O cinema documental retorna a Lisboa


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Está aí mais um DocLisboa, o festival que por excelência de cinema documental que se realiza anualmente na capital. As datas desta edição são fáceis de memorizar: de 20 a 30 de Outubro. Já os números da programação indicam que podemos esperar um total de 46 filmes portugueses, 13 em competição.

Nas vésperas do festival, é altura para olhar para os vários convites que este 14º DocLisboa nos faz.

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A sessão de abertura vai acontecer no dia 20, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, com a estreia de Oleg y las Raras Artes, de Andrés Duque, um impressionante sucesso internacional, premiado em festivais como o Dokufest, o Cinéma du Réel ou o Punto de Vista. Andrés Duque apresenta-nos o retrato do compositor russo Oleg Karavaichuk, o único pianista que tocava ainda no piano do Czar Nicolau II. Oleg é uma pessoa vibrante, plena de sensibilidade, misteriosa, que parece saída de um conto de Gogol. O filme move-se entre o biográfico e o performativo, numa fascinante incursão pelo universo pessoal e criativo de um artista único, transformando-se num delicioso e divertido encontro com a música, a escuta e a criação.

Na Competição Internacional serão apresentados 18 filmes, 7 dos quais em estreia mundial, dos seguintes realizadores: Kimi Takesue (EUA), Yuki Kawamura (Japão, França), Maria Giovanna Cicciari (Itália), Ludovica Tortori de Falco (Itália), Féliz Rehm (França), Louis Henderson (Reino Unido) e Maximiliano Schonfeld (Argentina). Nesta selecção de obras, de diferentes formatos e durações, Rita Azevedo Gomes é a presença portuguesa, com o filme Correspondências.

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Na Competição Portuguesa estarão Marília Rocha, Pedro Neves, Cláudia Varejão, André Marques, Cláudia Rita Oliveira, Miguel Faro, Ida Marie Sørensen, Joana Linda, Mário Macedo, Patrícia Pinheiro de Sousa, Edgar Pêra e Luciana Fina.

A 14ª edição do DocLisboa contará com uma nova secção, Da Terra à Lua, que estreia fora de competição. Da Terra à Lua traz os mais recentes filmes de realizadores chave do panorama documental, numa viagem onde se coloca em perspectiva o nosso presente colectivo, nos seus diferentes lugares, onde serão mostradas as mais recentes obras de realizadores como Wang Bing, Avi Mograbi, Werner Herzog e Rithy Panh, entre outros.

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Na secção Riscos destaca-se a homenagem a Peter Hutton, realizador experimental norte-americano recentemente falecido, num programa assinado por Luke Fowler e Rinaldo Censi. Luke Fowler, candidato ao Turner Prizer em 2012, será também alvo de uma incursão pelos seus filmes. Será realçado ainda Manon de Boer, presença regular no festival, convidada nesta edição a programar uma sessão em torno do seu último filme. How I Fell In Love With Eva Ras, de André Gil Mata, menção especial do grande prémio FidMarseille, será também exibido nos Riscos. O filme de abertura desta secção será Manoel de Oliveira: 50 Anos de Carreira, filme realizado em 1981 por Augusto M. Seabra e José Nascimento.

Mídia Ninja em Lisboa

Na secção Cinema de Urgência, vai existir uma sessão dedicada ao mais recente contexto político no Brasil. No dia 31 de Agosto, o Senado Brasileiro consumou a destituição de Dilma Rousseff, iniciado no Congresso pela mão de Cunha e em nome de Deus. Um golpe parlamentar tomou forma sob as vaias de milhões de brasileiros. As ambições deste Governo – não eleito – põem em causa conquistas passadas e projectos futuros.

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“#ForaTemer” será um ciclo no Cinema São Jorge dedicado a esta temática, com a presença em formato de debate de Pablo Capilé, criador do Mídia Ninja, um órgão de comunicação social conhecido pelo activismo político e que se assume como uma alternativa à imprensa tradicional.

De Bowie a Siza Vieira

A secção Heart Beat abrirá com o filme Sons do Gueto, da dupla Tim&Barry, sobre o movimento criativo em torno da editora portuguesa Príncipe e contará ainda com estes filmes:

  • Bowie, Man With A Hundred Faces Or The Phantom of Hérouville (2015) – que segue o rasto de Bowie, o fantasma, a partir de um local que ele assombrara: os estúdios míticos do Castelo de Hérouville. Foi, em parte, aqui que o rock dos anos 1970 escreveu a sua lenda, de que Bowie é um dos maiores protagonistas;
  • David Lynch: The Art Life (2016) – uma viagem íntima com David Lynch. Da sua educação idílica na América das pequenas cidades às ruas escuras de Filadélfia, acompanhamo-lo enquanto identifica os acontecimentos que ajudaram a moldar um dos mais enigmáticos realizadores de cinema. O filme infunde a arte, música e primeiros filmes de Lynch, iluminando os cantos escuros deste mundo singular, permitindo ao público compreender melhor o homem e o artista;
  • Having A Cigarette with Álvaro Siza (2016) – é uma conversa sobre arquitectura com Álvaro Siza Vieira, prémio Pritzker e um dos melhores arquitectos deste século, socialista e fumador inveterado. O filme destaca o seu trabalho inicial e permite ao espectador compreender a forma de trabalhar e de pensar de Siza.
  • Mapplethorpe: Look at the Pictures (2016) – a única coisa mais ultrajante do que as fotografias de Robert Mapplethorpe foi a sua vida. Este é o retrato de um artista, marido de Patti Smith, que transformou a fotografia contemporânea numa arte nobre, com uma visão que criou uma guerra cultural, ainda hoje feroz.

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Festas no Principe Real

O Palácio do Príncipe Real é o espaço oficial das festas do DocLisboa. O bolero, o chachachá, a rumba e a conga. O funk e o punk. A batida da Príncipe. O universo de Mapplethorpe e dos Linda Martini. Os Santos Populares em Outubro. Há festas para todos, todos os dias do festival.

Destaque para a Noite Príncipe no dia 21 de Outubro, em colaboração com a Príncipe e o Musicbox. Pelo palco passará o DJ Nunex, dos Alto Nível Produções da Quinta do Mocho, num raro set a solo, o triunvirato staminíco Blacksea Não Maya, um breve live de Doum, produtor e cantor original sob o signo de Jah, e o espírito livre DJ Firmeza no troço final da viagem.

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No dia da projecção de Mapplethorpe: Look at the Pictures, ou seja, a 22 de Outubro, vestem-se casacos de cabedal, sintoniza-se a telefonia e dança-se com Patti Smith, Lou Reed e The Stooges, numa festa a começar às onze da noite e a terminar às quatro da manhã. E no dia 27, após apresentarem o seu documentário no Cinema São Jorge, os Linda Martini sobem ao Príncipe Real, numa noite entre a música que fazem e a música de que gostam.

Encerramento com a estreia de João Monteiro

A sessão de encerramento realiza-se no Grande Auditório da Culturgest, com a estreia de Nos Interstícios da Realidade Ou O Cinema de António de Macedo, a primeira obra de João Monteiro. António de Macedo foi um dos mais controversos e talvez incompreendidos realizadores do “Novo Cinema” português, movimento que ajudou a fundar com o filme Domingo à Tarde. Verdadeiro inventor em cinema, com incursões em géneros tão díspares como o spaghetti western e a ficção científica, é difícil classificar o seu cinema no contexto português. Porém, a clivagem com a crítica e com os seus pares vetou-o a um quase ostracismo que o levaria a deixar de filmar nos anos 90, depois de sucessivas recusas de subsídios estatais.

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Após sete anos de pesquisa, recorrendo a imagens de arquivo (não só das rodagens dos próprios filmes de Macedo mas também da história do cinema português) e a entrevistas inéditas, como as de Fonseca e Costa ou como a última entrevista de Fernando Lopes, João Monteiro, um dos directores do MOTELX, estreia-se na realização de um documentário que traz uma nova luz sobre um realizador que parecia caído no esquecimento. E traz-nos uma história do nosso cinema que estava ainda por contar. Afinal quem se lembra de António de Macedo?

Este ano, o DocLisboa continua a estar presente em toda a cidade, da Culturgest ao Cinema São Jorge, da Cinemateca Portuguesa à Fundação Calouste Gulbenkian. Mais uma vez, o mundo em Outubro cabe todo em Lisboa. De dia 20 a dia 30. Programação completa aqui.

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