ANJOS70: sangue novo no Regueirão dos Anjos

A feira manteve a alma mas mudou de corpo.

 
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Os criadores do conceito da Feira das Almas tomaram as rédeas do número 70 do Regueirão dos Anjos, em Lisboa, e o resultado já está à vista: um espaço renovado, um novo nome e a promessa de uma programação mensal com feiras de artesanato, oficinas criativas, música e muito mais.

Ao longo dos últimos anos, a Taberna das Almas tornou-se ponto obrigatório no roteiro alternativo de Lisboa, não só pelas várias festas de música que nela aconteceram mas também pela concorrida Feira das Almas – uma mostra de artesanato, design de moda, joalharia, ilustração e peças em segunda mão, que durante fins-de-semana inteiros encheu os dois pisos do espaço que outrora fora uma tipografia e uma fábrica de vidros.

No último sábado e domingo, deu-se mais um virar de página na história do edifício. A Taberna das Almas passou a chamar-se ANJOS70, nome escolhido pela sua nova gerência – o recém-formado Núcleo Criativo do Regueirão (NCR). Malta jovem e cheia de pica re-inaugurou o local com aquilo que melhor sabe fazer: feiras de arte e raridades. A inauguração do espaço deu-se nos dias 1 e 2, e o Mercado Nervo veio para ficar no primeiro fim-de-semana de cada mês. Música e bancas de comida animaram as manhãs e as tardes.

O Mercado Nervo vai integrar a programação regular do NCR para o ANJOS70, que contará também com as Oficinas do Regueirão, outro regresso, e com iniciativas culturais de carácter comunitário e social, que pretendem incentivar a comunidade local a traçar novas propostas artísticas para o bairro. O ANJOS70 será a sede do NCR e também um espaço aberto a todos aqueles que queiram desenvolver novas ideias e projectos, existindo gabinetes e ateliers para artistas e empreendedores que se queiram fixar nos Anjos. Os salões principais estão disponíveis para aluguer para eventos e outros acontecimentos.

Esta revitalização do carismático edifício do Regueirão dos Anjos como ANJOS70 acontece num momento de transformação de Lisboa. Os zuns-zuns sobre o fecho de espaços culturais da cidade, por vezes para dar lugar a infraestruturas turísticas, correm redes sociais e jornais. O Cinema Londres deu lugar a um bazar chinês, o Ateneu Comercial de Lisboa pode transformar-se num hotel de luxo, o restaurante Palmeira também passará a ser um empreendimento para turistas, o centenário Lusitano Clube teve de abandonar as suas instalações em Alfama em prol de apartamentos de luxo, e as discotecas Jamaica, Tokio e Europa no Cais do Sodré também já sentiram a pressão do encerramento. Outros exemplos ficam em falta nesta lista.

Lisboa está na moda, há mais turistas e isso sente-se nas ruas e nos números. Na última década, o total de hóspedes mais do que duplicou na região de Lisboa – foi de 7,3 milhões em 2015. De acordo com contas da consultora Deloitte, o impacto económico do turismo nesse ano foi de 8,4 mil milhões de euros e gerou cerca de 150 mil postos de trabalho.

Ganha-se nos números, perde-se na caracterização da cidade. Ou estaremos apenas a assistir a uma transformação dos lugares, intrínseca às metrópoles, com o fecho de sítios que costumavam fazer parte das nossas rotinas nocturnas e a reinvenção/criação de focos culturais?

O ANJOS70 é, para já, uma demonstração do espírito local que sobrevive em Lisboa, podes continuar a acompanhar tudo no site (disponível em breve) e no Facebook.

FOTOS: NUNO DIOGO/SHIFTER

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