Óscares 2017: os nossos palpites

Escolhemos os nossos favoritos e os prováveis vencedores.

Vêm aí os Óscares. Filmes nomeados saem nos cinemas em catadupa. Pessoas acorrem às salas para descobrir qual a sua película favorita. Saem artigos, resumos, notícias e análises sobre os nomeados. Fazem-se os palpites. Na segunda-feira de manhã o café não esconde o sono depois de uma madrugada de cerimónia.

Esta rotina não é estranha a alguém que costuma acompanhar o evento em que Hollywood premeia a Sétima Arte e os seus protagonistas. É importante referir que nem sempre o que é distinguido nos Óscares é necessariamente o melhor que foi feito no ano passado. Como em qualquer indústria, o lobby fala mais alto, há parâmetros a cumprir, pessoas a quem agradar, filhos e enteados e eternos mal amados.

A 89ª cerimónia dos Óscares realiza-se na madrugada de segunda-feira. Depois de Chris Rock, é a vez de Jimmy Kimmel comandar as operações numa noite que promete controvérsia, humor e muitos vestidos para avaliação. A julgar pelo clima que se fez sentir nos SAG Awards e os Globos de Ouro no mês de Janeiro, esta edição dos Óscares terá com toda a certeza uma forte onda de manifestações políticas contra as acções de Donald Trump por parte de quem compõe a indústria.

O Shifter não podia fazer o Totobola à segunda-feira, por isso trazemos-te os prognósticos antes do final do jogo. A seguir podes ler os comentários da nossa equipa sobre alguns dos principais filmes nomeados. Como qualquer palpite, a nossa opinião é subjectiva e passível de discórdia. Apesar dos nossos favoritos estarem explícitos com alguma transparência, este artigo é mais um exercício de adivinhação, onde tentamos prever os distinguidos, independentemente de concordarmos ou não com os parâmetros da Academia. Aqui vai:

La La Land

É a grande coqueluche da indústria este ano. A avaliar pelo que já ganhou até aqui, é de prever que seja o grande vencedor da noite, mas mesmo que os Óscares acabem por ser a excepção no currículo vencedor de La La Land, o prémio de maior gerador de discórdia já ninguém lhe tira. A frase “Eu nem gosto de musicais mas…” dá início a muitas conversas sobre o filme de Damien Chazelle, mas nem quanto ao facto de La La Land ser ou não um musical há consensualidade. A história é simples, um pianista de Jazz, que vive obcecado com a ideia de ter o seu próprio bar e frustrado por ter que entrar no mundo Pop para ganhar dinheiro, apaixona-se por uma sonhadora aspirante a actriz em Los Angeles.

Há quem não suporte a prestação sofrível dos protagonistas e até tenha saído ao fim de 5 minutos de filme, motivado por uma primeira cena digna dos piores musicais da Broadway. Há quem seja indiferente e nem tenha vontade de o ver depois de tanto falatório opinativo. Há quem ache que sair da sala de cinema com um sorriso na cara se sobrepõe a qualquer crítica, e considere que todo o hate pretencioso que anda por aí já é mais moda que outra coisa. Isso, aliado às características técnicas com o dedo de Chazelle, e a dois grandes nomes do cinema recente como protagonistas, tornaram La La Land no grande vencedor desta temporada de cinema, até agora. Feitas as contas, chega aos Óscares como o filme-tipo da Academia. É um dos favoritos a melhor filme, Emma Stone é uma provável vencedora do galardão de melhor actriz; Ryan Gosling vencedor já seria uma surpresa, Damien Chazelle como melhor realizador não tanto. Deve ganhar algumas categorias técnicas, principalmente relacionadas com a banda sonora.

Moonlight

O enredo é um óptimo ponto de partida, mas o filme parece que não concretiza. Fica a meio, falta qualquer coisa. Com temas tão delicados como o racismo, a toxicodependência e a homossexualidade, Moonlight tinha tudo para ter uma história desafiante. Sendo um filme independente, que nada “deve” à Academia – e que mesmo assim foca os assuntos polémicos que costumam fazer as maravilhas de Hollywood – podia tê-los explorado mais a fundo. Moonlight é um filme que podia ter sido pesado (com tudo o bom e o mau que isso teria) mas é só morno.

Narra a vida de um jovem negro desde a infância até à idade adulta, enquanto luta para encontrar seu lugar no mundo num bairro duro de Miami. Apesar de tudo, tem cenas muito bonitas, que permitem uma reflexão consciente sobre tolerância e respeito pelo outro. Enquanto criança embalado na água, o primeiro beijo enquanto adolescente, a introspeção enquanto adulto. É visualmente muito bonito e dá-nos algumas pérolas como: “Podes ser gay, mas nunca deixes que te chamem paneleiro.”

As anteriores entregas de prémios levam-nos a crer que Mahershala Ali pode vir a ser distinguido como Melhor Actor Secundário e muita imprensa especializada fala na probabilidade de Brian Jenkins surpreender com o Óscar de Melhor Realizador. Seja como for, Moonlight alimenta expectativas que não cumpre na totalidade e a certa altura torna-se tão aborrecido que nos deixa a pensar que podia ter menos 1 hora de duração.

Captain Fantastic

Se nos pedissem para resumir Captain Fantastic numa palavra, amor seria o vocábulo. E não, não se trata de um filme romântico. O pai (Viggo Mortensen) vive com os seis filhos no meio da floresta e diariamente os ensina a tornarem-se homens e mulheres preparados para a sociedade. O problema maior está – precisamente – na sociedade. O choque de realidades acontece quando a bolha de idealismo dá lugar ao drama familiar. Na situação extrema, prevalece o amor de pai para filhos e a correspondência deste.

Seria inesperada a vitória de Viggo Mortensen como melhor actor principal, todavia a nomeação faz jus a um filme que desenlaça numa versão sublime de “Sweet Child of Mine” dos Guns n Roses.

Manchester By The Sea

Casey Afleck igual a si próprio. O que é que isto significa? Fantástico? Com a expressão do costume? Ainda não decidimos bem, mas concordamos que a sua interpretação é o principal foco do filme, que consome toda a nossa atenção, a bem ou a mal. O filme não é incrível mas tem um protagonista muito difícil de representar, que não podia ter sido feito por qualquer actor. Fica a dúvida se se tratou de uma interpretação exímia de Afleck ou se aconteceu só o casting ter sido tão bem feito que a personalidade e a expressão (sempre a mesma) do actor são coincidentemente iguais às da personagem.

Manchester By The Sea é um filme de lágrima fácil, graças a todo o tom que o pinta, das imagens à história. A personagem de Affleck é obrigada a cuidar do seu sobrinho adolescente depois do irmão morrer. Apesar das polémicas que envolvem o seu passado, o actor é o principal rival de Denzel Washington na corrida a melhor actor. Michelle Williams – que representa a sua ex-mulher – está óptima e é pena que o papel não tenha mais visibilidade. Destaque ainda para Lucas Hedges, o jovem que faz de sobrinho de Affleck, um adolescente surpreendentemente bem resolvido com a morte do pai e a adolescência no geral.

Arrival

“Pronto. Mais um filme com naves espaciais de extraterrestres”. Hum… Nop. Não mesmo. Se também recebes um Sci-Fi sobre relações interespécies com um pé atrás, este Arrival pode perfeitamente ser uma surpresa capaz de te intrigar mais do que poderias imaginar. Denis Villeneuve passou do (também) aclamado Sicario para um universo de ficção científica que nos levanta questões bem mais interessantes do que à partida seria expectável. O ponto de partida do filme é precisamente o mote para que todas as questões que se levantam a partir daí sejam muito menos superficiais do que o normal. 12 naves chegam à Terra e não fazem absolutamente nada. Zero. Nicles. Nem tiros, nem bombas, nem lasers. Nada. Pairam alguns metros acima do nível da superfície e ali ficam. Quando finalmente acontece algum tipo de contacto com as naves, a linguista Louise Banks (Amy Adams), juntamente com o cientista Ian Donnelly (Jeremy Renner), é desafiada a comunicar com a espécie alienígena. A partir daqui, somos expostos às questões mais elementares da comunicação e da troca de informação entre espécies sem uma linguagem comum, que naturalmente se transformam em obstáculos à compreensão daquele fenómeno. E logo nós, humanos, que gostamos tão pouco de ficar sem perceber alguma coisa.

Com uma fotografia notável e uma edição de som incrível, a categoria em que o Óscar parece mais possível, é difícil perceber o esquecimento da Academia no que diz respeito à performance de Amy Adams. E, mais uma vez, mesmo que este não seja de todo o teu tipo de filme, acredita que, caso lhe dês uma oportunidade, as baixas expectativas podem transformá-lo na tua mais recente agradável surpresa cinematográfica.

Fences

Denzel Washington no papel principal é sinónimo de expectativa. E parece que mais uma vez a expectativa foi correspondida. Fences é um drama familiar que transporta para a tela os problemas dos anos 50 nos Estados Unidos. Troy (Denzel Washington), um frustrado jogador de Baseball, tem a cabeça envolta em fantasmas reais e coloca vedações aos sonhos do filho. Depois desta premissa, os problemas adensam-se e a firmeza da relação com Rose (Viola Davis) é posta à prova. Fences vem do teatro e é impossível dissociar a expressão no filme. Os diálogos são ricos, os decors são poucos e o drama é vivido numa intensidade íntima do espectador.

A concorrência para melhor actor principal está acesa, mas Denzel Washington seria, provavelmente, o mais merecido vencedor – a capacidade de tornar tão admirável uma personagem odiosa não é tarefa fácil. Quanto a Viola Davis, faltam-nos as palavras. Favorita ao prémio de melhor actriz secundária, ponto final. Nas categorias secundárias, adivinha-se a vitória em matéria de argumento adaptado.

Hell or High Water

A premissa parece simples e revela-se uma homenagem ao legado texano no mundo do cinema. Os irmãos Howard, representados por Ben Foster e Chris Pine, levam a cabo uma série de assaltos enquanto têm ao seu encalço um xerife texano em perto da reforma, interpretado por Jeff Bridges. Porém, os motivos vão bem além do egoísmo e da já ultrapassada ganância, com Toby (Chris Pine) a engendrar um meticuloso plano cujo o intuito de garantir uma vida melhor para os seus filhos. Todavia o verdadeiro inimigo está bem explanado em toda a extensão do filme, sendo ele a crise bancária e as consequentes hipotecas que influenciam negativamente a vida do povo americano.

Não se limita a prometer, cumprindo e de forma convincente. Hell or High Water é uma lufada de ar fresco no género western, prescindindo dos tiroteios sem nexo em prol de um ambiente sólido, complementado com uma banda sonora maioritariamente country, boa caracterização e representação das personagens e um enredo que se desenvolve de forma progressiva, não deixando quaisquer pontas soltas. Sem dúvida alguma que merece as nomeações para melhor filme, melhor guião e melhor montagem. No entanto, a nomeação de melhor actor secundário, pela prestação de Jeff Bridges, soa mais como um prémio de carreira pois no fundo o que vemos é nada mais nada menos do que Jeff no seu habitat natural da representação. Hell or High Water revela-se um tiro certeiro de Taylor Sheridan, que se arrisca seriamente a levar para casa a estatueta de melhor guião.

Hidden Figures

E se vos disséssemos que Hidden Figures ganhou o prémio de Melhor Filme nos Óscares? Que o filme que conta a história de três amigas afro-americanas que colocam a NASA na frente da corrida espacial foi consagrado com o prémio mais importante da Academia? Que a plateia até se levantou para aplaudir Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe? Que as protagonistas dedicaram o galardão a todas as pessoas que lutam diariamente contra a discriminação racial, e que terminaram o discurso dizendo “Nunca desistam”?

Não, não prevemos o futuro, mas todo este cenário pode vir a ser bem possível, uma vez que Hidden Figures é um fortíssimo concorrente de La La Land na corrida a Melhor Filme. É provavelmente o filme mais completo da lista de nomeados, e isso ninguém lhe pode tirar. Tem boas interpretações, uma história sólida e um bom argumento. Vale pelo todo.

Por outro lado, podia muito bem servir de exemplo numa aula de “Como Fazer Filmes Para Os Óscares”, leccionada num qualquer curso de Cinema Pop por esse mundo fora. É um filme para Óscar? É. Isso significa que seja bom? Meh. É competente e ficará muito bem daqui a uns anos numa emissão de Domingo à tarde na tua televisão.

P.S: Depois de Moonlight, Janelle Monáe e Mahershala Ali bisam na presença de filmes nomeados.

Nocturnal Animals

Um encanto para a vista, péssimo quem sofre de coração. Maravilhoso para o cinema.

Nocturnal Animals é um daqueles filmes que te prepara para o que aí vem logo nos primeiros instantes. Vais ficar bem desconfortável na cadeira com as senhoras nuas. Ao mesmo tempo, é só uma questão de tempo até ficares confortável para aquele que é um dos maiores arraiais de porrada emocional de 2016. No fim, vais sentir-te cansado. Acredita, vais mesmo.

Na sua segunda incursão pelo cinema, Tom Ford presenteou-nos com uma belíssima peça de arte visual. Durante quase 2 horas de filme, somos praticamente obrigados a fazer parar o filme de 10 em 10 segundos para admirar o que estamos a ver. Como se isso já não cansasse o suficiente, ainda resolveu juntar à mistura duas histórias que se cruzam entre o real e o fictício, um Jake Gyllenhaal emotivo e intenso e uma Amy Adams fria mas apaixonante.

O único sinal menos vai, claramente, para a Academia, ao nomear Nocturnal Animals apenas para uma (!) categoria: a de melhor actor secundário para Michael Shannon. É pouco para tanto, meus senhores.

Silence

Scorsese conseguiu de novo dividir o mundo do cinema. Apresentou-nos uma obra bastante aclamada pela crítica e pelo público, contudo volta a não convencer a academia. Pode-se alegar que a sua passividade não permite a Silence mais do que a simples nomeação na categoria de melhor cinematografia, mas merece muito mais. A premissa está longe de abordar temas que agradem à academia, tocando apenas na religião, ou melhor, no desacreditar e afastamento desta, e talvez por isso Andrew Garfield, na pele de Sebastião Rodrigues, não conquista a nomeação para melhor actor com este papel, sendo no entanto uma prestação superior à de Hacksaw Ridge, parecendo estar dentro do seu meio de interpretação, com uma maior entrega neste papel que representa.

Peca pela sua dimensão, é um filme longo e apesar de não falhar em momento algum na caracterização das personagens e do envolvente mundo que Scorsese nos apresenta com minucioso detalhe, a forma lenta como o enredo se desenrola sujeita o filme a causar algum desinteresse no espectador. Embora este seja o projecto que Scorsese mais interesse teve em desenvolver, aplicando muito tempo da sua vida no estudo e planeamento do mesmo, os frutos que colhe não chegam para satisfazer a fome de prémios com que Silence se apresenta na academia.

Jackie

“Se Jackie é incomodativo é em grande parte porque ilustra, ainda com alguma simpatia, a falsidade essencial da mitologia Kennedy: patrícios americanos fingindo que são iguais a toda a gente, empenhados no bem comum mas intoxicados com a fama.” A passagem de Pedro Mexia define na perfeição o sentimento com que o espectador fica depois de ver e refletir sobre Jackie.

O filme procura relatar o que aconteceu depois do assassinato de Kennedy em 1963, visto pelos olhos da mulher, mãe e esposa Jacqueline Kennedy. As três facetas do ser humano que aqui mencionamos estão explícitas no filme de uma forma inquietante, graças ao brilhantismo de Natalie Portman. Pablo Larrain, realizou do filme, convida o espectador a entrar na bolha social e psicológica daquela mulher.

O filme vale pela interpretação. Natalie Portman, nomeada para melhor actriz principal, alimenta o filme do início ao fim. Não nos admiraria que levasse o Óscar para casa, apesar das fortes concorrentes que tem a seu lado.

Lobster

Surge surpreendentemente entre as nomeações para melhor argumento original – uma lista completamente dominada pela filmografia americana. Escrito e realizado pela elite do cinema grego Yorgos Lanthimos, com a ajuda do habitual colega Efthymis Filippou, Lobster conta uma história sobre amor num futuro distópico.

Original e audaz, Lobster é uma das bolhas de diferença que insistem em vir à tona em tempo de Óscares. Já não é novidade – estreou em Outubro de 2015 – mas conseguiu resistir na memória dos júris da Academia merecendo esta nomeação. É pouco provável que arrecade a estatueta mas para primeira aventura em língua inglesa, a dupla grega não podia pedir muito mais.

Para a posteridade fica um dos cartazes de cinema mais bonitos dos últimos anos e as memórias de uma extraordinária contracena entre o recuperado Collin Farrell e Angeliki Papoulia, uma habitué nos filmes de Yorgos.

Neste caso, para Lobster, os Óscares funcionam quase à Nobel. Não é o trabalho mais fascinante de Lanthimos mas é sem dúvida um excelente cartão de visita que pode levar mais gente a conhecer o seu trabalho. Merecida nomeação!