Chechénia acusada de ter um campo de concentração para gays

O Governo diz que não tem campos de concentração porque não há homossexuais no país.

campo de concentração
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Que a Rússia não é nenhum paraíso para LGBT não é notícia. Há relatos de constantes violações de direitos humanos e as autoridades são conhecidas por fazer uso liberal das leis que proíbem a chamada “propaganda gay” e por condenar a promoção de qualquer actividade relacionada com a homossexualidade. A Chechénia – uma das repúblicas da Federação russa que fica na região do Cáucaso – não foge à regra. O Presidente Ramzan Kadyrov, aliado próximo de Vladimir Putin, tem reputação idêntica e desta vez deu um passo de gigante no que toca à intolerância.

Em Março começaram a desaparecer pessoas das ruas. Primeiro dois apresentadores de televisão. Depois um empregado de mesa. Todos homens, entre os 16 e os 50 anos, foram-se evaporando sem explicação.

Uns dias depois, a 1 de Abril, a Novaya Gazeta, uma das únicas publicações independente russas, revelou num artigo a inesperada resposta: as autoridades chechenas estavam a perseguir, espancar e matar homens homossexuais.

O artigo contém vários relatos de tortura e encarceramento em campos de concentração. Cerca de 100 pessoas terão sido detidas nesses campos por causa da sua orientação sexual e pelo menos 3 homens foram mortos. Segundo a publicação, a alegação foi feita com base em relatórios de activistas de direitos humanos e confirmada por fontes da administração russa.

O Presidente da Chechénia, Ramzan Kadyrov

À falta de melhor expressão, a justificação do Governo só abriu um buraco ainda mais fundo. O executivo nega as acusações, dizendo que é impossível haver campos de concentração para homossexuais num país que não tem gays. O porta-voz de Ramzan Kadyrov referiu que o artigo é uma “mentira absoluta“, e disse que “é impossível deter e perseguir pessoas que simplesmente não temos no país”, acrescentando que se houvesse gays na região, eles teriam sido tratados pelas suas próprias famílias.”

“Na Chechénia”, disse Alvi Karimov, “[os homens] levam um estilo de vida saudável, praticam desporto e têm apenas uma orientação, determinada a partir do momento da criação.”

De acordo com o jornal e com base em relatos de testemunhas, no dia 4 de Abril o Governo ordenou uma “limpeza preventiva”, mantendo uma centena de pessoas em prisões improvisadas – um dos campos fica, por exemplo, num antigo campo militar, na cidade de Argun.

Apesar de o departamento para os direitos humanos do governo russo não ter confirmado o relatório, várias organizações de direitos LGBT na Rússia condenaram, e estão a tentar ajudar e retirar do país os cidadãos gays em um risco de perseguição.

São precisamente esses fugitivos que têm relatado as situações que viveram. Um homem diz ter sido “agredido com uma mangueira e torturado com choques eléctricos”, enquanto mais de 30 homens assistiam, presos na mesma sala. Foram sujeitos a interrogatórios violentos com o objectivo de os levar a confessar a sua homossexualidade, e agredidos para revelar o nome de outros homens homossexuais.

A Novaya Gazeta refere que a mais recente onda de violência contra os homossexuais no país começou depois de um grupo de direitos LGBT ter pedido para realizar uma parada na região do Cáucaso. O pedido provocou reacções em toda a região. O grupo não pediu uma licença na Chechénia, mas noutra região muçulmana no sul da Rússia, Kabardino-Balkaria. O mero pedido – negado, como de costume – provocou uma contra-demonstração anti-gay e deu origem até à publicação de vídeos que incentivavam a morte de cidadãos homossexuais.

O Presidente checheno Ramzan Kadyrov é conhecido, entre outras coisas, por forçar mulheres a usar o hijab em locais públicos, por encorajar a poligamia e por ter colocado o Estado semi-independente em duas guerras.

A República apoiada pelo Kremlin é estritamente conservadora. A diferença é normalmente repudiada, discriminada e evitada até pelas próprias famílias. De acordo com o New York Times, vários homossexuais estão a apagar os seus perfis nas redes sociais, porque as autoridades estarão a atrair gays para encontros falsos para depois os prenderem.

Um usuário da Vkontakte, uma rede social russa, escreveu que um jovem de 16 anos foi detido numa aldeia da Chechénia e voltou dias depois, “todo negro, parecia um saco de ossos.”

“Tenho numerosos, numerosos sinais” sobre a perseguição a homens gays, disse Ekaterina L. Sokiryanskaya, especialista russa em direitos humanos e coordenadora do projeto russo para o International Crisis Group: “Vem de demasiadas fontes para não ser verdade.”

O Shifter precisa de cerca de 1600 euros em contribuições mensais recorrentes para assegurar o salário aos seus 2 editores. O teu apoio é fundamental!