Raduan Nassar faz discurso anti-Temer ao receber Prémio Camões 2016

“Nada é tão azul no nosso Brasil”: as palavras marcantes e explosivas de Raduan Nassar.

Apesar de não ser um nome muito conhecido do grande público português, Raduan Nassar, autor entre outros títulos de Lavoura Arcaica, é considerado um dos maiores escritores vivos da língua portuguesa. Foi essa consensualidade que lhe valeu o Prémio Camões 2016, atribuído em Maio do ano passado e entregue por estes dias numa cerimónia que o escritor fez questão de marcar com as suas palavras.

O prémio Camões é uma distinção atribuída pelo Governo Português e Brasileiro desde 1988 e culmina num momento solene de entrega do prémio. Mas nem essa solenidade demoveu Raduan da sua intenção de dizer o que precisava de ser dito. Num discurso simples, bastante objectivo e com a literatura relegada ao segundo plano, Raduan evidenciou alguns dos problemas mais flagrantes do Brasil, perante uma plateia onde figuravam inclusive membros da administração de Michel Temer.

O inesperado discurso obrigou a mudanças no protocolo do evento com o ministro da cultura de Temer, Roberto Freire, a discursar depois de Raduan numa tentativa de repreender as palavras do escritor – ao que tudo indica sem sucesso. Segundo relatos da impresa brasileira que transcreve parte desta intervenção, Freire foi diversas vezes interrompido pela plateia que, perante afirmações como “Quem dá prémio a adversário político não é a ditadura!” e “Não existe nenhuma confusão em relação ao momento democrático que vive o Brasil”retorquiu acusando-o de querer roubar protagonismo a Raduan com propaganda ao Governo.

Até ao final do evento ainda se registaram algumas trocas de acusações com um professor da Universidade de São Paulo e uma filósofa em reacções directas a Roberto Freire, acusando-o de não estar à altura da ocasião.

O discurso pode ser lido na íntegra aqui:

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prémio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios académicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado.