‘Neon Bible’: a religião enquanto bode expiatório do grande pecado americano

Em 'Neon Bible', os Arcade Fire perdem a inocência que atraiu tantos dois/três anos antes. As crianças de 'Funeral' deram lugar a adultos mais cínicos.

Neon Bible

Para além de todas as suas forças, o mais incrível em Funeral dos Arcade Fire terá estado na capacidade de juntar toda a gente, fervorosos e curiosos, introvertidos e extrovertidos, cristãos e ateus, no mesmo grupo de pessoas que, quando em comunhão, se comportam como se estivessem numa igreja, fosse nos coros de “Wake Up”, com mãos no ar, ou na catarse provocada pelas letras e na intensidade colocada a cada momento. Estabeleceu-se um compromisso entre a banda e os seguidores, estávamos juntos e durante uma hora e qualquer coisa o mundo até parecia mais ou menos. O concerto dos Arcade Fire, que por cá tem o Paredes de Coura 2005 como episódio mais identificável, funcionava como um culto em que o que era professado em palco ia convertendo descrentes que se reviam nas palavras e dinâmicas daquele grupo de músicos.

Se Funeral era auto-análise e expurgação pura, Neon Bible coloca-os a olhar para fora. Em 2007, grande parte dos textos de análise ao segundo registo dos Arcade Fire limitavam-se a comparara-lo com a insuperável estreia e a mensagem do disco perdeu-se. Dez anos depois, grande parte dos temas que aqui encontramos mantém-se actuais. A sociedade que começava a refletir-se nos telemóveis (o Blackberry 4 e o iPhone acabavam de ser lançados), a Internet ainda não conhecia o Assabge iy Snowden, mas já ameaçava tornar-se num lugar perigoso. Mas apesar de a mensagem ser global, Neon Bible parte de uma análise local: a América. “Everynight my dream’s the same”, ouve-se em “Keep the Car Running”, eventual alusão ao sonho Americano. “I don’t want to live in America no more”, conclui Butler desfazendo as dúvidas em “Windowsill”.

Politicamente, vivíamos o tempo da parceria Bush/Blair, a Guerra do Iraque, Obama começava a chegar-se à frente e o terrorismo ainda só significava Al-Qaeda. Neon Bible é sobre isto tudo, mas usa a religião como bode expiatório da América. Na faixa título trata a idolatria referenciando um episódio bíblico, em “Intervention”, quando afirma “The useless seed is sown”, referencia a parábola da semente (Mateus 13) para chegar à hipocrisia e liberta-se: “Working for the church While your family dies”. Esta canção terá levado elementos da banda às lágrimas (como não?). Há também “(Antichrist Television Blues)” que toca no teologia da prosperidade para chegar ao 9/11, à televisão enquanto algo poderoso e demoníaco e a Joseph Simpson, ex-pastor e pai e manager de Jessica Simpson. O som é tão americano que as comparações com Bruce Springsteen tornaram-se redundantes.

Mas a diferença dos Arcade Fire de 2007 para 2004 vai para lá do conteúdo. A forma como decidiram promover o disco lançou-os como pioneiros no uso da tecnologia como ferramenta de promoção. “Plano de marketing?”, questionou um surpreendido Butler quando abordado pela Pitchfork. Na altura, Butler terá tomado o termo como um exagero, mas os Arcade Fire demonstraram-se mestres na linguagem digital, sempre à frente dos pares. Em Dezembro de 2006 decidiram colocar “Black Mirror” à disposição dos fãs. Bastava ligar para o número 866 e escolher a extensão 7777. Só o fariam em outubro de 2007, mas lançaram também o site http://beonlineb.com, domínio que albergou o vídeo interativo de “Neon Bible” (se o quiserem recordar, ainda está ativo), entre outras funcionalidades que suportam as grandes temáticas do disco. Na televisão passaram pelo Friday Night With Jonatan Ross (introdução à banda que seria samplada em “You Already Know”, canção de Reflektor) onde Butler partiu uma câmara em direto. Já no Saturday Night Live, o homem destruiu muito lentamente uma guitarra, também em direto. Mais tarde, explicaria tudo numa entrevista: Muito sucintamente odiava o instrumento. A trupe haveria ainda de reinventar o conceito de música de elevador, numa altura em que o fenómeno La Blogothèque fazia parte dos “Favoritos” de todo e qualquer melómano.

Percebe-se a desilusão de alguns. Em Neon Bible, os Arcade Fire perdem a inocência que atraiu tantos dois/três anos antes. As crianças de Funeral deram lugar a adultos (exceptuemos “No Cars Go” cuja primeira versão já datava do EP de 2003) mais cínicos.