Capicua com banda no CCB: “É para manter a raíz – é quase destilar a música”


Ao chegar ao CCB, podíamos ter lido por todo o lado Comandante da Guerrilha Cor-de-rosa, Sereia Louca ou Maria Capaz, mas, em cada canto, um cartaz com letras garrafais mostra-nos que Capicua é o nome cabeça de cartaz dos próximos tempos ali para os lados de Belém.

E não é de admirar – não só por ser o símbolo que é no hip hop em Portugal, pela forma como insiste em reinventar-se e pelo trabalho que tem feito nos últimos anos – como por ser a responsável pelo fecho do CCBeat na próxima sexta-feira, dia 2 de Dezembro, num concerto em que aparece pela primeira vez acompanhada por uma banda.

Depois de uma temporada inaugurada pelo hip hop sui generis dos Orelha Negra no Grande Auditório, Capicua estreia-se na mesma sala, num registo que recupera alguma da essência do boom bap tocado ao vivo. À habitual entourage junta-se uma bateria, um baixo e um teclado que prometem dar uma nova vida ao já vasto repertório desta mc portuense.

A rapper que se tem desdobrado em diferentes projectos e colaborações, sobe dia 2 ao palco numa oportunidade para revisitar alguns temas e para celebrar o momento único na sua carreira. Capicua que tem tido uma das agendas mais preenchidas do nosso país, parou para uns minutos de conversa em que tentámos saber mais sobre esta experiência e o seu momento de carreira.

 

Como enquadras a transição para o formato de banda depois de teres estado um tempo mais dedicada a outros projectos e em que ouvimos falar menos de Capicua?

Não é bem uma viragem, o trabalho “Mão Verde” é uma cena paralela. Começou a convite do São Luiz, já existe desde o ano passado e tem acontecido sempre em paralelo com os concertos que vou dando no meu circuito de concertos para público em geral e este concerto do CCB surge no curso desse trabalho que tenho feito. O concerto, aliás, nasceu antes do “Mão Verde” porque já esta marcado há muito tempo, convidaram-me para fazer o fecho do ciclo CC Beat que começou com Orelha Negra – com um concerto incrível – e fecha agora em Dezembro com o meu concerto.

Como era importante para mim que nunca toquei no CCB, achei que era fixe fazer uma cena especial e como estou assim num momento de fechar um ciclo – porque Medusa saiu em 2015 e desde então tenho andado a tocar Medusa e Sereia Louca, e tudo isso – estou agora com vontade de começar a fazer um disco novo, com calma, começar a escrever… E quis encerrar o ano com um concerto que celebrasse todos estes anos de trabalho com repertório lá de trás.

Vais tocar várias músicas do Capicua Goes Preemo, 2 ou 3, do Goes West, Sereia Louca, Medusa e uma outra colaboração.

Foi tipo uma revisão do que fiz nos últimos anos desde que comecei a fazer musica sozinha, desde 2008. Ouvir os discos e as mixtapes e perceber o que para mim ainda fazia o mesmo sentido, que músicas é que resistiram melhor ao tempo e quais é que têm mais potencial para serem tocadas por uma banda cheia de instrumentos e fora do formato hip hop habitual com que tenho tocado.

E portanto foi do género: “Ok, antes de um disco novo deixa-me celebrar isto tudo com um concerto especial e também com uma nova experiência que é esta de tocar com uma banda de formato alargado com instrumentos mais clássicos.” Perceber o que podemos acrescentar em termos de instrumentos mantendo a identidade e a raíz.

E o uso da banda no novo álbum? É uma hipótese?

Espero nos próximos meses poder voltar a tocar com a banda, está a ser incrível a experiência e está a dar muito trabalho e é óbvio que é pena se for só este concerto. Eu no próximo álbum acho que vou fazer como tenho feito nos anteriores, onde às vezes adiciono alguns instrumentos, mas a matéria-prima, pelo menos a forma como encaro a escrita, é quase um loop e uma variação de um refrão que é a base para qualquer rapper e eu não sou excepção. Mesmo que depois acrescente algo ao instrumentais é sempre em pós produção. E como fiz na Cauda da Sereia Louca – que tenho músicas com o (Mistah) Isaac e os They’re Heading West – são todas releituras de temas anteriores, porque para mim o processo criativo começa sempre na escolha do beat e vai continuar a ser assim. Não quer dizer que depois não queira tocar com uma banda mas sempre a posteriori, é o meu processo criativo e o processo de quase todos os rappers – nós não compomos à guitarra.

Depois de ouvires as letras em registos diferentes como na voz da Gisela João, sentes que este formato também é uma oportunidade de explorar com o teu trabalho um registo com mais potencial?

Claro, eu gosto de todas as colaborações possíveis, todas as vezes que trabalhei com outras pessoas. Desde músicos que convidei para as minhas músicas, desde músicos de quem fiz releituras das musicas como os They’re Heading West, Mistah Isaac, ou no concerto do Sérgio Godinho, ou mesmo quando convidei outras pessoas como a Gisela João, a Aline Frazão, a Tamine para cantar nos meus temas. Ou mesmo quando peço um artwork para o meu disco, ou trabalho com um realizador para um vídeo, ou seja, todas as colaborações, sejam na música ou fora dela, eu aprendo sempre muito portanto acho que neste caso que estou a viver – a preparação deste concerto – também estou a aprender muito. É engraçado ver como um grupo de 5 músicos olhou para o meu repertório, me ajudou a escolher as músicas.

“Eu fiz uma grande lista e disse: Agora vocês vão escolher a shortlist – algumas têm de ficar mas o resto está aberto à vossa votação.”

Mas é engraçado o processo de perceber o que é essencial ficar para que a música não perca a sua identidade. O sample vai ficar, será que fica outra coisa? Vamos manter a batida ou vamos tocar com uma bateria por cima? Todas essas questões acabam por trazer muito para mim, para a minha visão do meu trabalho e sobre a forma como a minha música resulta noutras abordagens, noutras linguagens.

Eu já tinha feito um bocadinho esse processo no Medusa em que entreguei as pistas de voz a vários produtores e disse: “Agora façam o que vocês quiserem” e depois a música veio com a mesma letra mas em kuduro, dubstep, isso foi engraçado mas não foi feito em conjunto. E aqui o objectivo é diferente, é que tudo se mantenha hip hop.

“Mesmo que com banda tenha uma abordagem diferente é para manter a raíz – é quase destilar a música.”

Estou a procura do óleo essencial – o que é essencial em cada música para que ela ganhe mais energia. Tenho tocado sempre em formato clássico, até porque toco para públicos diferentes e algumas pessoas que não são o público típico do hip hop e acaba por ser uma forma de dar a conhecer e destruir algum preconceito. Agora quero fazer a coisa de maneira diferente, tocar com uma banda cheia de instrumentos mas também manter a identidade.

Queres então captar novos públicos?

Eu acho que em todos os concertos eu estou à procura de novos públicos – há sempre alguém que vai arrastado pelo amigo e pela namorada e este concerto não é diferente. Não estou a tentar agradar ao público que não gostava do meu concerto como era. Aquilo que é importante – a música é importante, o beat é importante – mas no limite, aquilo tem de resultar nem que eu diga o poema em silêncio, porque isso é o que eu faço – captar as pessoas com as palavras.

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Apesar de ser uma banda nova com mais elementos, parecem ter todos algumas ligações entre si, por exemplo, o Sérgio toca com o Virtus, manténs o D-One…

Eu escolhi o Sérgio (teclista) e o Ricardo (baterista) porque já tinha trabalhado com eles há uns anos – eles juntaram um conjunto de músicos que curte tocar hip hop – que parece uma coisa fácil mas não é. E então, eles fizeram um concerto onde tocavam beats clássicos de rap e convidavam vários MCs: eu, o Maze, o Berna… Eu lembro-me de ir aos ensaios e curtir o Ricardo a tocar. Curti bue a energia dele e o swing dele e disse-lhe logo que um dia quando precisasse de um baterista ia convidá-lo. O Sérgio, acompanho muito o trabalho dele, trabalha com o Virtus, também tem trabalhado com a Marta Ren, alguém que eu adoro, e entende a minha estética. O Luís Montenegro dos Salto, convidei porque é um multi-instrumentista e ele próprio também é produtor. Já tínhamos colaborado numa remistura do Medusa que é das minhas preferidas.

Ou seja, já tinha colaborado com todos eles de uma forma ou de outra. Isso para mim é essencial para garantir que há uma certa identificação e que estamos na mesma frequência de onda.

A M7 e o D-One são o núcleo duro, desde sempre, antes do primeiro EP, quando formámos uma banda com a Maria uma amiga nossa cantora de Soul. Há 2 ou 3 anos, juntei o Virtus para ir lançando os beats – e agora não me vejo a tocar sem ele porque é a pessoa da estrutura da banda que conhece melhor as canções. E depois também, apesar de ser um gajo do hip hop, produtor de hip hop e rapper, tem uma formação musical clássica. Estudou guitarra no Conservatório, tem um curso de jazz de piano, estudou produção na ESM do Porto e tem as ferramentas para falar com os músicos – é quase o maestro da banda.

Vais ter convidados?

Sim, vou ter o Nerve a cantar “Judas & Dalilas” do primeiro disco e vai ser o único convidado.

E coisas novas?

Neste tempo todo tive a compor o “Mão Verde” e algumas musicas para outras pessoas que entretanto hão-de sair. Mas eu faço paragens não estou sempre a compor. Quando tenho um disco para fazer dedico-me a ele, não quero sentir que estou sempre a chover no molhado e a repetir formas. Então gosto de parar, viver outras coisas, ler outros livros e ver outros filmes e depois quando vou escrever já tenho outra abordagem – uns truques novos, digamos assim.

Portanto, agora a partir do próximo ano gostava de começar a escrever um disco novo, com calma. Aquilo que tenciono para o ano é tocar bastante o “Mão Verde”, com os concertos de Capicua, espero que sejam com banda.

Olhando para o final, há alguma música trabalhada com a banda cujo resultado te tenha surpreendido?

Nenhuma ficou desfigurada (risos), também não era essa a intenção. Mas acho que algumas ganharam uma vida nova – por exemplo, a “Lingerie” que é uma música do primeiro disco com um beat do Premier, ficou muito, muito fixe. Porque lá está, fomos buscar o sample original e eles estão a tocar assim ligeiramente uptempo, aquilo ganhou uma energia nova mantendo a cena clássica do Primo. Sempre gostei muito dessa música mas parece que é nova sabes – ficou a tinir.