Arábia Saudita foi eleita para Comissão dos Direitos das Mulheres da ONU

"É como escolher um incendiário para chefe dos bombeiros", diz a ONG UN Watch.

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A decisão aconteceu no passado dia 19 (quarta-feira) durante as 18ª e 19ª sessão do Conselho Económico e Social e pressupõe que a Arábia Saudita faça parte do grupo de 54 países que vai debater a igualdade de género e os direitos das mulheres no mundo entre 2018 e 2022.

Por se tratar de uma das nações islâmicas mais conservadoras do mundo, que mais limita os direitos das mulheres, a decisão têm incendiado a opinião pública.

A ONG UN Watch considerou “um absurdo” o resultado da votação em que “o regime mais misógino do mundo” obteve 47 votos dos 54 países que participaram nesta eleição (os membros do Conselho Económico e Social, do qual faz parte Portugal). “Eleger a Arábia Saudita para proteger os direitos das mulheres é como escolher um incendiário para chefe dos bombeiros”, disse Hillel Neuer, director da UN Watch.

As organizações de direitos humanos denunciam a realidade no país e insistem que a vida das mulheres na Arábia Saudita é incompatível com um debate justo acerca da promoção de igualdade de género. As mulheres sauditas “são obrigadas a ter um guardião masculino que toma todas as decisões fundamentais em seu nome, controlando a vida da mulher desde o nascimento até à morte,” prosseguiu Neuer.

A Mutaween é uma polícia religiosa responsável por controlar se as mulheres estão a quebrar alguma das inúmeras regras de segregação. A maior parte dos edifícios públicos têm entradas diferentes para homens e mulheres. Transportes públicos, parques e praias também são segregados em muitas partes do país. Mas afinal, o que é que as mulheres não podem fazer no país que agora tem a função de promover (?) os seus direitos no mundo?

Conduzir

Apesar de não haver legislação oficial que proíba as mulheres de conduzirem, o preconceito cultural é tão forte que na prática se tornou lei. Já foram levadas a cabo várias campanhas a pedir para as mulheres conduzirem livremente mas não tiveram sucesso e em Novembro do ano passado, a Assembleia Consultativa do país, conhecida como Shura, recusou-se mesmo a analisar a questão. De acordo com um dos membros do conselho, as mulheres estariam “expostas ao mal”, caso conduzissem.

Votar livremente

As mulheres conquistaram o direito de se candidatarem e votarem em eleições locais em 2015. Na altura, foi notícia em todo o mundo pelo avanço, mas apesar disso, nessas eleições as cadndiatas só puderam fazer discursos escondidas ou sendo representadas por um homem. Apesar de já poderem votar localmente, não têm direito de voto em eleições acima dos locais.

Viajar, estudar, trabalhar ou praticar desporto sem limitações ou a autorização de um homem

De acordo com a lei saudita, uma mulher é obrigada a ter sempre um guardião do sexo masculino, seja o marido ou algum membro da família. O seu wali (guardião), é quem decide se uma mulher se pode casar ou divorciar, viajar (caso tenha menos de 45 anos), estudar, trabalhar, abrir uma conta bancária ou até mesmo submeter-se a alguns procedimentos cirúrgicos.

Até para praticarem desporto livremente encontram restrições. Em 2012, o país enviou pela primeira vez uma delegação feminina aos Jogos Olímpicos, mas as atletas foram obrigadas a ser acompangadas por um homem e não houve qualquer cobertura das suas provas nos jornais locais. A situação já foi bem mais complicada mas ainda não está 100% resolvida. Em 2013, foi aberto o primeiro centro desportivo exclusivamente para mulheres no país, mas elas continuam proibidas de praticarem desporto nas escolas públicas.

“Mostrar demais a sua beleza”

O código de indumentária para as mulheres sauditas é conhecido em todo o mundo. Apesar de não serem oficialmente obrigadas a cobrir o rosto em todo o país, quando não o fazem nas regiões em que a lei não o obriga, estão sujeitas a muitas críticas e punições caso tenhama cabeça demasiado a descoberto ou usem demasiada maquilhagem. Em 2015, a Shura recomendou que todas as apresentadoras de televisão usassem “roupas modestas” e não mostrassem “demais a sua beleza”.

De acordo com um relato publicado em 2010 na revista americana Vanity Fair, caso esteja numa área segregada, uma mulher é livre para experimentar o que quiser numa loja. Se estiver num estabelecimento que também permita a entrada de homens, a mulher tem ordem para comprar e apenas experimentar o que comprou em casa.

Passar demasiado tempo com um homem 

Uma mulher saudita não pode interagir tempo “a mais” com um homem que não seja da sua família. Desrespeitar a lei resulta em punições para ambos, mas a mulher costuma sofrer os castigos mais severos.

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