Cientistas e programadores juntam-se para salvar os dados climáticos dos EUA da Administração Trump

Com Trump à frente da Casa Branca, comunidade científica norte-americana adota uma postura de “mais vale prevenir que lamentar” no que diz respeito a registos ambientais.

Enquanto Donald J. Trump tomava posse como 45º Presidente dos Estados Unidos da América no dia 20 deste mês, dezenas de cientistas e programadores juntaram-se na Universidade da Califórnia em Los Angeles com um simples objetivo – copiar e arquivar toda a informação ambiental possível.

Receosa com a postura da administração Trump sobre questões ambientais, a comunidade científica norte-americana tem andado a recolher registos e bases de dados ambientais de centenas de páginas governamentais, que temem poder estar em risco de ser alteradas ou mesmo eliminadas com a chegada do novo inquilino da Casa Branca.

Estes eventos de “resgate de dados” ambientais têm ganho enorme popularidade entre um vasto espectro de cientistas, académicos, hackers, bibliotecários ou meros entusiastas um pouco por todo o país. Só nas duas semanas que antecederem a cerimónia de tomada de posse de Trump, registaram-se maratonas de salvamento de dados em Toronto, Filadélfia, Chicago, Indianápolis e Michigan. Grande parte dos dados recolhidos nestas sessões foram posteriormente arquivados em páginas como a Internet Archives ou a DataRefuge, com o principal intuito não só de proteger a informação de ser destruída pela administração Trump mas também para conseguir comparar a eventuais alterações realizadas nas várias páginas governamentais.

O medo generalizado que assola a comunidade científica norte-americana é o de que Trump possa usar a sua influência enquanto líder da maior superpotência mundial para banalizar a grave problemática das alterações climáticas, rejeitando conclusões empíricas registadas durante décadas e substituindo-as pelos já famosos “dados alternativos”, que de forma demagoga ameaçam alterar drasticamente a luta contra a má gestão dos recursos ambientais e a intervenção humana danosa para o meio ambiente.

Trump reiterou várias vezes durante o período de campanha que via a temática do aquecimento global como um autêntico “embuste”, tendo-se mostrado extremamente crítico do Acordo ambiental de Paris e nomeado Scott Pruitt para administrador da Agência de Proteção Ambiental, conhecido por ter processado a agência que agora gere com o intuito de revogar regulamentos da poluição do ar.

Logo no dia da tomada de posse, os receios dos vários “maratonistas” de regaste de dados começaram a confirmar-se, tendo desaparecido do site da Casa Branca todas as páginas relativas às mudanças climáticas. Ainda que seja relativamente normal para uma nova administração alterar páginas governamentais dos seus antecessores, a retirada de toda e qualquer referência a alterações do clima é algo inédito, fazendo soar os alarmes perante um perplexa comunidade científica. “Quem me dera estar errada sobre as nossas preocupações, mas foi isto que internamente previmos e para o que nos preparámos” afirmou Bethany Wiggin, diretora do programa de humanidades ambientais da Universidade da Pensilvânia e organizadora de alguns eventos de recolha de dados.

Mais do que alterações nas páginas do Governo acessíveis ao público norte-americano, existe agora o receio de que a nova administração venha também a interferir com as bases de dados científicas federais, imprescindíveis para a elaboração de estudos científicos e académicos. Para prevenir semelhante desfecho, vários aglomerados de dados têm sido arquivados em servidores exteriores aos Estados Unidos, como é o caso da empresa de arquivo canadiana Page Freezer.

Michael Riedyk, CEO da empresa, diz estar a trabalhar ativamente com organizações como a Environmental Data & Governance Initiative para a proteção dos dados ambientais de vários sites e bases de dados considerados sob possível “ameaça” pela administração de Trump, arquivando-os em servidores localizados na Europa e no Canadá. Desta forma, defende, toda a informação descarregada estará a salvo uma vez que se encontra fora da jurisdição da justiça norte-americana, permitindo comparar todas as mudanças e alterações a dados climáticos com as suas fontes originais.