Da pornografia à pedagogia: Pornhub estreia plataforma de educação sexual

O site de pornografia lançou um portal com esclarecimentos, informações e conselhos sobre sexualidade, saúde sexual e relações.

O Pornhub é um dos sites mais visitados do mundo. Velha companhia para algumas noites solitárias, gratuito e sempre disponível, é um dos sites pornográficos mais populares do mundo e foi também o primeiro ponto de contacto com o sexo para milhares de adolescentes. A interação com a pornografia não é certamente a lição mais pedagógica, mas a ausência de formação escolar e a geral retração social para desconstruir a matéria no tempo certo (e da maneira certa), tornaram, este e outros sites semelhantes, nos “professores” de “educação sexual” mais comuns da geração digital.

Ciente desse estatuto, a empresa por detrás do Pornhub estreou recentemente um portal dedicado às questões mais sérias do sexo. Aqui vão apenas constar esclarecimentos, “informações e conselhos sobre sexualidade, saúde sexual e relações”. Os conteúdos serão redigidos por médicos, terapeutas e sexólogos. E tal como o site principal, o Pornhub Sexual Wellness Center também será gratuito para todos os utilizadores.

A integração deste novo espaço é importante, mas como têm apontado várias vozes, não deixa de ser irónico. O contraste, afinal, é patente: a mesma marca que faz negócio com vídeos de sexo desprotegido e que erotiza práticas como o abuso sexual ou a ausência de consenso numa relação sexual, quer agora ensinar que estes comportamentos são errados. Que se deve utilizar preservativo.

Ao Quartz, Peggy Orenstein, autora da obra Girls & Sex, sublinhou o contraste. “A indústria pornográfica representa a mercantilização do sexo. O objetivo deles é vender-te sexo, fazer-te vir rápido […] e fazer dinheiro com isso. Tudo o resto é uma mentira”, disse a norte-americana em entrevista.

Por outro lado, o Pornhub parece estar decidido a fazer a diferença com esta iniciativa ao apostar em profissionais credenciados para criar conteúdos para o seu portal. Laurie Betito, psicóloga clínica com mais de 30 anos de experiência no ramo, é uma delas.

As áreas que o site se compromete a cobrir são vastas e parecem fugir à abordagem tipicamente perpetrada nas escolas. Beneficiando neste caso da vantagem de não ter de lidar com o pudor e o constrangimento da comunicação direta entre um desconhecido e uma plateia de alunos, tanto quando se fala de contraceptivos, de disfunção sexual, das posições mais adequadas a cada orientação ou dos mitos que envolvem a relação sexual durante a menstruação. Quando a audiência do portal é 60% composta por internautas com idades compreendidas entre o 18 e os 34 anos de idade, fontes de informação despudoradas como esta, tornam-se essenciais para formar comportamentos.

Nos EUA a importância é ainda maior. Em 2014, 76% das escolas secundárias ensinavam aos estudantes que a abstinência é o método contraceptivo mais eficaz. Sendo que 88% permitiu que os pais excluíssem os seus filhos das aulas de educação sexual. Em Portugal, embora a educação sexual tenha “caráter obrigatório”, destinando-se a “todos os alunos que frequentam estabelecimentos de ensino básico e secundário”, de acordo com a DGE, não se pode ignorar o facto de que o Pornhub – que tem no nosso país um público composto por 55% de visitantes entre os 18 e os 34 anos de idade – promovem, na maioria das vezes, mensagens contrárias às propagadas em aula. Neste contexto, é assinalável o reconhecimento do que é correto na prática real do ato.

Por outro lado, como destaca o Quartz, apesar de importante “e muito necessária” à indústria pornográfica, esta abordagem destoa da atividade principal do próprio Pornhub que, desde 2007, tem vulgarizado práticas como o incesto e a submissão.

Ainda desprovido de muitos conteúdos, o Sexual Wellness Center é, por enquanto, uma ambição válida e valiosa que pode abrir o jogo a iniciativas semelhantes. Para a concorrência, ainda não tem argumentos.