Dez anos de ‘Favourite Worst Nightmare’: o 1º encore

Para matares saudades dos Arctic Monkeys de 2007.

Os Arctic Monkeys de 2007. Ainda a banda Myspace que dispensa encores e nega convites para actuar na televisão (algo que acabaram por ceder). Ainda imberbes e de borbulhas, basta rever o vídeo de “Teddy Picker”. O mundo não terá mudado grande coisa entre 23 de janeiro de 2006, data de edição de Whatever People Say…, e 23 de abril de 2007, mas dá pequenos passos tecnológicos e culturais importantes. O Twitter é lançado, Saddam Hussein é executado, a Google compra o YouTube por biliões, Montenegro torna-se independente, a Apple lança o primeiro iPhone, Itália torna-se campeã do mundo de futebol (Portugal fica em 4º, mais um penálti de Zidane) e o Facebook lança o newsfeed. Os Arctic Monkeys são símbolos dessa geração que faz a transição para a Internet e o smartphone.

Favourite Worst Nightmare é editado apenas um ano e pouco depois da estreia que mais vendeu durante a 1ª semana, na história do Reino Unido (360 mil exemplares). Nem deu tempo para deixar crescer o cabelo, como na passagem de Favorite Worst Nightmare para Humbug. Embora tenham tomado o 1º lugar do top britânico, os números do 2º disco dos Arctic Monkeys não foram tão impressionantes: o 1º single “Brianstorm”, por exemplo, foi relegado para 2º posto do top de singles pelo dueto do ano: “Beautiful Liar”.

Espreitem novamente o vídeo de “Teddy Picker”, mas sob uma nova perspetiva nostálgica, mas não saudosista de um conjunto de amigos que entra num pub (pode ser um café) para estar à conversa e em que o telemóvel serve para fazer chamadas. Não é só o vídeo, a letra também reporta a transição:

“She saw it and she grabbed it and it wasn’t what it seemed The kids all dream of making it, whatever that means.”

São os tais 15 minutos de fama que a Internet e as redes sociais acabaram por proporcionar, seja através de um inegável talento ou por via de situações embaraçosas/ridículas. E já que nos referimos a vídeos, frases mais ou menos proféticas e confrontos geracionais, vale a pena espreitar também o vídeo de “Fluorescent Adolescent”, que junta em cenas de pancadaria palhaços e não palhaços. Lembram-se daquela palhaçada viral em que indivíduos se mascaram de palhaços para assustar e perseguir civis?

O rock britânico vem em sentido descendente, depois do fulguroso arranque do milénio. Só no primeiro trimestre de 2007, Bloc Party, Kaiser Chiefs e Maximo Park editam segundos discos que ficam aquém dos primeiros. Para a crítica, o exercício é invariável: “viverá o 2º disco dos Arctic Monkeys para lá do hype do primeiro?”. Ou isto ou os habituais exageros estratosféricos do NME:

“It’s the most anticipated album since The Stone Roses’ ‘Second Coming’. And it’s huge.” / “Brianstorm” – comeback single from the greatest indie success story this decade and opening track on the most doubter-defying second album since ‘Modern Life Is Rubbish’ – makes just as loud and startling an entrance.”

Com James Ford, metade dos Simian Mobile Disco e produtor do disco-sensação do ano (Myths of the Near Future, dos Klaxons) nos botões, o som acaba por privilegiar a secção rítmica com dinâmicas mais complexas que na estreia. Embora quando comparado com os outros três discos seja um álbum de continuidade, Favourite Worst Nightmare mostra-se diferente nos pormenores, embora as histórias, as metáforas e os trocadilhos pareçam à primeira vista ser os mesmos, passe o exagero. É como se fosse o primeiro encore, algo que mais tarde viriam a adotar permanentemente nas atuações ao vivo, à imagem de todas as outras bandas de que pareciam querer afastar-se. O registo é, imagem do vídeo do primeiro single, “Brianstorm”, mais coreografado e menos espontâneo. Os miúdos agora na casa dos 20s percebem que não podem manter a primeira gimmick e que para renovar o público também é preciso mudar. Do estúdio ao palco, a mudança foi gradual. Não será por acaso que serão uma das poucas (a única?) bandas rock britânicas da primeira metade da última década que continua a manter-se relevante.