Análises sanguíneas podem detectar cancro do pâncreas antes de ser tarde demais

Um passo na medicina que pode salvar milhares de vidas.

Análises sanguíneas cancro do pâncreas

O cancro pancreático é frequentemente conhecido como o “assassino silencioso”, uma vez que na altura em que os sintomas aparecem, a doença já está em estadio muito avançado. Como as células cancerígenas pancreáticas são frequentemente detectadas numa fase muito tardia, estes doentes apresentam um prognóstico muito reservado. Na verdade, a taxa de sobrevida aos 5 anos para o cancro pancreático é de apenas 5% – valor bastante baixo quando comparado com a taxa de sobrevida aos 5 anos para o cancro da mama, que ronda os 90%.

Após o diagnóstico, a única maneira de curar este cancro é removê-lo completamente antes que ele se “espalhe” pelo organismo. Contudo, como o pâncreas é um órgão profundo, é muito difícil visualizá-lo imagiologicamente e biopsá-lo. Este é um dos motivos que está na base do mau prognóstico destes doentes, uma vez que se torna muito complicado detectar qualquer alteração no órgão até esta alteração atingir dimensões ou disfunções muito grandes. Hoje em dia, a melhor ferramenta de avaliação que possuímos é a ecografia, que mesmo assim apresenta uma fraca acuidade.

Neste contexto surgem umas moléculas chamadas vesículas extracelulares derivadas de tumores (VEdt) que adquirem cada vez mais importância como biomarcadores diagnósticos.

A maioria das células do organismo liberta pequenos grânulos chamados vesículas extracelulares, que entram na corrente sanguínea e podem comunicar com outras células. Quando há o desenvolvimento de uma patologia cancerígena a nível do pâncreas, as células pancreáticas começam a produzir diferentes tipos de vesículas extracelulares, as VEdt, que podem então ser detectadas no sangue e orientar o diagnóstico do doente.

Apesar da sua grande sensibilidade e especificidade, estes exames ainda não são muito utilizados na clínica porque requerem grandes amostras de sangue, um grande consumo de tempo e um custo extremamente elevado.

Tony Hu e os seus colegas, da Universidade Estadual do Arizona em Tempe, desenvolveram um teste sanguíneo capaz de detectar cancro pancreático em estadios iniciais, com um custo que possibilita a sua aplicação em larga escala (rastreio). Estes investigadores desenvolveram nanopartículas de ouro capazes de se ligar selectivamente às vesículas cancerígenas nas amostras de sangue. Uma vez ligadas, estas nanopartículas alteram as suas propriedades de emissão de luz, sinalizando a presença de cancro pancreático.

Num estudo piloto que contava com 59 pessoas com cancro pancreático, 48 pessoas com pancreatite e 48 pessoas saudáveis, o teste foi capaz de detectar cancro pancreático num estadio inicial em mais de 90% dos casos, bem como distinguir as diferentes patologias presentes.

“Nós identificámos um receptor 2 da efrina tipo A (EphA2) nas VEdt que pode funcionar como biomarcador para a detecção de cancro pancreático. Demonstrámos ainda que existe um teste para EphA2 – Vedt que distingue pacientes com cancro pancreático de pacientes saudáveis, ou com pancreatite. O EpHA2 – Vedt também nos informa acerca da progressão e estadiamento do tumor e na detecção de respostas precoces à terapia neoadjuvante”, diz Hu.

A equipa do Hu está agora a planear conduzir mais estudos e em maior escala. Se este teste sanguíneo for aprovado, será a única análise sanguínea disponível para fazer o diagnóstico de cancro do pâncreas.

Hu diz que o teste pode ainda ser adaptado para outras doenças que também secretam vesículas extracelulares específicas. “Nós estamos agora a trabalhar no cancro do pulmão e no linfoma com resultados muito positivos”, diz. “Para além da área do cancro, estamos também a conduzir um projecto na área do diagnóstico da Tuberculose. Teoricamente, este teste pode ser aplicado a qualquer tipo de doença.”

Hu espera que um dia este teste possa ser usado para o rastreio em grande escala de cancros do pâncreas, semelhante ao que acontece com as mamografias no cancro da mama e as citologias para o cancro do colo do útero.

O teste é rápido e barato e pode ser feito com uma amostra mínima de sangue.

Texto de: Marta Magalhães
Editado por: Mário Rui André