Luís Severo: um disco de Lisboa para se ouvir em Lisboa, mas não só

Um belíssimo álbum para estragar botões de repeat.

Luís Severo

Depois de Cara d’Anjo, Luís Severo apresenta-nos um álbum homónimo composto por 8 canções. Composto e gravado em Alvalade, estúdio para o qual se mudou em 2016, Luís Severo é o primeiro trabalho do jovem músico com a família Cuca Monga.

O trabalho foi disponibilizado gratuitamente no Bandcamp. É um disco de Lisboa para se ouvir em Lisboa, mas não só. “Luís Severo” começa e termina com duas canções que serão certamente cantorias para todo o ano – “Amor e Verdade” e “Olho de Lince”.

No total, são 8 contos urbanos (mas não depressivos) sobre família, amigos e amores, temas a que o cantautor já se tinha agarrado em Cara D’Anjo, mas que aqui revisita com revigorada frescura, ou não houvesse sempre novos amores e amigos a pairar. As letras, como sempre, são honestas, despretensiosas e acolchoam este universo da grande cidade, onde reina o “cada qual que se defenda”, lição que termina o disco. Severo, na sua tenra carreira, foi sempre apanhando isto de forma atenta: a vida é domada pela metrópole – os nossos pares são os da faculdade, os lares vêm com a idade e os bares que já não o são deixam saudade.

Há ainda neste novo registo de estúdio a mão cuidadosa da afamada trupe de Alvalade. 80% dos Capitão Fausto agigantam o disco com arranjos de cordas, sopros e teclas. Diogo Rodrigues, o produtor da casa, juntou-se a Manuel Palha para guiar o músico alfacinha na nova travessia e a coisa fez-se: há guitarras mais consistentes e uma miríade de teclados que acompanha com coerência o registo diferente de cada canção. Nota-se o cuidado que se teve com este disco: apesar do romper com o lo-fi que ainda pautava alguns temas do disco anterior, a alma de Severo está toda lá. Acrescentando somente o necessário à receita anterior, o duo de produtores trouxe ao novo membro da Cuca Monga uma roupa nova, passada a ferro e com todos os botões que precisavam de ser remendados. Severo não cai na maldição do segundo disco e dá-lhe a volta com classe – é agora um nome que a música portuguesa não pode deixar de lado, porque o futuro e o presente hão sempre de passar por ele.

Um belíssimo álbum para estragar botões de repeat.

Sobre o novo trabalho, Luís Severo escreveu:

Era o início de 2016 e eu andava na estrada a tocar o ‘Cara d’Anjo’. Já meio saturado daquelas canções, sabia que queria aproveitar o momento e escrever já outro disco. Desta vez, um disco mais solitário, onde a solidão no processo me proporcionaria uma liberdade que nunca tivera outrora. Quis romper com o método de escrever canções que tinha até então, método que me parecia demasiado saturado em mim próprio. Ao piano e sem pressa, explorei e repeti todas as melodias mais naturais que por mim passavam. Muitas delas estavam aos anos na minha cabeça e ouvidos, à espera de uma canção que lhes desse uma vida.

Já sabia que o Diogo Rodrigues iria gravar o disco comigo. Ele era já carta certa nos meus concertos ao vivo, e anfitrião de Alvalade. Sentia que faltava outra pessoa para nos ajudar, trazendo ideias novas, e rompendo as demasiadas rotinas que a minha dupla com o Diogo já deveria ter. Lembrei-me do Manuel Palha, que me impressionou bastante durante os ensaios da primeira Festa Moderna. O Manuel era completamente diferente de mim no método, no conhecimento, na procura e no gosto. Um músico fora de série, com a sensibilidade certa para me corrigir, sem me estragar. Os três fomos fluindo nos arranjos e produção, até que pontualmente chamámos outros amigos. O Francisco Ferreira acabou por gravar mais teclados do que alguma vez esperámos, contribuindo fortemente para a massa de texturas do disco. O Tomás Wallenstein tocou violinos e apareceu nas alturas certas para desbloquear impasses. A Violeta Azevedo gravou flautas e o Salvador percussões. No fim veio o coro, formado pela Teresa Castro, a Bia Diniz e o Manuel Lourenço. Estes três compinchas foram incansáveis e acrescentaram um lado bem orgânico ao disco.

Ofereço este disco à Raquel, que esteve ao meu lado durante este processo intenso e demorado. Agradeço aos meus pais, à minha avó, ao meu irmão, restante família, e, claro, aos grandes amigos Ró, Coelho, Sambado, Sobral, Quadros, Domingos, Lucía, Pedro Duarte, Zé Cardoso e toda a malta da Gentle Records, toda a malta da Maternidade, Cuca Monga, velhos amigos da Cafetra e seus afluentes da Interpress, e também aos traquinas dos Ganso. Um obrigado final, e redobrado, a todos os que participaram!