A voz do cidadão está viva na Roménia


Vadim Ghirda/AP Photo

Tudo começou na noite do dia 31 de Janeiro de 2016 em Bucareste na Roménia. O governo de Sorin Grindeanu aprovou um decreto que definia o crime de abuso de poder apenas se a soma envolvida na operação fosse superior a 200 mil lei, 44 mil euros, ao câmbio actual.

No dia seguinte, os romenos saíram à rua manifestando-se contra aquilo que diziam ser uma lei que facilitava os abusos de poder e que não punia a corrupção. Cerca de 300 mil cidadãos por todo o país fizeram ouvir a sua voz, mostrando que a vontade e indignação popular ainda conta para alguma coisa em democracia.

Alegadamente, este diploma procurava beneficiar, entre outros políticos romenos, o líder social democrata e actual presidente da câmara de Deputados (Parlamento) Dragnea, que terá lesado o Estado em 24 mil euros.

No dia 4 de Fevereiro, o primeiro-ministro veio a público anunciar a revogação do decreto, justificando a decisão com a vontade de não dividir o país. No dia seguinte, a formalização da abolição foi concretizada, levando o executivo a pensar na desmobilização e pacificação dos manifestantes nos dias seguintes.

Contudo tal não aconteceu. Os protestos não só continuaram como aumentaram de dimensão, segundo alguns órgãos de comunicação local. Dentro do seio parlamentar, a oposição apresentou uma moção de censura ao Governo, que foi prontamente rejeitada face à maioria absoluta dos partidos no governo. O presidente da República optou por uma via de contenção, não convocando eleições antecipadas, porém não deixou de criticar a tomada de posição do executivo. A demissão do ministro da Justiça foi mesmo a última consequência desta tensão entre cidadãos e poder político.

Ninguém pode dizer quando vai acontecer a desmobilização. O povo continua nas ruas e a voz tem-se feito sentir. Desde 1989, com a queda do muro de Berlim que não existiam protestos com esta magnitude na Roménia.