Lisbon Dance Festival: foi bom, mas ainda falta qualquer coisa

Com um cartaz de luxo e com uma dinâmica similar ao Mexefest, o LDC iniciou a época de festivais a 120 batidas por minuto.

Lisbon Dance Festival
Hercules & Love Afair

O segundo ano do Lisbon Dance Festival (LDF) invadiu o LX Factory, numa edição com o estilo techno como ponto forte. Com um cartaz de luxo e com uma dinâmica similar ao Mexefest, o LDF iniciou a época de festivais a 120 batidas por minuto. O certame desdobrou-se em dois dias de Março, dominados por um intenso calor de Inverno, que resultou num efeito de estufa dentro da ex-fábrica mais famosa do Calvário.

Com um primeiro dia a não ser condecorado com nomes de peso, surgiu a oportunidade ideal de explorar os diferentes locais dos concertos. Por ingenuidade, só tinha visitado o LX Factory duas ou três vezes, e nunca havia passado do primeiro café. Sinceramente, foram precisas duas ou três voltas ao quarteirão para conseguir localizar todos os palcos. Diga-se de passagem que haver restaurantes com música ao vivo dentro do LX só tornou a tarefa mais confusa. A não existência de um mapa e as placas sinalizadoras bem camufladas, podem ter sido – atenção, “podem ter sido” – outros dois factores que dificultaram a movimentação. Seguindo as regras de um indivíduo politicamente correcto, assumo que o erro também possa ter sido meu.

O primeiro nome a que assistimos foi Holly Hood. Ganhou nome com Regula, o que por si só não quer dizer muito. Um amigo tinha tentado convencer-me que Holly Hood era muito à frente, e acabou por ser uma desilusão por efectivamente não corresponder às expectativas criadas. O concerto foi enfadonho, dominado por beats de trap generalistas e um nível de performance abaixo da média. O palco foi logo de seguida tomado por Jessy Lanza. A canadiana teve direito à sua estreia em Portugal e, apesar de consistente, teve uma actuação esquecível.

Tokimonsta foi das melhores artistas a passar pela fábrica, apresentou um set ecléctico. No meio de tantos espectáculos a solo, Jennifer Lee destacou-se apresentar uma estrutura que atravessou hip hop, house, glitch, músicas de sua autoria e mixagens das mesmas.

O resto da noite ficou a cabo da techno, com a Label Dekmantel a ser representada pela Dekmantel Soundsystem e, posteriormente, por Marcel Dettman, também ele membro daquela editora de música electrónica.

O horário poderia ter sido estratificado de outra forma e a prova desta premissa é o segundo dia do Lisbon Dance Festival. Os melhores nomes habitaram o festival no sábado, dia 11 de Março, recebendo também uma maior enchente de pessoas e mais gente a dançar – algo que esperava ver mais no Lisbon Dance Festival. Confesso que no primeiro dia fiquei com a ideia de que estático era um novo estilo de dança.

Os três primeiros nomes que vimos no sábado formaram uma progressão interessante. Em primeiro lugar veio Mai Kino, artista dos sete ofícios, portuguesa, que vive há 10 anos em Londres, veio a Portugal mostrar o seu EP, The Waves. Editado em 2016, este trabalho reflecte perfeitamente a aprendizagem que Mai Kino adquiriu com Luke Smith, tal como descreveu o próprio à Bodyspace: “Aprendi a não ter medo da palavra Pop nem de melodias simples e letras directas e que há um grande poder nos ‘lugares-comuns’, se usados na altura certa e de forma genuína.” Mai Kino dita de forma redutora é uma voz dócil embebida em electrónica indie. Tem em Portugal o público ideal para mostrar os seus trabalhos vindouros.

O grupo que se seguiu na Fábrica XL também vem de Inglaterra e parece ser muito acarinhado pelos portugueses. A última vez que os Mount Kimbie vieram a Lisboa foi no Day+Night curado pelos The XX. Três anos depois, voltaram a mostrar como se dá um concerto intimista para tanta gente. A música do quarteto tem um valor muito pessoal incutido directamente em quem os escuta. A química do grupo é soberba, dando-lhes liberdade para trocarem de posições de música para música. O baterista foi o único a ocupar a mesma função durante todo o concerto.

A última banda desta tríade foram os experientes Hercules & Love Affair. Ninguém mexeu tanto com o público como eles. Apresentaram uma série de músicas que nunca tinham tocado ao vivo, resultado da mistura de instrumentais techno e house com duas vozes incríveis, que se não fossem tão boas, provavelmente o resultado seria foleiro.

Quando comecei a vasculhar os nomes do cartaz, deparei-me com Holy Nothing. Sabia que a cena electrónica em Portugal estava em boas mãos, mas a minha esperança ganhou outro nível quando encontrei este trio nortenho. Hypertext, o álbum, funcionou como super cola. Não conseguia tirar os fones. Logo suspeitei que o grupo tinha música com potencial para estremecer qualquer piso que tenha o prazer de ser vibrado por experimentalismos tão frenéticos e invulgares. A prestação ao vivo dos Holy Nothing provou ser digna de um palco principal; porém, nesta edição, tiveram de se contentar com a modesta sala do Clube Antena 3.

Outra grande surpresa veio da curadoria do Branko. Enchufada na Zona: iZem, KKiNG KONG, Dotorado Pro, Rastronaut, Branko e DJ Satelite representaram a editora num percurso Afro-House, delineado pelos DJs, que iam passando os pratos de mão em mão.

O Lisbon Dance Festival foi encerrado por George Fitzgerald e um set completamente diferente da música que projectou o produtor na indústria musical. Às duas da manhã, as almas que dançavam no LX Factory tiveram a cereja no topo com um set consistente em beats repetitivos com melodias ocasionais. Não foi bem o espectáculo que esperava, mas foi ideal para todos aqueles já só queriam dançar sem pensar. Acredito que esse seja o conceito fundamental por detrás do Lisbon Dance Festival. Mais: não esperar que os concertos consistam em originais, mas sim em sets compostos para um público que só quer dançar.

Fotos de: Tiago Serrano/Shifter