As histórias que nos contam as melhores fotos de 2016

Este é um olhar sobre um World Press Photo sem vencedores nem vencidos.

Todos os anos o mesmo frenesi em torno das fotografias vencedoras do World Press Photo. Por toda a internet, multiplicam-se os artigos, galerias e partilhas a elogiar os brilhantes retratos do ano transacto, a bravura do vencedor ou os sorrisos das crianças em contextos sub-desenvolvidos.

A selecção que visa distinguir trabalhos de jornalismo fotográfico torna-se assim em mais um viral indiferenciado, com a reflexão sobre as histórias escondidas em cada fotograma a ter cada vez menos espaço nos diálogos decorrentes do concurso ou nas legendas das galerias online.

Destaca-se o vencedor, honram-se os lusos e pouco mais nos debruçamos sobre a infinidade de histórias sintetizadas neste momento. Seduzidos pelo simplismo dos rankings ignoramos a narrativa que o World Press Photo nos oferece e replicamos até ao infinito a fotografia vencedora – num ano em que esta é especialmente gráfica e chocante.

Este é um olhar sobre um World Press Photo sem vencedores nem vencidos porque apesar de uma imagem valer mais de mil palavras, para contar a história de um ano são precisas muitas mais.

Grandes Crises

É certo que o tema que se segue não é novidade – mas, ao contrário do habitual, é esse o motivo porque merece a nossa crescente atenção e solidariedade. 2016 foi mais um ano marcado por um fluxo de refugiados superior ao normal, com centenas de milhares de pessoas fugidas essencialmente de países africanos e do médio oriente – países praticamente dominados por conflitos armados ou facções fundamentalistas. É em reflexo dessa realidade que o World Press Photo traz até nós uma selecção de histórias como as que narramos em seguida.

Foi na fronteira entre a Grécia e a Macedónia a 14 de Março de 2016 que o fotojornalista Vadim Ghirda registou este momento que traduz bem as dificuldades e a aflição das pessoas mas também o essencial espírito de entre-ajuda entre quem caminha por um objectivo comum.
Para além do que os leva à procura de asilo, os refugiados enfrentam inúmeros perigos nas suas deslocações, sendo vítimas da inércia ou até a repulsa de alguns Estados e instituições, e do aproveitamento colateral da sua condição, levado a cabo por exemplo por traficantes ilegais.

Vadim Ghirda – The Associated Press
Vadim Ghirda – The Associated Press

Na foto em baixo, duas refugiadas nigerianas choram num centro de detenção em Surman, na Líbia, a 17 de Agosto de 2016. O centro abriga centenas de mulheres que fogem dos seus países em condições precárias.

É mais uma imagem marcante no mesmo comprimento de onda e com uma proveniência semelhante. Embora esta com um registo diferente, acentuado pelas expressões de medo das duas mulheres. Diariamente são reportados maus tratos, espancamentos, sub-nutrição e até violência sexual em centros semelhantes a este – uma revelação cabal do que podem ser os perigos desta jornada.

Daniel Etter – Der Spiegel
Daniel Etter – Der Spiegel

Para além das imagens de quem foge para uma vida melhor, chegam-nos também fotos dos locais em permanente e duradouro conflicto.
É o caso da fotografia de Paula Bronstein, tirada a 29 de Março de 2016 num hospital em Cabul, no Afeganistão, na sequência de um dos muitos bombardeamentos a que esta cidade foi praticamente obrigada a habituar-se. O conflicto no Afeganistão começou há mais de 15 anos e agravou-se nos últimos dois com a chegada do Daesh.

Paula Bronstein – Time Lightbox Pulitzer Center For Crisis Reporting
Paula Bronstein – Time Lightbox Pulitzer Center For Crisis Reporting

Outro desses retratos da transversalidade do sofrimento às populações locais, foi feito em Mosul pelo fotógrafo Laurent Van der Stockt. Registo feito num momento em que as forças especiais iraquianas revistavam casas de populares a Este de Mosul, procurando por elementos do Daesh escondidos. A infiltração de terroristas entre as populações tem sido uma realidade em várias cidades onde se combate o Daesh, uma vez que o grupo recorre a este tipo de táctica para se escudar contra eventuais ataques massivos.

Laurent Van der Stockt – Getty Reportage for Le Monde
Laurent Van der Stockt – Getty Reportage for Le Monde

O Estado do Mundo

Com uma selecção feita a partir de trabalhos de todo o mundo, o World Press Photo é também um bom sensor para percebermos o estado de alguns Estados do mundo.

O problema racial dos Estados Unidos parece não ter fim à vista. No último ano da administração Obama, intensificaram-se os confrontos entre comunidades e polícia em vários Estados, com os cidadãos a exigir acções proporcionais por parte das autoridades, que acusam de abuso do uso da violência e discriminação racial.

Esta fotografia mostra Ieshia Evans, uma activista de 27 anos, num acto de rendição pacífica perante um batalhão de polícias de choque, uma imagem que sintetiza o equilíbrio de forças e a esperança da enorme comunidade afro-americana, que no final do ano viu tudo complicar-se outra vez com a subida do “Republicano” Donald Trump ao poder.

Jonathan Bachman – Thomson Reuters
Jonathan Bachman – Thomson Reuters

Para além da questão racial, 2016 nos Estados foi também marcado pelo oleoduto de Dakota (“Dakota Pipeline”). O assunto não teve grande eco mediático internacional, mas dominou parte da agenda nas terras do tio Sam.

A construção de um oleoduto na Dakota do Norte, que implicaria atravessar zonas sensíveis como o Rio Missouri ou terras sagradas de tribos indígenas, foi a base de toda a discórdia. O protesto surpreendeu pela adesão, com pessoas de todo o país a juntarem-se aos manifestantes indígenas e a darem, quase literalmente, o corpo às balas. No início de 2017, apesar das manifestações no ano anterior, a construção do oleoduto voltou a ter luz verde, desta vez pela mão de Trump.

Amber Bracken
Amber Bracken
Amber Bracken
Amber Bracken

No Brasil continuaram a surgir marcas do vírus Zika, e é sobre essas consequências que se debruça a história fotográfica de Lalo de Almeida para a Folha de São Paulo.

Na imagem em baixo, uma oftalmologista examina Maria Alice, uma bebé de 11 meses que nasceu com microcefalia por causa do vírus Zika, na Fundação Altino Ventura, no Recife, Brasil. A mãe, Helen Naiara de 22 anos, observa atentamente.

De acordo com a médica, 40% das crianças nascidas com microcefalia têm lesões oculares, principalmente na retina e nervo óptico; e 6% têm deficiências auditivas.

Lalo de Almeida – Folha de São Paulo
Lalo de Almeida – Folha de São Paulo

Numa outra toada mas ainda no continente americano, Cuba teve um final de ano marcante, que podemos dividir ser em dois capítulos.

Em finais de Outubro, a ONU aprovou pela 25ª vez uma resolução para o levantamento do embargo a Cuba, com a surpreendente abstenção dos Estados Unidos – sinal positivo que pode indiciar uma processo de maior abertura deste pequeno país ao mundo e vice-versa. 

No mês seguinte, faleceu Fidel de Castro, o icónico e polarizante líder cubano. Um acontecimento histórico que deu lugar às mais diversas reacções: dos que garantem que vão recordar Fidel pelo que deu a Cuba e à America Latina, aos que festejaram a morte como a queda de um líder totalitarista que aprisionou politicamente o país.

Tomas Munita – The New York Times
Tomas Munita – The New York Times

Do outro lado do mundo, e sem que grande coisa o fizesse prever, emergiu um líder que já “mostrou” ao que vem. Trata-se de Rodrigo Duterte, Presidente filipino que desde 30 de Junho, data em que foi eleito, praticamente não saiu das manchetes internacionais. Seja por afirmações polémicas, suspeitas de corrupção ou pela sua política desumana de combate às drogas. Duterte já chegou ao cumulo de confessar ter morto suspeitos da prática de crimes como forma de dar o exemplo aos polícias locais.

A fotografia de Danie Berehuak é um retrato das condições em que os detidos são mantidos na capital, Manila.

Daniel Berehulak – The New York Times
Daniel Berehulak – The New York Times

Já no continente europeu, continua o conflicto no Leste da Ucrânia em que pessoas comuns se tornaram vítimas da hostilidade entre rebeldes separatistas pró-Russia e oficiais militares ucranianos. Um conflito que já dura desde 2014 na região de Donbass, onde fica a conhecida cidade de Donetsk. As imagens de são de destruição e os testemunhos são de pessoas que . Passaram pela morte de familiares e amigos e viram as suas casas serem destruídas.

Valery Melnikov, Rossiya Segodnya – Black days of Ucraine
Valery Melnikov, Rossiya Segodnya – Black days of Ucraine

Novas Perspectivas

Esta é uma selecção variada e permite renovar perspectivas sobre determinados contextos locais. A primeira imagem é mais uma do Brasil – um país que atravessa um momento tumultuoso a nível político, que se tem reflectido na sociedade.

Com Edilane e três dos seus oito filhos (o oitavo vinha a caminho na altura em que a fotografia foi tirada), deitados na sua cama-colchão no chão, no Copacabana Palace, um complexo de 6 prédios de betão num bairro no Rio de Janeiro. Esta é uma fotografia bem diferente das que habitualmente vemos da Cidade Maravilhosa. 

Peter Bauza
Peter Bauza

Na imagem em baixo, temos quatro alunas durante um exercício de 30 minutos numa aula de ginástica em Xuzhou, na China. A foto serve quase de metáfora da repressão que se continua a viver naquele país. A prática de treinos intensivos, alguns dos quais no limiar da tortura, é um tema recorrente no desporto chinês e merece a atenção da comunidade internacional.

Tiejun Wang
Tiejun Wang

Continuando na China, no comboio de Kashgar vemos um lado menos conhecido do país pela lente de Matthieu Paley. Na sua foto, uma mulher uigur levar dinheiro nas meias é uma prática comum. A etnia Uigur é uma minoria chinesa que vive principalmente no oeste; as mulheres uigures, apesar de muçulmanas, não costumam aderir ao código de vestuário conservador feminino dos países vizinhos, como retrata a imagem.

O comboio de Kashgar faz uma das viagens mais longas do mundo – com 4,983 quilómetros – e atravessa a China de Hong Kong para Urumqi. Pela sua dimensão, esta linha ferroviária atravessa “Chinas diferentes” – desde a China da selva verdejante e as estepes áridas, até ao deserto de Taklamakan, o segundo maior deserto de areia movediça do mundo, na zona sul da Rota da Seda.

Matthieu Paley – National Geographic Magazine
Matthieu Paley – National Geographic Magazine

Outras das histórias singulares deste World Press Photo vem do Irão, um país envolto em algum mistério internacional e do qual raramente nos chegam registos tão fidedignos.

O primeiro é o de Siavash, um tatuador. Apesar das tatuagens não serem ilegais, a lei islâmica costuma denunciar muitas vezes quem as tem. Esta é uma imagem de uma série de Hossein Fatemi em que o fotografo pretende mostrar a dicotomia entre a iranian way of life difundida pelas autoridades nacionais e a vida real dentro de 4 paredes.

Hossein Fatemi – Panos Pictures
Hossein Fatemi – Panos Pictures

Em mais um exemplo dessa série, duas mulheres dançam numa festa. Apesar de ser proibido no Irão que mulheres e homens sem relação socializem, muitas pessoas ignoram essas restrições na privacidade das suas casas.

Hossein Fatemi – Panos Pictures
Hossein Fatemi – Panos Pictures

Uma outra fotografia da China, desta vez mais divertida e curiosa. Na reserva florestal de Wolong, os tratadores de pandas Ma Li e Liu Xiaoqiang ouvem os sinais de rádio emitidos pela coleira de um panda que está a ser treinado para ser libertado para a Natureza.

Ami Vitale
Ami Vitale

A penúltima foto é de Usain Bolt e não podia ficar de fora. O jamaicano que é considerado o homem mais rápido de sempre venceu a prova de 100 metros nos Jogos Olímpicos no Rio, com uma vantagem tal que lhe permitiu esboçar um sorriso para as câmaras dos jornalistas que acompanhavam a prova.

Kai Oliver Pfaffenbach – Thomson Reuters
Kai Oliver Pfaffenbach – Thomson Reuters

A Fotografia do Ano

Foi uma das fotografias mais marcantes de 2016 e, sem dúvida nenhuma, a imagem mais mediatizada por entre as distinguidas, por ter sido a vencedora do Word Press Photo 2017. Não sendo uma escolha consensual ou um registo especialmente sumarento, deve ainda assim ser um pretexto para repensar e definir alguns limites e critérios da sociedade, como incita Stuart Franklin, presidente do júri nesta edição do Word Press Photo, que assumiu publicamente ter votado contra a distinção de uma fotografia de um assassinato.

É a terceira vez na história que uma foto de um assassinato encabeça a selecção do World Press Photo, com o caso mais famoso a remontar ao conflicto no Vietmane – referimo-nos a uma fotografia de 1968 de Eddie Adams.

Num ano fortemente marcado pela tríade de tensões entre EUA, Rússia e Turquia, acentuadas pelas diferentes perspectivas de acção na guerra síria, e também por enormes tumultos políticos envolvendo Erdogan e companhia, Mevlüt Mert Altıntaş, um polícia fora de serviço de apenas 22 anos, assassinou o embaixador da Rússia na Turquia, Andrey Karlov, na inauguração de uma exposição em Ancara. Aconteceu dia 19 de Dezembro de 2016. O polícia acabou por ser abatido a tiro pela polícia, o que levou com que o crime nunca chegasse a ser desvendado.

Burhan Ozbilici – The Associated Press
Burhan Ozbilici – The Associated Press
Burhan Ozbilici – The Associated Press
Burhan Ozbilici – The Associated Press

[Rita Pinto colaborou neste artigo.]