Cientistas defendem que a felicidade não favorece a criatividade

Ser infeliz para ser criativo?

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A criatividade é inegavelmente uma componente de enorme importância no desenvolvimento de praticamente qualquer projecto ou função, seja ela pessoal ou profissional. Seria por isso de esperar que um estado de felicidade e bom humor contribuísse efetivamente para despoletar o processo criativo de forma positiva. No entanto, a comunidade científica tem várias reservas quanto a esta suposição, defendendo que a felicidade poderá mesmo actuar como um entrave para o desenvolvimento criativo.

Mesmo em campos específicos como o da psicologia, a criatividade é por si só um atributo extremamente complexo. Mark Davis, psicólogo da Universidade do Texas do Norte, afirma que a criatividade pode ser dividida em duas fases – o desenvolvimento inicial de ideias e a consequente resolução de problemas a elas associado. Na sua pesquisa direcionada para a relação entre o humor e a criatividade, Davis concluiu que um bom índice de felicidade e bem estar é útil para a primeira parte da criatividade, possibilitando um melhor processo de brainstorming e facilitando o processar de informação inicial.

Contudo, no que diz respeito à segunda fase da criatividade, Davis descobriu que um estado de bom humor não só não contribui para a resolução de problemas como poderá influenciar o rigor com que avaliamos e criticamos o nosso progresso, aspecto fundamental para o desenvolvimento do processo criativo. De acordo com as conclusões do psicólogo, o stress que advém da resolução de problemas, ainda que desconfortável, acaba por ser um factor benéfico para o processo criativo uma vez que nos motiva a completar a tarefa que temos em mão.

Jennifer George e Jing Zhou, professores de psicologia na Universidade de Rice, partilham uma opinião semelhante quanto aos benefícios criativos dos desafios e de emoções negativas. A dupla de psicólogos desenvolveu um estudo em que avaliou o estado de humor de mais de 160 trabalhadores ao longo de uma semana, concluindo que os trabalhadores que mostraram maiores níveis de criatividade foram aqueles que exprimiram sentimentos bons e maus, destacando-se dos trabalhadores que mostraram estar de bom humor na maior parte do tempo. Isto acontece, afirmam, porque a expressão de maus sentimentos ou estados de humor sinaliza a existência de problemas de alguma ordem, que por sua vez inspira à sua resolução e à melhoria generalizada das condições.

Também na área da neurociência surgem evidências que suportam esta teoria, segundo defende a neurocientista Amy Arnsten, da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale. Arnsten afirma que a gestão das emoções é crucial para a criatividade, uma vez que pressões emocionais intensas (como felicidade extrema ou estado depressivo) podem causar disfunções no córtex pré-frontal, área do cérebro que está intrinsecamente envolvida no processo criativo. Ao receber estímulos emocionais intensos e descontrolados, o córtex pré-frontal liberta níveis de dopamina em excesso no sistema, causando dificuldades de discernimento e afetando de forma direta a capacidade de criar.

A chave para maximizar a eficácia da criatividade passa assim por conseguir gerir da melhor forma os estados de humor sem nos deixarmos levar pelos seus extremos, e compreender que emoções mais negativas inerentes a qualquer processo criativo podem ser uma fonte de inspiração igualmente importante. Como explica Emma Seppala, autora do livro The Happiness Track, “emoções positivas de alta intensidade podem ser tão desgastantes como emoções negativas de alta intensidade. A criatividade não surge tanto quando estamos altamente stressados ou excessivamente emotivos”.

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