‘Sound of Silver’ faz 10 anos e é o álbum de uma geração

O segundo álbum dos LCD SoundSystem foi lançado a 12 de Março de 2007. Deu-nos "All My Friends" e outras canções.

Há cinco anos que James Murphy vinha preparando isto, desde que, com “Losing My Edge”, definiu uma geração pós-9/11 que começava a propagar a Internet. Em 2002, o hino dos LCD Soundsystem poderia soar presunçoso, hoje é vital e define uma geração. Em 2017, quando digitamos “Losing My…”, o motor de busca ainda nos sugere o êxito dos R.E.M., mas o tempo ainda deverá fazer justiça pela cantiga que lançou o projeto de James Murphy.

Em 2007, o revivalismo pós-punk entrava em decadência (Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, Futureheads entre outros, já tinham editado os seus discos mais entusiasmantes) e falava-se da nu-rave que dava os primeiros (e últimos) passos, com os Klaxons e os Hadouken (“Losing My Edge” também era sobre eles, mesmo que na altura não existissem). Dez anos depois, a farsa que foi Myth of the Near Future já foi há muito desmascarada e quem o colocou no topo das listas de balanço anual em detrimento de Sound of Silver provavelmente enfiou-se num buraco.

É curioso que Sound of Silver tenha sido editado precisamente no mesmo dia (12 de março), mas 40 anos depois da estreia dos Velvet Underground, disco que imortalizou a Nova Iorque mais decadente do final dos anos 60. A Nova Iorque de James Murphy é outra, é um sítio cool, mas de rendas altíssimas. Recorde-se que em meados da década passada, Brooklyn afirmava-se como epicentro criativo da música ocidental. Mesmo James Murphy e Andy Warhol (manager dos Velvet entre 65 e 67) embora de personalidades aparentemente distintas (um excêntrico, outro recatado) partilham afinidades à distância de quatro décadas: Murphy criou a DFA, Warhol esse polo cultural chamado Factory.

Mas Sound of Silver é mais do que um disco sobre Nova Iorque, é um álbum que abrange os temas que sempre importaram a James Murphy: a nostalgia e o envelhecimento, os dois tópicos que  o terão atirado para fora de combate. Porque quando interpreta “All My Friends”, canta sobre um tempo que já passou, uma geração que se reunia, convivia e todos aqueles outros lugares comuns que estamos habituados a ouvir e que os smartphones, as consolas, a Internet, enfim, as tecnologias nos levaram. É a canção que melhor capta a atitude dos Millenials, como reafirma a Stereogum neste magnífico artigo. Não admira que, com o passar dos anos, esta tenha passado a ser a peça central do segundo álbum dos LCD Soundsystem. Capta na perfeição um tempo de mudança, a transição para o pós-Internet e pós-redes sociais. A propósito, em tempo de Hi5, o registo foi partilhado em streaming, no Myspace, semanas antes da edição e sucedeu a mixtape 45:33, criada para a Nike.

A música de Sound of Silver larga aquela atitude punk do primeiro disco, a atitude de quem passa Daft Punk no CBGB (facto!). E bebe de muitas outras músicas, o que não surpreende, pois Murphy foi DJ antes de ser os LCD Soundsystem. Portanto, quando cita os Kraftwerk ou Doctor’s Cat (“Get Innocuous”), está a fazê-lo em jeito de homenagem. Entretanto, de França, os Justice preparavam a estreia e a Ed Banger juntar-se-ia à DFA no mapa das editoras de música de dança mais influentes dos últimos dez anos.