Épico do início ao fim: 4 horas de concerto de Pás de Problème

O grupo da Real Padráda apresentou o seu novo disco no início de Fevereiro no Titanic Sur Mer, em Lisboa.

Pelas 21h30, ainda estava a divagar pelo Cais do Sodré quando recebi a notícia de que todos os bilhetes tinham sido vendidos – o Titanic em poucas horas estaria a rebentar pelas costuras com um concerto de 4 horas dos Pás de Problème. Como sou um espectador pacto e que gosta do seu pequeno espaço no fundo da sala, temi – em pequena escala – pela minha existência durante o concerto. Medo premeditado, que viria a ser completamente atenuado assim que soaram os instrumentos.

Dois dias antes, tinha estado com os Pás de Problème a entrevistá-los, juntamente com a Teresa, a fotógrafa destes belos retratos que acompanham esta dissertação. Nessa entrevista, o grupo disse-me que o repertório do concerto teria um total de 41 músicas. Não consegui conceber como é que eles planeavam fazer um espectáculo desta dimensão.

Os Pás são 7 músicos mais os fãs, o que faz deles um grupo que domina qualquer palco que pise. Movem muita gente e a crescente popularidade só tem vindo a confirmar isso. O contacto que o Gil Dionísio (voz, violino e pedais macabros) tem com os fãs quando abraça o microfone transpira carisma e choca mentes. Tem em si a expressão de um músico de intervenção, ainda que procure sempre fugir de rótulos, sempre com um discurso a evocar a reacção. Há até um trio amoroso entre as palavras do Gil, o público atento e a 3ª Lei de Newton que dita “a toda acção há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos”. As palavras saem, os corpos reagem, a música explode.

“I Explode You Make Boom Boom” é a prova sonora destas linhas que vos escrevo. O single que antecipou “Silence is Gold” teve direito a um vídeo sui generis e fez jus ao nome do mesmo – os Pás explodem, o povo faz boom boom.

A expressão intervencionista dos Pás estabelece a ponte entre o artista e o espectador, incorporando momentos caricatos, como a subida da Sara Ribeiro, com um texto para Trump que teve um desfecho corajoso. A vocalista e front-woman dos Los Negros desafiou o público a exercer o direito de expor o tronco – um exercício de liberdade, que a própria pôs em prática. A persuasão foi tão efectiva que se perdeu a conta da quantidade de pessoas que aderiu a esta forma de calor humano mais humana.

A indefinição da música dos Pás de Problème parece adoptar sonoridades que, aparentemente, caminham de mãos dadas sobre o mesmo género, mas com alguma atenção, e o álbum demonstra-o – nele podemos identificar diferentes estilo, de instrumento para instrumento. Os sopros podem estar a atirar mais para o Klezma, mas o baixo puxa de linhas mais groovadas, já noutro sentido, temos a guitarra num mood mais progressivo e a bateria a trovejar num ritmo definido e com poucas variações. Este é um dos elementos do que define Pás e que permitiu que o Titanic Sur Mer fosse a casa de mais uma noite épica para contar aos netos ainda que, talvez seja necessário omitir a parte da nudez.

A noite ainda foi premiada com a participação de ilustres membros, com interlúdios tocados em cordas, pelas mãos do Miguel Kopke, ocupando alguns intervalos dos Pás. Paulo Lourenço, baixista dos Compotas, tocou sob o pseudónimo de Acácio, foi este o nome que deu quando subiu ao palco e lhe questionaram o mesmo (fingiu ser o Acácio Barbosa, dedilhador de guitarra portuguesa na Criatura e nos Port do Soul). Edgar Valente, que entrevistámos em 2016, também foi convidado pelo grupo para interpretar o tema Menina Diamante.

Fotos de: Teresa Lopes Silva/Shifter