Vodafone Mexefest: uma degustação gourmet


 
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Uma pessoa que visite o 100 Montaditos come 4 peças e fica satisfeita. A mesma pessoa que visite o Vodafone Mexefest vê 15 concertos e não enche o bucho. O Mexefest é isto, ouvir um bocadinho aqui, um bocadinho ali, sempre à procura do petisco que mais nos satisfaça, conciliado com uma pitada de mistério e descoberta. A conclusão a que cheguei é que as actuações no festival da Avenida da Liberdade são mais deliciosos que queijo de cabra, cebola crocante e molho de mostarda e mel mas que, tal como a iguaria espanhola, fiquei com vontade de ouvir só mais um.

O sobe e desce pela avenida mais rica da cidade foi acompanhado pela famosa hidratação de Inverno – tudo isto à procura do melhor montadito… peço desculpa, concerto que levasse a proferir, “uhuh vi o espectáculo todo e não foi porque os bancos do Tivoli são confortáveis e lá fora está a chover”. Aqui em jeito de parêntesis, e se o senhor Luís Montez estiver a ler isto, o Verão de São Martinho é só duas semanas antes do festival e diz que não costuma chover nessa altura.

Colocando um ponto final nas apresentações, passamos à articulação do itinerário músico-gastronómico.

Celeste/Mariposa

Em formato “one-man DJ”, Celeste/Mariposa abriu o festival com ritmos africanos, ligados à cultura dos PALOP, expostos através de melodias contextualmente tradicionais. A lua a ascender e o frio a aumentar não conseguiram meter o público do Mexefest a mexer mais do que um pé, talvez justificado pelo tempo que demoraram a começar a servir os primeiros finos.

Bruno Pernadas

Por questões alimentícias, vi-me confrontado com um atraso de 10 minutos a chegar ao concerto dos já aclamados “Snarky Puppy portugueses”. Por sorte arranjei um lugar na primeira fila do Tivoli apesar da lotação praticamente esgotada da sala. Depois de muito deambular pela discografia de Bruno Pernadas e espancar continuamente no disco Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them (ou, em jeito de abreviação, o disco dos crocodilos), ouvir a a recriação das linhas melódicas, a harmonia das vozes em loop, a perfeita coordenação dos sopros… fez-me sentir um nível sufocante de felicidade. Do melhor “jazz de fusão” alguma vez feito em Portugal, altamente adocicado com melodias catchy e mudanças rítmicas. O desfecho do que para mim foi o melhor concerto do certame deu-se com a música “Galaxy”, o meu tema de eleição, altamente progressivo e oscilante.

Talib Kweli

Uma lenda do hip hop underground, que este ano só nos presenteou com colaborações com A Tribe Called Quest, Anderson .Paak, Shura e Karma Fields, subiu ao palco do Capitólio e deparou-se com o espaço cheio e com mais umas quantas pessoas a ver de fora – tudo à espera de sentir um pouco da parte terminal da Golden Age. O maior reconhecimento de Talib Kweli foi  no seu LP de estreia, Mos Def & Talib Kweli Are Black Star, em colaboração com o mítico Yasiin Bey, que recentemente recebeu permissão para sair de África do Sul.

Diamond D & Large Professor

Diamond D & Large Professor surgiram logo a seguir a Talib Kweli no Capitólio e meteram-se a virar discos, abordando principalmente temas mais old school. O duo, reconhecido no meio por produzir grandes nomes do hip hop, foi observado o tempo todo no backstage por Talib Kweli, que desfrutava da sua ganza.

Fugly

Crowdsurfing num autocarro alugado à Carris, seguido de um sapato espetado na cara, agora repetimos isso cinco vezes durante 15 minutos e temos um dos melhores concertos do Vodafone Mexefest. Vindos do Porto, decidiram vir experimentar os transportes públicos de Lisboa para nos apresentar Morning After, um EP que transpira anos 70 por todo o lado. É daqueles casos que nos faz sentir bem com um pouco de revivalismo, principalmente para quem não teve oportunidade de viver a Golden Age do Rock.

Jagwar Ma

Já se começam a habituar a bons palcos e nesta passagem pelo Coliseu provaram isso. Tiveram o à vontade suficiente para enfrentar um público já habituado a estas andanças do indie rock. Vieram apresentar o seu trabalho deste ano, Every Now & Then, mas o encanto maior foi mesmo o single de estreia do grupo, “Come Save Me”. Fecharam a noite de forma tão enérgica que quem saiu do Coliseu logo se encaminhou para o Musicbox onde, fora do Mexefest, Jono Ma, um dos membros de Jagwar Ma, fechou a noite com um DJ set.

Zanibar Aliens

Ir ver este quinteto foi, acima de tudo, um pressentimento que acabou por bater certo. Conhecendo só uma ou duas músicas, senti logo reminiscências de Led Zeppelin ou Rolling Stones, mas acabou por ser muito mais do que o chamado “Daddy’s Rock”. O grupo composto por dois suecos e três portugueses foi uma revelação. Além de originais consistentes, os Zanibar Aliens mostraram-se versáteis nos seus instrumentos, intercalando os seus temas com incríveis solos e um acompanhamento da bateria muito seguro de si mesmo.

Gallant

A abertura do segundo dia dos concertos no Coliseu dos Recreios ficou a cabo de Gallant. O músico de Maryland é uma das escolhas de luxo de Luís Montez, que fez questão de o trazer depois de o ver no SXSW e de perceber o fenómeno que tinha à sua frente. Os mexefestianos concordam com o senhor da Música no Coração: a reprodução dos temas electrónicos com instrumentos mostrou a qualidade do grupo que acompanha Gallant. Conseguiram ir muito para além do que são os seus trabalhos de estúdio.

Mallu Magalhães

No sobe e desce da avenida, e com uma paragem a meio para abastecer, tive tempo para ver 15 minutos da menina mais querida da MPB. De volta ao conforto dos assentos do Tivoli, fui encantado por uma voz e uma guitarra, dotadas de uma certa simplicidade que me faz sempre questionar porque é que todos os brasileiros sabem cantar.

Elza Soares

Se Mallu Magalhães é a princesa, então Elza será a Imperatriz, a Cleópatra do Brasil, com todo o direito a envergar um belo cabelo roxo, enquanto olha em frente e ao mesmo tempo para toda a gente. No cimo do seu trono, e sem de lá sair, Elza Soares só dizia “vocês são altamente fixe!” – uma expressão nostálgica para quem era do tempo do baril. Nesse tempo, já Elza Soares tocava, mas com pouco reconhecimento, sendo que foi este ano que começou a receber aclamação no estrangeiro com o disco A Mulher do Fim do Mundo. Um álbum surpreendente por ser de uma diva de 79 anos que teve a audácia de colocar a seu lado músicos extraordinários, resultando numa composição eclética e gritos de raiva.

TaxiWars

Adivinhem quem voltou? O suspeito do costume, Tom Barman, líder do grupo belga dEUS e residente em Lisboa. Desta vez, veio com TaxiWars, um trabalho conjunto com o saxofonista Robin Verheyen, que mistura Jazz com o ritmo epiléptico de Tom. Uma Casa do Alentejo cheia e com fila quase até à entrada, acabou por ser abrangido por um público mais experiente com mais ideia do que vinha ver. Pelo caminho, tropecei no Camané.

Este festival nunca desilude e tende sempre a oferecer uma grande diversidade de concertos para se ver, dá mesmo vontade de usar o Vira-Tempo (relógio do universo mágico Harry Potter), e ver todos os concertos do Vodafone Mexefest.

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