Quando o melhor amigo morreu, ela usou inteligência artificial para continuar a falar com ele

Eugenia Kuyda desenvolveu um bot em memória do seu melhor amigo, que tu mesmo podes experimentar.

Black Mirror, 1º episódio da segunda temporada. Depois de o seu parceiro Ash morrer num acidente de carro, Martha fica devastada. Mas, com a ajuda de um novo serviço, consegue recriar o falecido namorado num corpo robótico dotado de inteligência artificial e, por isso, capaz de falar com Martha e de se comportar quase como o verdadeiro Ash.

Esta distopia de Black Mirror pode parecer uma realidade distante, mas a verdade é que já foi mais remota. Eugenia Kuyda conheceu Roman Mazurenko em 2008 em Moscovo, enquanto escrevia um artigo sobre um colectivo criativo fundado por ele e dois amigos. Mazurenko acabou por ser tornar um grande amigo de Kuyda mas, em 2015, morre num acidente de carro. Na altura, os dois já estavam a viver em São Francisco, ambos com uma start-up em mãos – Kuyda co-fundou a Luka, uma jovem empresa dedicada a inteligência artificial, que arrancou a desenvolver um sistema automatizado (bot) de reservas de restaurantes.

Após o falecimento de Mazurenko, os amigos discutiram uma forma de preservar a sua memória. Kuyda sugeriu uma app que falasse exactamente como ele. Depois de recolher mais de 8 mil linhas de texto de mensagens de Mazurenko com amigos próximos e familiares, com o consentimento dos próprios, Kuyda desenvolveu, com a ajuda da sua equipa da Luka, um bot que simulasse artificialmente o seu falecido amigo. Inicialmente não partilhou com os colegas o propósito real do projecto real que estavam a desenvolver – disse-lhes apenas que queria construir um bot que imitasse os padrões de fala de uma determinada pessoa.

A ideia é que o bot replicasse o mais próximo possível a personalidade do discurso de Mazurenko. Para o fazer, foi criada uma rede neural artificial, que imita a habilidade do cérebro humano de aprender. Com as milhares de conversas escritas trocadas por Mazurenko e com todo o léxico do dicionário, a rede neural criada para o bot é capaz de processar diálogos privilegiando a linguagem e o tom de Mazurenko sempre que possível. Sempre que o bot puder responder com as exactas palavras de Mazurenko, ele vai responder.

O bot de Roman Mazurenko está disponível, com o serviço de reserva de restaurantes e outros bot, na aplicação da Luka para iOS. Podes experimentar descarregando a app e procurando pelo username @Roman – o robô percebe tanto inglês como russo.

Kuyda e a equipa da Luka recorreram ao TensorFlow, um sistema de aprendizagem automática que a Google usa tanto para melhorar os algoritmos de pesquisa como para legendar automaticamente vídeos no YouTube, e que disponibilizou em código aberto para qualquer pessoa usar. A Luka já tinha usado o TensorFlow para construir redes neurais para o seu bot de reservas.

A história completa de Eugenia Kuyda e de Roman Mazurenko pode ser lida nesta extensa reportagem do Casey Newton para o The Verge. “A vida moderna leva-nos a deixar para trás vastos arquivos digitais – mensagens de texto, fotos, posts em redes sociais – e estamos apenas agora a começar a pensar no papel que esse arquivo deve desempenhar no luto. No momento, tendemos a ver nossas mensagens de texto como efêmeras. Mas, como Kuyda descobriu após a morte de Mazurenko, elas também podem ser ferramentas poderosas para lidar com a perda”, escreve Casey.

“Kuyda encontrou-se relendo as intermináveis mensagens de texto que o seu amigo lhe enviou ao longo dos anos – milhares delas, do mundano ao hilariante. Sorriu para a escrita não convencional de Mazurenko – ele sofria de dislexia – e com as frases idiossincráticas com que ele apimentou sua conversa. Mazurenko era na maior parte indiferente às redes sociais, e seu corpo tinha sido incinerado, não deixando lhe nenhuma sepultura para visitar. Textos e fotos eram quase tudo o que restava dele, pensou Kuyda, lê-se na peça do The Verge.

Depois de desenvolver a Luka, a equipa da start-up fundada por Eugenia Kuyda e Philip Dudchuk está a preparar o lançamento de uma nova plataforma de inteligência artificial, chamada Replika, e que estará disponível tanto em iOS como em Android. É descrita como “um amigo pessoal e virtual que nutres e desenvolves através de mensagens de texto”.