Activistas premiadas pela sua luta contra o Daesh, em defesa dos yazidi


Conheceu-se esta quinta-feira, finalmente, o vencedor do Prémio Sakharov, atribuído de ano a ano pelo Parlamento Europeu (PE). Este ano, em vez de um são dois os nomes – Nadia Murad e Lamiya Haji Bashar, porta-vozes dos yazidi no mundo.

Nadia e Lamiya foram escolhidas pelos esforços na defesa da comunidade Yazidi e das mulheres que sobrevivem à escravidão sexual às mãos dos jihadistas do Daesh. Depois da revelação do grupo de finalistas no passado dia 11, hoje a decisão final foi tomada. Uma atribuição arrojada do Parlamento Europeu perante um tema tão sensível e que preocupa, actualmente, todos os cidadãos.

Uma história aterradora

Oriundas de Kocho, uma aldeia iraquiana tomada pela organização extremista em 2014, elas foram duas das centenas de mulheres e raparigas raptadas e escravizadas sexualmente. Todos os homens da localidade foram executados, juntamente com as mulheres idosas.

Murad, por exemplo, foi levada para Mossul, bastião do Daesh no Iraque, e lá foi feita refém. Agora, com 23 anos, conta como foi torturada e violada, obrigada a converter-se ao Islão e a casar-se com um dos jihadistas que a gozava, lhe batia e a forçava a fazer o que ele bem entendesse.

Já Bashar tinha apenas 16 anos (agora, 18) quando foi levada para um cativeiro. Viu muitos dos seus familiares e amigos a serem mortos à sua frente antes de ser raptada, escravizada, forçada a fabricar bombas, vendida várias vezes e repetidamente violada.

Mas a história aterradora de Lamir não fica por aqui. Após escapar do sequestro, cair nas mãos do director de um hospital em Hawjiah que também abusou dela e fugir novamente, durante o caminho a jovem foi atingida pela explosão de uma mina terrestre que a deixou com bastante sequelas, queimaduras graves na cara e sem o olho direito.

As vozes dos yazidis

Depois de escaparem, ambas receberam asilo na Alemanha e desde então dedicam-se a chamar a atenção do mundo para a difícil situação dos yazidis, tornando-se os rostos de uma campanha global para proteger o seu povo de um potencial genocídio.

Depois de, em Julho, ter emocionado todos ao contar o que vive uma escrava sexual do auto-proclamado Estado Islâmico no seu discurso ao Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque, Nadia tornou-se a primeira embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para a Dignidade dos Sobreviventes do Tráfico Humano. Este mês, recebeu também o Prémio Vaclav Havel dos Direitos Humanos, atribuído pelo Conselho da Europa.

Lamiya continua a ajudar mulheres e crianças vítimas da escravatura e das atrocidades dos jihadistas.

Foram hoje galardoadas com o Prémio Sakharov, um passo gigante para a abordagem e combate aos massacres do grupo extremista. Numa declaração que Nadia Murad partilhou na internet, pode ler-se: “É com uma grande honra que eu e Lamiya aceitamos o Prémio Sakharov, em nome das milhares de mulheres e raparigas yazidis raptadas e de todas as vítimas do genocídio yazidi. Este reconhecimento do sofrimento das mulheres e do povo yazidi é uma mensagem profunda para o grupo terrorista Estado Islâmico de que a sua desumanidade cruel está a ser condenada e que as suas vítimas estão a ser honradas pelo mundo livre.”

O que é o Prémio Sakharov?

Esta condecoração, atribuída pelo Parlamento Europeu desde 1988, quando foi instituída, visa reconhecer uma contribuição e um trabalho excepcionais na luta em prol dos direitos humanos em todo o mundo. O valor do prémio é de 50 mil euros e será entregue numa cerimónia em Estrasburgo, França, a 14 de Dezembro, durante uma sessão plenária do PE.

Nelson Mandela e Anatoly Marchenko (a título póstumo) foram os primeiros galardoados, em 1988. Onze anos depois, o galardão foi entregue a Xanana Gusmão.

Em 2015, o contemplado foi o blogger saudita Raif Badawi que cumpre uma pena de dez anos de prisão, depois de uma condenação de mil chicotadas, por escritos a favor do secularismo considerados insultos ao islão.

Este ano, os outros dois finalistas eram o jornalista turco, Can Dündar, antigo diretor do jornal da oposição Cumhuriyet, e Mustafa Djemilev, ativista e defensor da minoria tártara da Crimeia.