A Grande Banana faz meio século e a Grande Maçã já não é o que era

Isto tudo a propósito do Velvet Underground & Nico, álbum de estreia de Nico e The Velvet Underground, que foi lançado há 50 anos.

A banana está mais do que descascada. Não haverá muito a acrescentar ao que já foi dito e escrito sobre um disco que já foi dissecado milhares de vezes, mas há sempre a Internet e a nossa inevitável percepção pessoal. 

Por exemplo, esta teoria partilhada no Reddit que, não sendo rebuscada e/ou uma pedrada no charco, vale a espreitadela. Isto caso não tenham perdido mais do que dez minutos a pensar que o disco pode uma obra conceptual sobre um drogado viciado em heroína. No Quora, numa alusão a parte da letra de “Waiting for My Man”, alguém se deu ao trabalho de responder à pouco inocente pergunta: “quanta heroína se poderia comprar no Harlem por 26 dólares e por volta de 1967?”. Pouco interessa se Lou Reed um dia afirmou que tudo nessa canção é verdadeiro exceto o preço.

Velvet Underground & Nico será o mais fidedigno retrato da Nova Iorque dos anos 60, Capital da Heroína, a que o cinema dessa década, dos oscarizados Breakfast at Tiffany’s a West Side Story a Chelsea Girls do próprio Andy Warhol, manager do grupo, não fez jus. Nem estava perto de o fazer: Taxi Driver ainda estava a uma década de distância. Para muitos, a Grande Maçã ter-se-á tornado no centro do universo, mas antes foi o epicentro do HIV e de várias hepatites numa América que passou o século XX em constantes guerras às drogas. O próprio Lou Reed, apesar de alegadamente “cuidadoso”, apanhou uma hepatite por ter partilhado agulha. Para os curiosos e fãs de turismo musical, há um ou outro mapa da Nova Iorque dos Velvet na Internet, uma Nova Iorque povoada de junkies, dealers e prostitutas.

No mesmo ano, os Doors e os Jefferson Airplane já tinham sido censurados, embora em contextos completamente díspares. A banda de Jim Morrison foi a primeira a ser censurada à bruta. Ao ponto de, na altura de recentes reedições, se ter hiperbolizado ao ponto de se afirmar que andámos 40 anos a ouvir o disco de estreia errado. Com os Jefferson Airplane, as proibições foram mais suaves e resumiam-se “apenas” ao clássico “White Rabbit”. No caso dos Velvet Underground, o conteúdo era tão explícito que poderá ser registado, a par dos discos de viragem dos Beach Boys e Beatles, como primeiro suicídio comercial da história. A troco da liberdade criativa, Reed, Cale e companhia arriscaram-se a nunca editá-lo. As 30 mil cópias vendidas que, segundo Brian Eno, renderam outras tantas bandas, deram razão tanto à banda como às editoras. Apenas a Verve foi suficientemente louca para o patrocinar.

A história já tinha oferecido álbuns importantíssimos: Pet Sounds (Beach Boys)Sunshine Superman (Donovan), Revolver e Rubber Soul (Beatles), Blonde on Blonde (Dylan) só para citar os de omissão impossível. Mas, ainda  que Dylan tenha gravado na cidade, nenhum espelhava tão bem esta Nova Iorque. Incompreendido, nem a aliança com Warhol na produção e tudo o mais evitou o falhanço. O “e tudo o mais” pode ser traduzido pela criação de uma improvável aliança entre americanos e alemães ou, neste caso, uma atriz, modelo e musa de Brian Jones e Dylan, uma alemã chamada Nico (muito antes de Klinsmann treinar a selecção americana de futebol naquela que é a única associação germânico-americana que nos lembra, assim de repente). Há ainda uma vertente mais técnica que está relacionada com John Cale, músico de formação  clássica que odiava folk e adorava La Monte Young, que trouxe ideias de gravação que revolucionaram o som da banda. “We were trying to do a Phil Spector thing with as few instruments as possible”, diria anos depois. 

Um ano depois, em Janeiro de 1968, com White Light/White Heat, provariam que o suicídio comercial era modus operandi.