Mariana Moura Santos: “Chicas Poderosas são mulheres que têm que acreditar nelas”


Mariana Moura Santos já foi a única mulher a fazer parte da equipa interactiva do jornal britânico The Guardian. Viajou por vários países, teve inúmeras experiências profissionais e académicas – representou na série “Morangos com Açúcar”, foi atleta no Sporting, estudou belas artes, entre outros. Mas foram o storytelling e o design que acabaram por assentar.

Hoje, é a fundadora do movimento Chicas Poderosas, que promove o empowerment das mulheres através dos media digitais. Em várias conferências e pequenos cursos, as mulheres são desafiadas a apurar os conhecimentos na tecnologia: em Portugal, por exemplo, directores criativos, jornalistas e escritores foram os mentores. As Chicas começaram na Costa Rica, estiveram no início de Outubro em Cascais e sabe-se lá por onde andarão agora.

Falámos com a criadora do projecto sobre o passado e o futuro.

 

A Mariana, desde cedo, mostrou uma grande vontade em soltar as amarras e ser uma mulher independente. De onde vem esta contínua perseguição pelo próximo desafio?

Eu fui nadadora durante toda a minha vida. Quando uma pessoa é nadadora de alta competição, temos treinos muito intensivos. Eu tive um treinador, Paulo Costa, que me fez lutar pelos meus objetivos e pensar que era possível alcançá-los. Daí advém grande parte da minha garra. Assim como os meus pais, que sempre apoiaram e incentivaram a mim e à minha irmã. Toda esta auto-estima e capacidade de sozinha fazer as coisas vem muito do desporto e da educação. Quando se começa a ver resultados, percebe-se que ao acreditarmos em nós próprios e lutando muito, acaba-se sempre por alcançar o pretendido. Obviamente, dentro do possível. Nunca pensei que não seria capaz de fazer alguma coisa. Tinha de tentar e fazer colaborações com pessoas que me fizessem chegar lá. E não pensar que consigo fazer tudo sozinha.

Viajou por diversos países, estudou e experimentou diversas actividades. Cada um dos locais e das experiências são hoje recompensadores, pessoal e profissionalmente?

Sim, totalmente. Todos os sítios onde vivi e por onde passei permitiram o contacto com outras culturas e criaram uma adaptação gigante. Para mim, mudar de cidade é como pão com manteiga. Adoro conhecer novas culturas: ver como as pessoas vivem e pensam. Todas as coisas que fazemos na vida são pontinhos e nós somos a soma de todos esses pontos. Todos os países que visitei, as pessoas que conheci, as actividades e as profissões que experimentei contribuem para o que sou hoje. Eu prefiro ter um maior leque de experiências do que ser focada numa coisa e ser muito boa nisso. Na minha área, quanto mais os pontos de diferenciação, melhor é a minha visão, a minha diversidade de opinião e a minha capacidade de adaptação.

Chicas Poderosas. Foi um projecto que começou na altura certa, nomeadamente no que diz respeito à sua própria vida?

Chicas Poderosas começou quando o meu pai morreu. Veio na altura certa, foi um empowerment que eu quis dar a outras mulheres como eu. Às vezes não sabemos, mas podemos e devemos acreditar em nós próprias. A partir do momento que eu comecei a investir e a arriscar, comecei a ter resultados. Criei um pensamento de que tenho de acreditar em mim. Chicas Poderosas são as outras mulheres que também têm de acreditar nelas. Fazê-las ver que nós podemos fazer tudo a que nos propusermos, basta acreditarmos. Chicas Poderosas chegou num bom momento e tomou conta da minha vida pessoal e profissional. E agora tudo o que faço é muito relacionado com os objectivos do movimento.

Como é que a tecnologia, os media e o sexo feminino podem ser uma combinação favorável à percepção do papel da mulher na sociedade?

A tecnologia está a tomar conta de todas as formas de comunicação, não podemos comunicar se estivermos offline. A tecnologia é uma forma de estarmos no presente e termos um impacto no futuro. As mulheres têm de ter essa imersão na tecnologia, por isso, as Chicas Poderosas promovem que se sintam confortáveis com a tecnologia e a dominem. O papel da mulher da sociedade é um papel que precisa de lhes dar voz. A possibilidade de ter uma voz alta é através da tecnologia. É uma forma de podermos comunicar através dos nossos próprios meios.

Alguma vez pensou que o papel e a preponderância da mulher acabariam por fazer parte da sua profissão?

Não, as questões de género nunca me sensibilizaram quando era miúda. Eu era nadadora e competia contra mulheres, como os homens competem contra homens. Nunca foi uma coisa que pensei que fosse fazer parte da minha profissão. Foi a partir do momento, em que entrei numa redacção e vi que só havia homens. Havia a necessidade e a vontade de recrutar mulheres, mas elas não existiam. Não há mulheres qualificadas em tecnologia, ou há em menor número do que homens. Já quis recrutar mulheres programadoras e é muito difícil. Chicas Poderosas é, por isso, mais necessário do que nunca.

A equipa das Chicas Poderosas Portugal
A equipa das Chicas Poderosas Portugal

Houve algum episódio/momento ou característica da sua personalidade que já demonstrava um interesse por mostrar às mulheres de todo o mundo de que eram capazes? 

Sim. Quando fui estudar para Erasmus, em Saint-Étienne, escrevi o livro “Se não acreditas em ti, acreditas em quê” dedicado só a mulheres, mais propriamente, a estudantes que tinham saído de casa, de debaixo das saias das mães, para ir estudar para fora. Logo aí, eu senti uma necessidade de mostrar a pessoas como eu, que podíamos sair e criar um impacto lá fora e não ter medo de sair do conforto.

É uma feminista?

Sou, claro que sim. A palavra em Portugal ainda tem uma conotação bastante negativa, mas feminista significa que as mulheres querem os mesmos direitos que os homens. Se eu faço um trabalho x e trabalho x horas, e há um homem que faz o mesmo, temos de ser igualmente pagos. Eu não vejo razões para que um homem tenha de receber um salário mais alto do que o meu. Isto são igualdade de direitos e isso é ser feminista. Por isso, sim. Eu sou feminista.

Do que contactou com outras culturas, o que aproxima uma mulher portuguesa de uma mulher alemã ou sul-americana? E o que é que diferencia?

O que nos aproxima é o facto de sermos todas mulheres e de alguma forma, podermos ter menos igualdade de direitos do que os homens, seja em que país for. É claro que há países em que as diferenças são muito maiores ou menores relativamente a Portugal. Por exemplo, na Suécia, as mulheres quando têm filhos, têm direito a mais de um ano de licença com vencimento, assim como os pais. Na América Latina, as mulheres não têm tanta possibilidade de ascender a cargos de chefia, muito menos em redacções. Mas, por exemplo, há mulheres presidentes nos países latino-americanos, o que ainda não acontece na Europa. Com excepção da Alemanha [Angela Merkel como chanceler].

Penso que hoje o seu trabalho vai passar por Portugal.  Em que consiste a startup Unicorn Interactive? 

Unicorn Interactive é uma organização independente de media, que eu fundei com o meu cofounder, Kit Cross, programador do The Guardian. O que nós queremos fazer é contar histórias digitais através da interactividade, trabalhar com editores e misturar arte, tecnologia e conteúdos. Estamos a planear fazer uma formação de meios digitais: formar pessoas que trabalham em vários meios de comunicação como a RTP, o Público, o Expresso, o Diário de Notícias e as revistas femininas como a Vogue e a Máxima. Nós queremos criar mais talento ou ajudar a levantá-lo, para depois podermos recrutar mais pessoas. A ideia é termos clientes nacionais e internacionais e criar histórias online mais cativantes.

O que reserva o futuro para as Chicas Poderosas?

Neste momento, estamos a criar NVL (New Ventures Lab) na América Latina, onde vamos ajudar as mulheres a criarem as suas próprias ideias e torná-las realidade. Em Portugal, acho que vamos pelo mesmo caminho. Estamos a pensar fazer um road show e levar as Chicas Poderosas ao Porto e a mais sítios.

Fotos: Chicas Poderosas Portugal