JP Simões apresenta-se como Bloom: “Não sei bem o que lhe chamar, e estou muito satisfeito com isso”

Músico português apresenta oficialmente novo projecto sob o nome Bloom a 9 de Fevereiro no Lux Frágil. O seu primeiro disco já está disponível online.

Bloom é o nome da mais recente aventura musical do cantor e compositor português JP Simões, e Tremble like a Flower é o seu primeiro disco. Numa refrescante e luminosa viagem musical, o músico português desenha paisagens sonoras com uma postura íntima e de escrita confessional, manifestamente distinta do seu reportório a solo até então. Em contagem decrescente para o concerto de apresentação oficial no dia 9 de Fevereiro no Lux Frágil, o Shifter esteve à conversa com Bloom, que diz estar encantando com o seu novo projecto.

Tremble like a Flower está já disponível no Bandcamp para quem quiser ouvir e comprar, estando ainda por definir a data do lançamento físico do disco.

Tremble Like A Flower foi um projecto que desenvolveste ao longo de 3 anos pelo meio de várias viagens, fala-me um pouco sobre o processo criativo para a concepção do disco.

Eu acho que este trabalho nasceu quando decidi que queria fazer uma abordagem totalmente diferente ao instrumento guitarra. Dediquei-me mais a géneros que não ouvia com tanta atenção, como o blues e o folk, aos quais acabei por juntar as minhas idiossincrasias com a guitarra e com a voz. Creio que acabou por resultar em algo muito distinto, tirando dois temas que estão se calhar um pouco mais pop. Tirando isso, não sei bem o que lhe chamar, e estou muito satisfeito com isso, os outros também que lhe chamem qualquer coisa (risos). No fundo fui criando as canções aos poucos da maneira mais despida, franca e descritiva possível, e a grande diferença deste disco é que fui tentando conceber paisagens para depois estar lá dentro como parte delas, como que alguém a declamar alguma coisa no meio de uma floresta.

Disseste recentemente numa entrevista que sentias que o nome de JP Simões já estava algo desgastado, e que este disco representada uma vontade encarnada de mudar de perspectiva. Quais dirias que são as maiores diferenças entre o teu trabalho enquanto JP Simões e esta nova abordagem enquanto Bloom?

As diferenças são muitas, o meu trabalho a solo nos últimos anos foi muito colado a referências étnicas muito precisas, sul-americanas e afins, e toda a minha existência enquanto performer sempre foi um bocadinho melancólica. Nesses dois aspectos, a mudança é absoluta, não só porque saio das minhas habituais referências como também porque estou mais interessado na música. Sempre fui um bocado mais um viajante ocasional da música e agora estou mais interessado nela, fazer aquela “second-life” enquanto artista. Há uma postura diferente no que diz respeito à forma de tocar, que resulta de anos de experiência em que creio que evolui bastante, e creio que este é um disco em que as extensões são mais apaziguadas. Aquela dicotomia da melancolia sem apelo e do desejo tardio e desbragado, característica do heterónimo JP Simões, ficou essencialmente para trás, o que me levou a não querer lançar este álbum sob esse nome.

Ainda na mesma entrevista, referiste que a condição do envelhecimento é algo bastante relevante em Tremble Like A Flower. Como é que lidas com esta questão do envelhecer enquanto artista, e de que forma é que está presente neste trabalho?

O tempo é aquela coisa que tem tanto de generoso de fatídico. O que me instigou sempre à mudança, não só agora como noutras alturas da minha vida, foi que sempre senti bastante uma espécie de urgência do tempo. E estranhamente, agora que fiquei um pouco mais maduro, em que cheguei a pique de quase desfasamento mental e emocional com tanta coisa que me aconteceu, tudo se tornou um pouco menos urgente. Isso permitiu-me empregar essa outra voz, menos urgente e mais serena, no fabrico deste trabalho.

Depois de quase duas décadas a compor e a cantar principalmente em português, houve alguma razão em particular que te levasse a cantar em inglês? Quais os desafios de cantar noutra língua?

Há duas coisas aqui muito importantes. A primeira é que o inglês, enquanto língua de expressão e música, sempre foi bastante mais a minha língua-mãe do que o português. Na minha infância e adolescência, a música que eu ouvia era praticamente 90% em inglês; a escrever canções era também quase sempre em inglês. Nem fazia sentido nessa altura escrever noutra língua, só o inglês me dava aquela sensação de evasão e alienação que qualquer adolescente precisa, de romper com o orgulho insatisfeito e as amarras patriarcais. Portanto, escrever em inglês para mim não é assim uma grande alteração. Só depois dos Belle Chase Hotel, que foram sempre em inglês, é que comecei a escrever em português, quando quis fazer uma ópera e não fazia sentido criar uma metáfora do meu país noutra língua (risos). Acho que foram sempre opções, e agora o que aconteceu foi exatamente o contrário. Senti que houve uma certa vontade de alienação, parecida que aquilo espírito de adolescência, que voltou. Nunca me esforcei muito para fazer nada por encomenda, e não me parece que vá começar a fazer agora, sinto-me com vontade de experimentar outras coisas, de devolver alguma coisa à música. Neste disco senti-me muito mais confortável a escrever em inglês, até porque algum afastamento que eu tenha com a língua pode ser visto como uma vantagem porque ela pode ser bastante menos intrusiva, em que se ouve mais a música. Não estar lá como que no topo de um edifício a mandar uns bitaites mas num ambiente criado pela música, em que me posso refugiar nela.

Uma das músicas do álbum é intitulada “Jan Palach”, nome de um estudante checo que se imolou em público como símbolo de protesto durante a Primavera de Praga. Dirias que este teu disco tem alguma vertente de crítica política ou social?

Eu acho que tudo o que se fala pode ter a sua vertente política ou social, dependendo sempre dos contextos, mas nunca me preocupei muito neste disco com o peso da palavra “político”, “protesto” ou de “crítica”. Importei-me mais com a natureza da música, e com o pesar mais simples das coisas que eu queria dizer, falar de sentimentos e emoções como se estivesse a pintar quadros ou a explorar pequenas nuances de cor. Essa canção em particular surgiu depois de uma visita ao Museu do Comunismo, em Praga. Já conhecia a história do Jan Palach, mas quando lá estive tocou-me mais, e apesar de essa canção ter o pretexto do estudante emulado pelo fogo, de uma certa intransigência relativamente à ocupação em que se mostra essa ideia de reação e repúdio, o tema transformou-se noutra coisa creio que mais ampla do que isso. Fala da energia imensa da juventude de querer mudar radicalmente as coisas, do espírito de indignação e de comunidade ofendida relativamente a uma série de castrações de liberdade e contextos desonestos e imorais que a sociedade nos está sempre a oferecer. O Jan Palach aparece um bocado como tudo isso levado ao exagero, desse fulgor que repousa mais na juventude de chegar ao ponto de fazer sacrifícios pessoais pela mudança e que se vai perdendo com a idade à medida que as pessoas se vão conformando e caindo nas armadilhas do seu próprio desespero.

Apresentaste pela primeira vez teu novo projeto no final do verão passado, no Festival Marés de Agosto nos Açores, tendo já dado mais alguns concertos desde então. Como é que tem sido a receção por parte do público a esta tua nova aventura musical?

A reação tem sido muito boa e tem sido crescente. Comecei este trabalho totalmente por minha conta e nunca tive uma preocupação de autopromoção excessiva ou de exposição por redes sociais e por aí, não uso isso dessa forma. O que acontece é que o disco apareceu cheio de luz e de mudança mas com um aspecto muito lo-fi, sem grande promoção organizada no início. Agora é que estou a trabalhar com uma equipa e acho que as coisas estão a crescer e a ganhar alguma solidez. Muito pessoalmente, acho que este disco é o começo de uma outra fase na minha carreira que espero que seja muito empolgante em termos de criação musical.

Durante muitos anos foste uma figura de peso na divulgação da música portuguesa, quer através da criação de programas como o KM Zero na RTP mas também ao participares em variadíssimas colaborações com vários músicos e referências de índole nacional. Como é que vês o estado actual da música portuguesa?

Palpitante, diria. Há muita coisa a acontecer, trata-se de um momento produtivo muito alto que acho que tem muito a ver com uma série factores exteriores. Cada vez mais as novas gerações têm formas de criar como bem quiserem, de editar e expor o seu trabalho de forma mais rápida, de aproveitar várias parcerias micro-culturais ou associações para poderem tocar ao vivo e de repente surge um boom que é muito caracterizado por isso. Na nossa história portuguesa sempre tivemos uma certa tendência a ficarmos satisfeitos quando há um certo aval do exterior, e acho que este interesse todo pelo nosso país está a tornar as pessoas um bocado mais livres criativamente, e isso também se nota um bocado na música. No entanto, por muitas coisas boas que vão acontecendo, creio que o indie se transformou não numa postura relativamente ao mainstream mas tornou-se ela própria uma categoria muito por si, e há muitas coisas que eu sinto que fazem parte mas que ao mesmo tempo se parecem todas umas com as outras. No pós-25 de Abril, os críticos muitas vezes queixavam-se de que não havia meios, não havia partilha, não havia evolução e acho que agora estão reunidas as condições para haver a tal evolução, porque há uma inveja saudável entre bandas e novos projetos, de se pesquisarem e de ser o mais hype possível, e acho que no fundo essa competição pode trazer muitas coisas boas para a música portuguesa.

Para terminar, e numa nota mais leve, se tivesses de aconselhar alguma refeição e uma bebida para acompanhar com o Tremble Like A Flower, o que escolhias?

Acompanhava com um bloody mary e com um pratinho de espargos verdes cozidos com uma pitada de sal (risos).

Fotos de: Mariana Valle Lima/Shifter