Migos e a influência de ‘Culture’ na cultura digital

Uma espécie de Beatles para geração digital.

 
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Culture é o segundo álbum de estúdio do grupo de trap/rap americano Migos – um disco que marca sobretudo pela acentuada melhoria do trio, oriundo do norte de Atlanta, em relação ao trabalho anterior, Yung Rich Nation. O álbum lançado em 2015 mostrou uma enorme destreza técnica; contudo, para os mais cépticos, pecou por uma escrita rígida, muitas vezes formatada por instintos pop.

Apesar do cepticismo de alguns, os Migos alcançaram o estrelato no rap relativamente rápido na carreira, bem ao jeito do sonho americano. Dois anos após a mixtape de estreia, Juug Season, lançada em 2011, já alcançavam o ouro com Yung Rich Niggas. A faixa “Versace” rapidamente se tornou num hit mundial, circulando pelas bocas do mundo e consagrando os Migos como criadores de tendências de rap (e não só) antes de qualquer um dos membros ter 23 anos.

Migos, os Beatles da nova geração

Quavo, Offset e Takeoff são os protagonistas desta história. Após a explosão inicial, o hype desvaneceu-se um pouco, transmitindo a ideia que poderia ser um fenómeno passageiro.  O lançamento do seu álbum de estreia, Yung Rich Nation, ficou aquém das expectativas, transformando-se numa decepção do ponto de vista comercial, vendendo apenas 14 mil unidades na primeira semana.

O grupo permaneceu relevante no panorama musical, resultado das mixtapes lançadas e dos inúmeros convidados presentes nos seus projectos, comprometendo-se com o seu nicho cada vez maior de fãs, mesmo quando Offset esteve preso. São também os responsáveis por apresentar o dab ao mainstream, num movimento voltou a realçar a relação que o rap e o desporto mantém desde os primórdios da cultura hip hop. Não tivessem tido os atletas uma importância extrema na viralidade deste fenómeno, personalizando-o nas celebrações dos seus golos/pontos e suscitando a curiosidade por parte dos fans sobre o que estaria por detrás deste movimento.

É no final de 2016 que o trio de Atlanta finalmente torna o seu sucesso consensual entre os seus pares com “Bad and Boujee”, primeiro single do álbum Culture. A faixa foi lançada no final de Outubro do ano passado, mas o grande hype surgiu no final de Dezembro. É nesta altura, durante os Globo de Ouro 2017, que o actor e músico Donald Glover (Childish Gambino), dá props aos Migos, afirmando: “são os Beatles desta geração”.

Apesar de alguma chacota por parte da imprensa e presentes no evento, as suas palavras tiveram uma repercussão inimaginável à partida, tornando o que parecia ser uma piada aos olhos dos presentes, numa das afirmações mais importantes sobre este trio. Após esse episódio, a canção alcançou o primeiro lugar no Billboard Hot 100 e internet foi invadida por memes, um pouco por todas as redes sociais.

Os Migos não são melhores que os Beatles nem o oposto deve ser afirmado; no entanto, há material suficiente para reflectirmos sem fundamentalismos ou fanatismos. Actualmente os Migos estão no ponto de ebulição, cresceram e foram capazes de romper com alguns preconceitos em relação ao trap. Nós próprios rompemos com os preconceitos que poderiam existir acerca deste trio, e deste álbum em específico – mesmo que, para tal, tenhamos demorado cerca de dois meses para escrever sobre o assunto.

Este movimento de disrupção, não poderia passar ao lado da nossa redacção. Advém de uma inovação, que lembra as repercussões de fenómenos como os Beatles, mas também todos aqueles que foram capazes de criar tendências dentro dos seus géneros musicais, inspirado determinadas fases dos respectivos movimentos e criando, por vezes, réplicas de si próprios entre os seus pares.

Dabbin’ on ‘em like the usual (dab)
Magic with the brick, do voodoo (magic)
Courtside with a bad bitch (bitch)
Then I send the bitch through Uber (go)
I’m young and rich and plus I’m bougie (hey)
I’m not stupid so I keep the Uzi (rrah)

Culture

Lançado a 27 de Janeiro deste ano, Culture conta com participações de DJ Khaled, Gucci Mane, 2 Chainz, Travis Scott e Lil Uzi Vert. A produção ficou a cargo por Metro Boomin e Murda Beatz, entre outros. O álbum teve direito a três singles: “Bad e Boujee” com Lil Uzi Vert; e “T-Shirt” e “Deadz” com 2 Chainz. As faixas apresentada uma óptima complementariedade entre os mc’s, elucidando sobre o que cada um dos três rappers é capaz de fazer melhor, deixando bem também visível a química que existe entre eles.

Culture

O bom resultado dos singles de estreia traduziram-se num alcance maior que o álbum acabou por ter, chegando a um público mais vasto. Este disco é o culminar da ascensão dos Migos ao topo do trap, um reflexo da química inata que existe entre eles, não fossem todos familiares, capazes de banhar o instrumental a ouro de alto kilate, ora seja em rimas ou onomatopéias desconcertantes.

Culture é um disco de entretenimento. O propósito de escuta nunca será à partida o interesse por ouvir uma mensagem densa, mas sim o de passar um bom momento entre amigos. O mundo de Culture é rico, repleto de esperança, paranóia e uma energia contagiante. É, sem dúvida, um trabalho de afirmação deste trio. A primeira voz que se ouve no disco é de DJ Khaled, e as palavras proferidas são um bom cartão de visita para o que se segue.

How the fuck you fuckboys ain’t gon’ act
Like Migos ain’t reppin’ the culture?
They rep the culture from the streets

 

Artwork: Henrique Almeida

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!