayberry tem uma figura amistosa, uma legião de fãs, mas sobretudo uma voz que testa a paciência. Completamente descontextualizada, mesmo que conhecendo minimamente o festival, pede que se acalmem os crowdsurfers e a voracidade das massas. Coura reage com divergência: os mais novos gramam, os mais velhos refugiam-se no monte e no palco secundário (vazio, por sinal).

vpdc16dia4chvrches_04

O jogo de luzes e de animações é denso: só assim se pode mascarar canções com uma grande produção de estúdio e muito recurso ao playback instrumental. Iian Cook e Martin Doherty não são maus músicos, mas estão longe de conseguir de aguentar a eletrónica complexa e francamente bem produzida dos Chvrches ao vivo. Volta e meia vão revezando o baixo e os teclados, mas há sempre percussão e elementos harmónicos que precisam de ser dobrados por um terceiro músico, não que isso disfarce a voz particular de quem lhes dá cara. Em palco, Mayberry bem se move de um lado para o outro, mas só conseguimos ver luz e vídeo. Infelizmente, não somos agarrados por nada, a não ser pelos ecrãs.

vpdc16dia4chvrches_06

“We Sink”, single em grande com acordes arpejados de teclado, ganha-nos por ser familiar, mas o restante set é um verdadeiro suplício: brilhamos os olhos quando se ouve falar em Paramore, que nunca deixaram de ser músicos competentes e prazerosos de se ver em palco, mas somos ludibriados pelo anasalado “Bury It”, canção gravada com Hayley Williams. Contra a nossa vontade, ficamos até ao fim para ver o que ainda pode surpreender. Nada muda, inclusive o nosso veredito. Chvrches, nem em Portugal nem em país nenhum tem a capacidade ou o estatuto de cabeças de cartaz.

O melhor

Não tendo havido este ano atuações miseráveis (contam-se apenas duas mais fraquinhas, a dos Last Internationale, ativistas glam desinspirados e maçadores, e a dos supra-referidos Chvrches), resta destacar os grandes concertos da 24ª edição do Vodafone Paredes de Coura. Longe de ser consensual, a lista é determinada sobretudo por três critérios, sendo eles a qualidade do som, o ambiente durante as actuações e a frescura da música e dos músicos em palco.

Whitney

Gabava ao diretor do festival, durante o concerto dos Whitney, a sorte de receber uma banda tão empenhada em escrever canções e em tocar bem. Longe da gravitas punk dos Wytches e mais próximos do pacifismo dos Ducktails, os americanos de Chicago assentam-se próximos do indie-dream-pop onde já pairavam os Smith Westerns, grupo que lhes deu origem. Os rapazes bebem Jameson em palco, beijam-se e vão atirando com piadas. Longe de brincadeiras, portam-se francamente bem. Ehrlich, ex-Unknown Mortal Orchestra, mescla as harmonias de voz com breaks ímprobos, Will Miller evita os clichés de trompetista Woody Allenesco e Kakacek liga tudo com dedilhados de guitarras etéreas e cristalinas.

vpdc16dia2ambiente_01

“Golden Days ” e “No Matter Where We Go” são passaporte para um dos discos mais frescos deste ano e permitem aos Whitney o desplante de se lançarem a um cover de Bob Dylan. Sem os olharmos de lado, até porque Ehrlich já nos tinha contado a sua história de amor com Portugal (o “país preferido no mundo”), prometemos carícias a cônjuges ao som de “Tonight I’ll Be Staying Here With You”, agora numa versão mais psych. Os ex-Smith Westerns conhecem bem as texturas, a suavidade dos acordes e as onomatopeias em coro ao fim da tarde. Já faziam uso disso no passado — tão bem que estiveram a abrir para os Arctic Monkeys — e agora ainda o conseguem com maior eficácia. Melhor dizendo, fazem-no com um carinho e subtileza que nos garante uma coisa: os Whitney são do amor.

Thee Oh Sees

Em 2014 viram o concerto em Paredes de Coura interrompido pela invasão de palco, num concerto que encheu as medidas e ficará nos anais da história do festival. Dois anos volvidos, chegam com dois bateristas e, obviamente, o dobro do poder.

vpdc16dia2theeohsees_03

Já se leu algures que os dois homens das baquetas sincopam movimentos, soando a sua bateria apenas a uma. Pois bem, cabe ao escriba desmentir: não só Dan Rincon como Ryan Moutinho não sincronizam milimetricamente movimentos (havendo espaço para fills alternados), como o som da banda cresce de forma avolumada com os disparos de cada bombo, pratos e tarola a bater no vermelho.

Sobre o concerto propriamente dito, ficam várias notas: John Dwyer parece agora mais envolto com as guitarras do que com os teclados. Para A Weird Exits, de onde sai o barulhento “Plastic Plant”, mantêm-se a voz debochada e beats em catadupa, cada vez com menos processadores eletrónicos.

vpdc16dia2theeohsees_05

No público, vê-se tareia da grossa. Talvez o maior mosh pit do festival, leva a que muita gente se refugie nos lados, para evitar surpresas de festivaleiros voadores e cotoveladas em barda. Nada de anormal, ou não estivéssemos em Coura. O final, com “I Come From The Mountain”, “Encrypted Bounce”, “Contraption” e “Soul Desert”, guarda para o final o repertório mais afamado dos Thee Oh Sees. Anti-sistema e profundamente inspirados pelo movimento art punk, não fazem grande distinção entre singles e não singles, mas sabem guardar a prata da casa para o final. Ouvimos phasers, flangers e delays num som que é imagem de marca da dupla Hellman/Dwyer e deixamo-nos cobrir pela grande nuvem de pó que se forma ao som da bateria nunca única e sempre diferente dos novos Thee Oh Sees. Um dos grandes momentos rock n’ roll de ano.

Crocodiles

Depois de terem passado pelo Optimus Alive de 2011 com um concerto faustoso e vespertino, os Crocodiles chegam ao Vodafone Paredes de Coura num slot que pertenceu o ano passado aos Woods e aos Allah Las. Emocionados pelas sessões musicais da patrocinadora do festival (a banda tocou no quintal de um casal de nonagenários que já não vê o anfiteatro de perto), chegam a palco com tesão — honestamente o termo mais adequado — e vontade de fazer rolar cabeças. Charles Rowell, guitarrista, oferece, a dada altura, uma garrafa de whiskey ao público, pedindo aos seguranças que o sirvam às filas da frente. Um inédito, pelo que sei.

vpdc16dia3crocodiles_01

Boys e Crimes of Passion transformaram os moçoilos do fresco e pueril primeiro disco nuns senhores da psicadelia. Com autoridade, o sex symbol Brandon Welchez vai mascando pastilha e deixando os clássicos rolar. De baratas ao Marquês de Sade, a wittiness dos californianos pauta-se sempre por letras sexualmente sugestivas e brutalmente apaixonadas. A empatia, como no tão curto concerto de há 5 anos, foi-se mantendo mesmo à distância. Os power chords punk vão ganhando novos fãs, gente que talvez nunca tenha ouvido falar neles, mas que se deslumbra num sol mais famoso do que o de San Diego. Francamente bem escolhidos, foram aperitivo em grande, sobretudo para quem ainda tinha uma noite de concertos por digerir.

O eventual vedetismo de Welchez, que só lhe fica bem, foi aproxiamando em especial o público feminino. Mau rapaz, vemo-lo facilmente a causar sangria ao som de “I Wanna Kill” ou a ressacar por narcóticos em “Me and My Machine Gun”. Antes de revisitar o infame clássico de Elton Motello, larga um sorriso tentador. Se lesse mentes, diria que espera causar ainda mais estragos no futuro, deixando por isso antever o regresso em breve. Nós cá o esperamos, até porque os maus da fita sempre foram um dos grandes motores do rock.

Cigarettes After Sex

Têm um EP e um single e não precisam de muito mais. O balouçar deprimido e suave , imediatamente antes das acrobacias dos Cage the Elephant, sabe-nos pela vida. A música dos texanos força-nos a pensar nas argoladas em que vamos caindo —cinquenta minutos de pregação sobre a míriade de faces que a paixão e a sucedânea quebra podem incorporar num só corpo.

Greg Gonzalez, frágil e feminino, canta gentilmente sobre mandar foder a pessoa que amamos em “Affection” (semi-Cure, semi-Slowdive) e promete, mentindo à descarada, que tudo ficará bem em “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”. Nós, que tão bem conhecemos o jogo, apoiamos: enquanto Tubbs e Miller forem dedilhando paisagens bonitas no baixo e na guitarra, dificilmente abandonamos a missa.

vpdc16dia4cigarettesaftersex_07

A coisa correu-lhes tão bem que tiveram de voltar a palco. Noite adentro, fomos adiando a folia até onde conseguimos, até porque ainda foram precisos uns bons minutos para nos pacificarmos com aquilo que tinha acabado de acontecer. Indubitavelmente o concerto mais emotivo desta edição do Vodafone Paredes de Coura.

Cage The Elephant

Gostaram tanto de Paredes de Coura que fizeram questão de voltar ao local do crime, onde dois anos antes nos tinham deixado derreados, e logo na noite de abertura. Já com Tell Me I’m Pretty rodado, ainda que maioritariamente nos Estados Unidos trouxeram os singles Auerbachianos — entenda-se entre o indie pop e a grande canção rock de estádio — ao auto-denominado habitat natural da música. O resultado, ou não fosse este o melhor disco dos Cage The Elephant, não podia ter sido melhor.

vpdc16dia3cagetheelephant_06

Se não soubéssemos o que esperar, Brad Schultz, guitarrista, contou-nos logo a história. Completamente absorvido pelo carinho luso, voa para o público entre “Cry Baby” e “In One Ear”, primeiras músicas do alinhamento, estampando-nos no rosto a sua carta intenções: “no pouco que tempo que temos, a casa é mesmo para ser implodida”— não foi uma das frases do aprendiz de Mick Jagger Matthew Schultz, irmão de Brad, mas podia bem ter sido.

vpdc16dia3cagetheelephant_08

A duas horas de voar para a Polónia, os americanos deram-nos tudo. “Trouble”, “Ain’t No Rest For The Wicked” e “Mess Around” são disparadas de seguida. A plateia, de forma espontânea, aponta telemóveis para o céu e acompanha-os em todos os singalongs, tentando responder a toda a entrega que era distribuída em palco — e nem sempre ganhando. O que ali vimos foi, numa versão ultra-romantizada do rock n’roll, uma banda completamente dedicada ao seu público, que não se importa de descer do pedestal e receber beijos de barbudos e miúdas suadas, em troco de uma noite estelar, talvez do seu melhor concerto em meses.

vpdc16dia3cagetheelephant_09

O derradeiro triunfo acaba por chegar com “Come a Little Closer”. Tema velhinho, até aos Cage The Elephant deve ter dado gozo naquela noite (perdoem-me o saudosismo, mas quem viu o mesmo que eu sabe que é normal). Talvez esteja, numa bela expressão inglesa, a fazer um sugarcoating a tudo o que ali se passou, mas sinto que é mesmo esse o poder que Coura tem em nós, o de abrilhantar tudo o que noutro festival parece normal, mas que ali acaba por ser inevitavelmente diferente, dada a minúcia e o acautelamento em torno da música, do público e sobretudo dos artistas.

The Tallest Man on Earth

Apontado para um público mais jovem, Kristian Matsson merece rasgar, logo nas primeiras linhas deste texto, o carinhoso título de “Bon Iver dos pobres”. Sem depressões, e com o passado amoroso suficientemente bem resolvido para poder fazer piadas com divórcios e o amor em que ainda acredita (diz ele), agarrou na guitarra — tão agilmente que toca, agitando-se em polvorosa de um canto a outro do palco sem desperdiçar um acorde — e trouxe a luz que o último dia de festival pedia.

vpdc16dia4tallestmanonearth_05

O que mais espanto causa, sobretudo entre os estreantes, é a coragem bruta deste sueco, que, amiúde sozinho em palco, torna aos temas antigos (“Love Is All”), de épocas bem mais simpáticas, e os dobra com um sorriso no rosto, passando depois para a tormenta. “Sagres” (And this madness I suppose/Gonna haunt me with the line / That I could drink until I sleep/ Through all scarier times), influenciada pela nossa finisterra, tem direito a pedal steel brilhante por Ben Lester, mas não nos deixa olvidar a força de um músico que não deita fora canções, por mais mossa que elas façam.

vpdc16dia4tallestmanonearth_03

Parando obrigatoriamente em “King of Spain”, desta feita acompanhado a galope pela banda (emprestada em parte por Bon Iver), Mattson ainda tentou auscultar a opinião do público, mas o tempo obrigou-o a ser prático: o final guarda o tema mais frágil do alinhamento; “Dark Bird Is Home”, tocado a doze cordas, onde se canta fugazmente que “this is not the end”. Apesar de melancólico, o desfeche tem sempre o toque de bonomia anti-nórdica, que aliás sempre caracterizou a música do Tallest Man on Earth. “Like The Wheel” assenta uma definitiva pedra no passado e apresenta-nos um último retrato de Kristian, desta feita apaixonado, não por Amanda Bergman nem por outra, mas sim por nós, que tão brevemente lhe entregámos os nossos rostos imaculados, sem tristezas e com o olhar infinitamente repleto de candura. Longe de eclipsada, a luz de Mattson continua, sem sombra de dúvidas, a ser uma ótima presença nas nossas vidas. E tão bom que foi vê-lo dobrar a tormenta, de uma vez por todas.

Galeria

Dia 1

Dia 2

Dia 3

Dia 4