A Tribe Called Quest, o fechar de um capítulo


De seu nome Quest, a tribo composta por Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad e Jarobi White lançam o seu disco final, We Got It From Here… Thank You 4 Your Service. Este serve como ode a Phife Dawg, eterno integrante que morreu a 22 de Março deste ano. A sua morte serviu de inspiração à criação deste álbum, que passa para os lugares da frente na corrida para melhor álbum de hip-hop do ano.

Muito tem sido feito no que toca à divulgação desta obra prima, como lhe posso chamar, potenciando assim o seu impacto mediático. A Pitchfork publicou a lista inteira de créditos do álbum, a OkayPlayer falou sobre a história secreta por detrás do novo trabalho dos A Tribe Called Quest (ATCQ). Isto levou a que a discografia do grupo subisse nas tabelas e à oportunidade de brilhar no Saturday Night Live.

O resultado reflectiu-se em certas notas atribuídas ao LP, a Pitchfork deixou-se levar pela hype gerada (principalmente gerada pela revista), atribuindo um 9.0/10 e deixando no subtítulo uma nota um pouco errónea na minha perspectiva, “it reinvigorates the group’s discography without resting on nostalgia”.

Diria que se apoia bastante na nostalgia, o álbum soa a nostálgico com “uma pitada de 2016”. Os takes gravados de Phife nas faixas é o maior exemplo do revivalismo presente, da saudade que têm. Vejo isto como ponto mais positivo do disco. Dezoito anos depois de The Love Moment, renasce um grupo que parece que só demorou um ano a lançá-lo, por se sentir que é um seguimento do que a identidade do colectivo conseguiu construir. A Rolling Stone atribuiu 4 em 5 estrelas, deixando, a meu ver, a crítica mais concisa a nível analítico.

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Uma panóplia de beats bem produzidos, repletos de simplicidade, definem um trabalho feito com a alma, não procurando explorar detalhes técnicos, mas sim criar sons apetecíveis. Esta produção ficou a cabo de Q-Tip e de Blair Wells, sendo que o DJ do grupo, Ali Shaheed Muhammad, não é mencionado na lista de créditos. “Solid Wall of Sound” é a música mais pop do álbum. Conta com a participação de Busta Rhymes, Jack White e Elton John, e junta rimas fantásticas com um refrão bom mas desenquadrado.

Os picos de maior qualidade notam-se em “The Space Program”, “We The People…” e “Dis Generation”. A participação de Anderson .Paak em “Movin Backwards” e de Kendrick Lamar em “Conrad Tokyo” foram medianas, comparativamente com algumas participações que ambos tiveram noutros álbuns editados este ano. O grupo caiu na asneira de estruturar um álbum, colocando as melhores músicas na primeira metade, provocando alguma desatenção na segunda metade deste que dura uma hora.

Este tipo de estrutura foi utilizada, por exemplo, no Yeezus do Kanye West ou no Atrocity Exhibition do Danny Brown, não resultando tão bem para o primeiro, contrastando com o segundo que é outro sério candidato a melhor álbum de hip-hop do ano.

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No final de Outubro deste ano, os ATCQ tinham partilhado no Facebook uma carta escrita à mão, lembrando a sua participação no Tonight Show a 13 de Novembro de 2015, noite dos atentados de Paris, e anunciado aos fãs que, depois daquela frenética noite, começaram a gravar em estúdio o disco entretanto lançado como We Got It From Here… Thank You 4 Your Service. Na mesma mensagem, o grupo lembra o falecimento de Phife em Março, o que influenciou substancialmente o rumo que o disco viria a tomar.

A carta deixa claro a sensibilidade com que Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad e Jarobi White cozinharam as músicas com o que Phife tinha gravado, gerando um imediato sentimento de solidariedade e simbolismo entre os fãs. We Got It From Here… Thank You 4 Your Service é sobretudo um momento de união e de consagração de um dos grupos mais respeitados no meio.

Sente-se que o álbum tem muito de cada músico que participou nele, mas acima de tudo, uma enorme transparência na forma como as rimas foram declamadas em estilo “hip-hopiano” ou como os refrões foram cantados como mensagens de esperança. Isto reflectiu-se em partes com uma melhor concepção do que outras. A forma como está estruturado não tem grande nexo, mas este ponto torna-se irrelevante quando se reflecte sobre todo o impacto que o grupo consegue gerar, sendo donos de um papel social e político activo, muito para além do som impregnado no disco.