5 vídeos incríveis para perceberes o mundo da comunicação que te rodeia

Já ouviste falar de Marshall McLuhan, Roland Barthes ou Noam Chomsky?

teorias dos Media

Se por acaso estudaste comunicação, estes nomes não te devem ser estranhos e podem até causar-te alguns pesadelos quando associado a conceitos como a semiótica ou a semiologia. Foram geniais no seu tempo e a Al Jazeera está recuperar os seus estudos e trabalhos para uma época em que, mais do que nunca, precisamos de ler os media e o tratamento que fazem das notícias de forma crítica e informada.

No programa The Listening Post, o canal internacional pegou nas principais obras de cinco pensadores e teóricos: o filósofo francês Roland Barthes, o linguista e activista político norte-americano Noam Chomsky, o historiador jamaicano-britânico Stuart Hall, o académico canadiano Marshall McLuhan e o historiador literário palestino-americano Edward Said. Interpretou-as com a ajuda de jornalistas, artistas e activistas políticos de vários pontos do mundo e juntos criaram cinco vídeos, ensaios e respectivos pósteres para explicar o legado destes teóricos e como todos temos a ganhar se usarmos as ferramentas críticas que criaram para nós nos encontros diários que vamos tendo com os media.

Roland Barthes

O trabalho de Roland Barthes (1915-1980) é difícil e caprichoso – chama-nos a ler o mundo à nossa volta como se de uma série de textos se tratasse, textos estes que devem ser sempre interpretados, desmistificados e contestados. 

O vídeo “How To Read The Signs In The News” mostra como Barthes nos desafia a isso mesmo, a procurar os motivos e mensagens por trás daquilo que a comunicação social escolhe mostrar-nos.

Explica-nos que devemos interpretar pormenores tão básicos como a escolha das palavras ou a roupa dos apresentadores.

No seu tempo, Barthes usou a análise semiótica em revistas e propaganda para destacar o seu conteúdo político.

Nessa análise dividia o processo em dois momentos: denotativo e conotativo; o primeiro tratava da percepção superficial e o segundo continha as mitologias, palavra que usava para chamar aos sistemas de códigos que nos são transmitidos e adoptados como padrões.

Mitologias é aliás uma das obras mais importantes do seu estudo, onde Barthes explana como esses conjuntos ideológicos eram muitas vezes absorvidos pelos leitores sem darem conta, o que possibilita o uso dos veículos de comunicação para a persuasão.

O vídeo foi realizado e animado por Nina Gantz e Simon Cartwrigh e é narrado pelo cartoonista brasileiro Carlos Latuff, conhecido pelas suas mordazes caricaturas satíricas com comentários políticos sobre assuntos mundiais.

Noam Chomsky

Durante décadas, Noam Chomsky tem sido o agent provocateur por excelência quando se trata de criticar os media mainstream norte-americanos. Foi o co-autor de Manufacturing Consent, um trabalho sobre o jornalismo como negócio e o seu papel na mecânica do poder.


Das cinco personalidades escolhidas é o único que ainda está vivo. Foi aliás através do próprio que conhecemos este projecto, quando partilhou na sua página de Facebook o vídeo feito sobre o seu trabalho.

“The 5 Filters of the Mass Media Machine” mostra como muitas vezes o trabalho da comunicação social é feito de braço dado com o dos Governos e que de forma tão subliminar que a população acredita que está a ser informada de forma isenta. Os media são máquinas de propaganda, a democracia é encenada e outras pérolas tão actuais à data de hoje como à data em que Chomsky as descreveu.

É conhecido como “o pai da linguística moderna” e pelas suas posições políticas à esquerda – considera-se um socialista libertário. É também crítico acérrimo da política externa dos Estados Unidos.

A animação é uma das mais distorcidas e mais bem conseguidas das cinco. É uma criação incrível de Pierangelo Pirak, narrada – obviamente! – pela fundadora do movimento “Democracy Now!” Amy Goodman, uma emissão diária de notícias disponível na Internet e em mais de 1400 estações de rádio e televisão em todo o mundo, que se distingue por entregar aos seus seguidores jornalismo independente.

Stuart Hall

Conhecido como o “Padrinho do Multiculturalismo”, Stuart Hall (1932-2014) deu-nos ferramentas para entender como a representação está sempre imbuída de ideologia – e como resistir. Foi uma das figuras fundadoras da escola de pensamento que hoje conhecemos como Estudos Culturais britânicos e é conhecido por ter introduzido nessa disciplina problemáticas sobre a raça e o género.


Hall analisou a cultura de massas e os media consoante o poder que têm para representar raças, géneros, etnias, religiões e classes. Diz que o papel dos media não é inocente, que se escondem atrás de ideologias que devem ser descobertas e criticadas.

Foi um dos primeiros teóricos a ver ligação entre preconceito racial e os media, sendo que os seus estudos, de tão actuais servem de fundamento para estudos culturais contemporâneos. Considerou até que as estatísticas criminais são muitas vezes manipuladas para fins políticos e económicos. Pânicos morais sobre assaltos, por exemplo, poderiam ser inflamados, a fim de conseguir apoio público para a necessidade de uma “polícia da crise”.

Em “Race, Gender, Class: The Politics of News”, o seu trabalho aparece resumido em pouco mais de 3 minutos, suficientes para percebermos como o seu passado numa Jamaica colonizada se entrelaça com tudo aquilo que escreveu ao longo dos tempos.

Além da questão do género, Hall rompeu com a ideia de que as massas/espectadores são burras, passivas e questionou quem são afinal as massas. Diz que para se entender a sociedade devíamos mesmo afastar-nos das notícias: “esse espaço normalizado com um discurso oficial.”

O vídeo é narrado por Natalie Jeffers, co-fundadora da Black Lives Matter UK, que garante ter-se inspirado em Stuart Hall para grande parte do seu trabalho.

A animação ficou a cargo de Ilze Juhnevica & Zahra Warsame.

Marshall McLuhan

Marshall McLuhan foi um filósofo canadiano que viveu entre 1911 e 1980. Ficará para sempre conhecido por ter “previsto” a Internet praticamente 30 anos antes de ser inventada. É isso basicamente que nos mostra este vídeo: McLuhan acertou em cheio nas observações que fez acerca dos media eletrónicos nos anos 60.


Qualquer reflexão que se faça acerca do seu trabalho torna nítida a importância de McLuhan para a compreensão do mundo digital em que vivemos e da forma como os media tiveram que se adaptar às tecnologias.

McLuhan é-nos apresentado nesta curta quase como se de um profeta se tratasse, como se não houvesse melhor altura no mundo para se difundir as teorias do filósofo canadiano.

“O meio é a mensagem” ou “Aldeia Global” são algumas das expressões que cunhou com os seus estudos. Foi um pioneiro dos estudos culturais e filosóficos das transformações sociais provocadas pela revolução tecnológica com o aparecimento do computador e das telecomunicações.

“Digital Prophecies: The Medium is the Message” salienta a ideia de McLuhan de que o conteúdo não se pode sobrepor à forma. Entre a série de adivinhações que fez dos anos 50 aos 80 está ainda a perda de privacidade e secretismo que o mundo digital trouxe às nossas vidas.

Este vídeo é narrado por Alex Chow, um dos líderes do movimento de 2014 Hong Kong Umbrella que mobilizou uma  ocupação das ruas em massa, que foi amplamente relatada através das redes sociais, e é uma animação do norte-americano Daniel Savage.

Edward Said

Viveu entre 1935 e 2003 e foi um dos mais importantes teóricos do Pós-Colonialismo. É considerado um dos maiores intelectuais palestinianos de sempre e a sua obra mais conhecida, Orientalism (1978), analisa a visão ocidental do mundo “oriental”, mais concretamente do mundo árabe.

Para Said, o Ocidente tinha o poder de representar o “Outro” colonial – ao mesmo tempo que o deixava sem voz. Essa visão distorcida de um “Outro” funcionava como uma tentativa de diferenciação que servia os interesses do colonialismo.

No vídeo “Framed: The Politics of Stereotypes in News”, vemos os estudos de Said aplicados aos estereótipos no geral.  

Encantadores de serpentes, dança do ventre, ladrões, o exótico, sensualidade, depravação são alguns dos clichés que historicamente se associavam ao Oriente e que de uma maneira ou outra ainda ouvimos.

Nas notícias, Ocidente e Oriente aparecem sempre em contraponto: o racional e o irracional, o civilizado e a barbárie. Africanos são déspotas corruptos, latino-americanos são ditadores e barões da droga, árabes são terroristas misóginos e asiáticos percebem de computadores e são religiosos fanáticos.

Said convida-nos a pensar como será ser metido em caixas, estereotipado?

Sorious Samura é o narrador deste vídeo, um jornalista da Serra Leoa que faz precisamente o que as narrativas orientalistas não fazem: em documentários como “Cry Freedom” e “Exodus from Africa”, ele cobriu a África de dentro, representando vozes africanas e perspectivas africanas.