Em tour com os First Breath After Coma (VI)


 
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Os portugueses First Breath After Coma estão em digressão pela Alemanha e escolheram o Shifter para relatar as suas experiências. Acompanha o seu diário de viagem, na primeira pessoa. Lê aqui o capítulo anterior.

Dia 7

Acordar de manhã com a chuva a cair forte no telhado daquele último andar, é dos melhores sons que o início de Outono nos pode oferecer. É verdade, o Outono chegou! Faz tanto frio em Krefeld que até custa dizer “bom dia!”.

É altura de nos fazermos à estrada de novo, despedimo-nos da boa gente de cá ainda com o pequeno almoço na mão, porque esperam-nos mais de 600 km até Berlim. Na bagagem, levamos uma pequena foto da polaroid como recordação.

Chegamos a Berlim mesmo em cima da hora prevista, depressa estacionamos a carrinha junto à entrada do bar Monarch, mesmo no meio da azáfama de pessoas e cheiros a restaurante. Ao sair, reparamos em tantas culturas diferentes que é possível viajar pelos 4 cantos do mundo nesta cidade. Incrível!

Carregamos o material para o primeiro andar e entramos num bar melancólico, onde fomos recebidos pelo Marc. É o Monarch – um espaço retro, forrado com madeiras de cor fria e iluminado através de uma vidraça enorme com vista para a linha do metro de Berlim. Pena o palco ser tão pequeno, mas lá nos conseguimos instalar.

Começamos o concerto e somos surpreendidos por um grupo de portugueses, vindos da Polónia, que quiseram mostrar-nos o seu apoio em Berlim. Com eles, está a Mara Mures, a nossa amiga que ilustrou o video da “Gold Morning Days”. É óptimo receber aquele sorriso sempre tão bem disposto da Mara, faz-nos esquecer o cansaço. Sabemos que a partir de agora o concerto ia correr muito melhor! A pouco tempo para o fim do concerto, do lado de fora da grande vidraça junto ao semáforo, alguém acenava com entusiasmo para nós…mas, não percebemos quem é. Só quando já estamos a arrumar tudo, é que essa pessoa que nos acenava, aparece ao nosso lado para nos cumprimentar. No primeiro olhar, fazemos cara feia, porque não estamos a reconhecer. Mas no meio de tanto cabelo conseguimos ver que é o Abraúl – amigo de Leiria que mora há alguns anos por Berlim. No meio dos abraços, já temos um guia para o resto da noite.

Arrumar tudo na carrinha, nunca é tão rápido, mas desta vez, com a ajuda de tantas caras conhecidas, nem há tempo para dores de costas. Obrigado!

Está na hora de explorar a cidade, mas com a barriga a roncar não dá muito jeito. Temos de comer! Seguimos o Abraúl até uma pizzaria, até lá, salivamos para cima de várias vitrines.

Boa escolha, a pizza é divinal! Ficávamos ali a noite toda, mas temos de guardar espaço para a cerveja também.

O Abraúl é daquelas pessoas que parece viver a vida com mais intensidade que todas as outras. Podíamos ficar a noite toda a ouvi-lo falar, com aquela forma entusiasmada e frenética de se expressar. Conhecia todos os bares e restaurantes, logo foi o melhor guia que podíamos pedir. A chuva caía a potes e nós andávamos a fazer o reconhecimento dos bares naquela zona. Finalmente parámos num de tantos bares, completamente encharcados, onde a noite se prolongou entre conversas com estranhos e cerveja à mistura.

Dia 8

Acordados pela senhora do hotel, com olheiras até aos joelhos, pegámos na trocha e fomos dar uma volta. Hoje era dia de folga, não tínhamos concerto, por isso sabíamos que tínhamos que aproveitar para tentar conhecer a cidade que apenas vimos de relance na noite anterior. Depois de comer pizza no jantar do dia anterior, fomos à procura de comida local, algo regional mas demos com o nariz na porta de outro restaurante italiano.

Uma cidade como Berlim quase não tem identidade pela diversidade cultural e gastronómica. Tínhamos um plano: encontrar umas bicicletas para alugar e dar umas voltas pois a cidade é tão grande que simplesmente não se consegue ver muito a pé. Depois de várias tentativas acabámos por não conseguir arranjar bicicletas pois o preço estava fora do nosso orçamento. Deambulámos então, a pé pelas ruas da capital. As ruas têm vida, as pessoas estão felizes e há algo de interessante para ver ou fazer a cada virar de esquina. Perdemo-nos no meio do parque Tiergarten, assustadoramente grande e seguimos rumo a Kreuzberg, para encontrar um sítio para jantar e desfrutar da vida boémia e nocturna da capital alemã.

Depois de uns canecos, vimos através de uma vitrina virada para a estrada, uma sala completamente branca, onde estava um senhor com aspecto peculiar, com um baixo elétrico e uma fila enorme de pedais de efeitos à sua frente. Assim que entrámos começou um concerto/performance audiovisual. Camadas e camadas de sons eram sobrepostas de forma cuidada, ao mesmo tempo que por trás dele eram projectadas imagens por outra pessoa que as manipulava com um computador. Não ficámos muito satisfeitos com o resultado musical, não havia muita coesão com aquilo que se via, mas as imagens eram muito bonitas e com muito bom gosto.

Assim que saímos, soubemos de uns concertos de música punk que estavam a haver a alguns quilómetros dali. Lá fomos comer a nossa terceira pizza seguida, entrámos para o metro e após 3 mudanças de linha e alguns minutos a pé, chegámos a uma zona industrial junto ao rio. Aquilo que pareciam ser armazéns abandonados, depressa descobrimos serem um conjunto de bares.

Estávamos à porta do Bei Ruth, um bar que fica no terceiro andar do que parece ser um prédio de escritórios abandonados. A luz era pouca, a música era alta e no pequeno palco três ou quatro gajos tocavam com toda a pujança e garra num frenesim que se instalava pelo público aos saltos e a abanar-se todo. As bandas tocavam meia dúzia de músicas de três acordes e logo a seguir entrava outra.

Não havia tempo para soundcheck, nem para ligar pedais nem nada. Apenas ligava-se a guitarra ao amplificador e o concerto começava. O sítio era sujo, cheirava a tabaco e cerveja seca. Garrafas partidas no chão, graffitis e autocolantes em todas as paredes já faziam parte do ambiente e as pessoas que frequentavam o bar, surpreendentemente, eram bastante diferentes entre elas, reflexo duma cidade em que podemos ser quem quisermos e há uma sensação de enorme respeito e humildade entre pessoas.

Não sabemos o nome das bandas que tocaram, porque não nos lembramos, mas entre cada banda havia um apresentador que largava duas ou três palavras acerca delas. Apresentador esse que quando deparámos com ele, vimos a maior personagem da noite. O DJ do bar, na casa dos 50, vestia um smoking cor de rosa choque, uma gravata e tinha um ar aprumadinho.

Havendo metro durante toda a noite ao fim-de-semana, podemos voltar ao hostel naquilo que pareceu um tiro. A cama chamava por nós, pois o cansaço era muito. Foi um dia em grande e tínhamos mais um concerto pelo caminho.

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