RCS: o substituto do SMS

O RCS é como o WhatsApp ou o Google Allo mas não é detido por uma grande empresa. É um serviço universal de mensagens, mais avançado que o SMS.

substituto do SMS

Em Dezembro de 1992, foi enviado o primeiro SMS. Dizia “Merry Christmas” e foi escrito pelo engenheiro informático Neil Papworth para Richard Jarvis, então director da Vodafone. A mensagem era um teste ao Short Message Service que a equipa de Neil tinha estado a desenvolver a partir do Reino Unido. Desde 1992 até hoje, o número de conversas via SMS é incalculável mas a tecnologia, outrora revolucionária, é hoje arcaica.

Com o surgimento dos smartphones, plataformas como o Messenger e o WhatsApp revelaram-se mais apelativas por serem iguais ao SMS mas melhores e gratuitos – além de enviar mensagens de texto, estas aplicações permitiam (e permitem) ter conversas em grupo, partilhar rapidamente fotos, sticker e GIFs, fazer videochamadas e muito mais. As primeiras notícias de um declínio do SMS foram publicadas em 2015 quando o WhatsApp anunciou um tráfego diário de 30 mil milhões de mensagens, comparado ao de 20 mil milhões do SMS. Um ano depois, em 2016, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, revelava numa conferência que juntos o WhatsApp e Messenger, as suas duas aplicações de chat, eram meio de troca de 60 mil milhões de mensagens por dia.

Já não enviamos tantos SMS como no tempo dos Nokia 3310 mas o denominado Short Message Service continua a ser uma forma eficaz de alcançar outras pessoas, uma vez que não requer uma ligação à internet nem uma rede superior à 2G, e está disponível em qualquer telemóvel com um cartão SIM activo. Por esse motivo, o SMS ganhou utilidade na segurança e protecção das nossas contas online, podendo ser usado como verificação de um registo ou login numa aplicação. O SMS tornou-se um recurso, um serviço com o qual sabemos que podemos contar se a internet nos falhar.

Com o declínio dos SMS e ascensão do WhatsApp e semelhantes, o negócio das mensagens passou das mãos das operadoras para as de empresas como o Facebook. As operadoras nunca lançaram uma evolução dos SMS com conversas de grupo e stickers, optando por começar a fazer dinheiro com plafonds de dados. No entanto, o “SMS do futuro” existe só que nunca foi lançado.

Chama-se RCS (Rich Communications Services) e a sua história começa em 2008. A GSMA, organização que agrupa cerca de 800 operadoras internacionais e que é responsável pelo Mobile World Congress (MWC), em Barcelona, começou a desenhar um novo serviço que permitisse videochamadas, partilha de fotos, conversa de grupo e mais, além das mensagens de texto tradicionais. Sem registo, nem usernames, e integrado em todos os telemóveis – tal e qual como o SMS. Alex Sinclar, então director técnico da GSMA, escreveu nesse ano que o RCS “vai permitir que os utilizadores móveis vejam rapidamente se seus contactos estão disponíveis para conversar ou trocar mensagens instantâneas, iniciar sessões de chat com um grupo de amigos ou partilhar fotos ou vídeos durante uma chamada de voz, independentemente do dispositivo ou rede que estão a usar”.

Contudo, quase uma década depois, o RCS permanece uma sigla relativamente desconhecida. Só não caiu no esquecimento porque a Google, dona do sistema operativo móvel mais usado no mundo, tem feito esforços com vários fabricantes e operadoras (incluindo Vodafone) para fazer do RCS um serviço universal e alternativo do SMS. O plano é simples: instalar a app Android Messages, que tanto permite trocar os tradicionais SMS como integra o protocolo RCS, no maior número de dispositivos possível. Para tal, a Google disponibilizou a aplicação na Play Store, permitindo a qualquer pessoa descarregá-la e usá-la em substituição da solução pré-instalada pela fabricante. Mas isso não chega: a Google precisa de garantir que o Android Messages vem por defeito em todos os telemóveis com o seu sistema operativo, e está a trabalhar com diferentes fabricantes para optarem pelo Messages em vez das próprias apps.

O RCS é também do interesse das operadoras. Se a Google disponibilizar a app, estas só precisam de definir um tarifário que torne o sistema atractivo para os utilizadores, habituados a usar o Messenger ou o WhatsApp. O RCS é vantajoso porque está integrado no sistema operativo – fazer uma chamada vídeo seria tão simples como enviar uma mensagem de texto.

No entanto, muitas operadoras não estão ainda alinhadas com o plano do RCS e várias versões antigas do protocolo em circulação. Mais de 8 biliões de mensagens SMS são enviadas por ano, apesar de ser uma tecnologia antiquada. A Vodafone já tem RCS em produção, chama-se Message+ e integra com o protocolo SMS quando necessário. Aliás, a aplicação do Message+ vem por defeito para as mensagens nos equipamentos da operadora.

O RCS pode ajudar o Android a competir com o WhatsApp e o Facebook, assim como o iMessage da Apple. O iMessage é apelativo pela sua simplicidade: enviar uma mensagem é sempre igual e na mesma app, da mesma forma para todos. Podes enviar stickers e clipes de audio para amigos com iPhone, conteúdos que são convertidos em mensagem de texto simples para os outros – a única diferença é na cor do balão. O iMessage é uma das razões que levam muitos a optar pelo iPhone e que justifica ser tão difícil largar o iOS. A Google não pode simplesmente fazer a mesma coisa – as fabricantes e operadoras não vão aceitar que a app nativa para mensagens esteja agregada a um serviço da Google, como é o caso do Google Allo. Daí que o Android Messages faça sentido. Daí também que a aplicação tenha sido mudado de nome de Google Messenger.

O Android Messages suporta RCS e também os velhinhos SMS e MMS – são serviços universais e que são taxados pelas operadoras. Com o empenho da Google, o RCS pode ganhar o empurrão de que precisa. Contudo, a fragmentação do Android pode ser tudo menos um aliado ao só os equipamentos mais recentes e as últimas versões do sistema operativo terem o Messages como pré-definição. Por desconhecimento, por pouco uso das mensagens tradicionais ou ambos, não deverão ser muitos os utilizadores a instalar o Android Messages. Por outro lado, nem todas as operadoras suportam RCS. Em Portugal, só a Vodafone o faz – não há RCS na NOS nem no MEO. O cenário é semelhante noutros países, incluindo Estados Unidos.

Mais: será que ainda há espaço para o RCS ou estará esse lugar já ocupado pelo Messenger, WhatsApp e semelhantes?