Jameson Urban Routes: Sensible Soccers + The Comet is Coming


 
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Esta é a história de como duas bandas com sonoridades tão diferentes conseguiram estabelecer uma hiper-actividade harmónica na sessão 9 do Jameson Urban Routes. São elas Sensible Soccers e The Comet is Coming.

As expectativas eram elevadas para este dia do festival com dois grupos a almejar um Musicbox dançarino – de um lado Sensible Soccers que são uma das formações portuguesas com mais presença e menos palavras e, do outro lado, The Comet is Coming, um trio londrino que pela segunda vez pisa os palcos portugueses este ano, sendo a primeira no Festival Músicas do Mundo em Sines. A título de curiosidade, o saxofonista do grupo, Shabaka Hutchings, tocou uma terceira vez este ano em Portugal, mas com o grupo Sons of Kemet, no Milhões de Festa.

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Qualquer concerto que se digne de acontecer em Portugal tem de começar sempre atrasado e este não foi excepção. O atraso foi mais num sentido de esperar que o público se compusesse, coisa que aconteceu, deixando o Musicbox praticamente cheio. A subida ao palco, por parte dos Sensible Soccers, foi automaticamente acompanhada por uma enchente de aplausos – por sua vez, respondida com 3 notas do sintetizador. O caos controlado estava estabelecido e foi altamente redefinido pela introdução de uma beat de House, que serviu de cola para as músicas. As luzes e as projeções também jogavam a favor do grupo que pouco tinha para nos dizer, a música em si dizia tudo, dancem a vosso belo prazer.

Entre 8 e Vila Soledade, o que mais surpreende é a forma como Sensible Soccers conseguem ter uma sonoridade própria e estar constantemente a inovar dentro do seu registo. No final, a sensação transmitida foi a mesma de quando perguntei como correu a um colega alentejano que saiu ao fim de meia hora do exame, ao que ele me respondeu: “curto e grosso”. Foi bom demais para tão pouco tempo.

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O intervalo, que durou 15 minutos, foi subitamente interrompido pela timidez de Shabaka Hutchings (Saxofone), ao pisar o palco do Musicbox. Timidez essa que perdurou durante todo o concerto, contrastando altamente com a forma efusiva com que o músico soprava na boquilha. Em Abril deram à luz Channel The Spirits e em Outubro mostraram ao público lisboeta o seu primogénito de longa duração. Marcada por uma construção em estado de transe, o trio transmite essa mesma essência em palco, não destoando muito do que as músicas são na sua origem.

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A parte mais difícil foi mesmo perceber qual o músico que se destacava mais: se o silencioso Shabaka que, cada vez que tocava no saxofone, o seu pescoço inchava como um sapo; se Betamax Killer a destruir por completo a bateria sem deixar qualquer risco; ou se o eufórico Danalogue The Conqueror a saltar de tecla em tecla no seu sintetizador. A verdade é que cada um teve o seu momento de brilhar, mostrando um estado puro de sintonia na recriação de música com um registo jazzístico e altamente ritmado. Tudo se fundiu numa mescla de trance, Jazz e Funk. Quem os sentiu decerto que ficou com os tímpanos entupidos.

Quando dois concertos chegam assim ao fim e ainda são 23 horas o que tinha sabido mesmo bem era assistir à sessão que se seguiu no Jameson Urban Routes, que contou com Nightmares On Wax e DJ Kon.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!