Põe os olhos na Festa do Jazz, um evento com pés e cabeça

Durante 3 dias, miúdos e graúdos subiram ao palco do teatro São Luiz.

Festa do Jazz
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A 15° edição da Festa do Jazz soube a humanidade. O espectador e os músicos partilharam de uma vontade em uníssono: escutar o melhor jazz feito em Portugal. Durante 3 dias, miúdos e graúdos subiram ao palco do teatro São Luiz, culminando a paixão lusitana com um profissionalismo exímio. Esta é a Festa do Jazz retratada de um ponto de vista pessoal. Em 3 dias, convivi com músicos, espectadores, organizadores. Em 3 dias, estive dentro do mundo do Jazz.

O futuro do Jazz

Na apresentação do Festival, Carlos Martins, organizador, citou a vocalista e compositora Joana Machado, quando a mesma disse que “As escolas [de jazz] em Portugal estão ao mesmo nível das escolas lá fora.” Esta observação não podia ser mais exacta. Em três momentos diferentes conseguiu-se verificar a veracidade da frase.
Em primeiro lugar, e após a apresentação conduzida por Carlos Martins, o público teve direito a Showcases das Escolas Superiores, com entrada gratuita na sala Luís Miguel Cintra. Universidade de Évora, Escola Superior de Música de Lisboa, Universidade Lusíada de Lisboa e Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo tocaram ao mais alto nível académico. As escolhas dos temas, passaram não só por standards, mas também por temas contemporâneos, como o caso da ESMAE que tocou “Henya” de Ambrose Akinmosure. A mentalidade dos músicos de jazz está a mudar. Encaram temas actuais de uma forma mais aberta que as gerações passadas. Vibram com o Jazz de Fusão como quem vibra com o Rock. E por causa desta abertura, também adquirem novas ideias, novas técnicas. São por isto, e por uma questão natural da evolução da espécie humana, melhores do que muitos músicos com mais 30 anos de experiência em cima.

O segundo momento foi a Big Band Escolas Superiores. Coordenada pelo baterista e professor da ESMAE, Michael Lauren. Para a edição deste ano, propôs a criação de uma Big Band com os melhores alunos de diferentes escolas. Uma Big Band consiste numa orquestra de Jazz. Quem viu o Whiplash sabe do que se trata. A batuta ficou a cabo do Maestro Luís Cunha. Esta brilhante ideia foi promovida pela associação Sons da Lusofonia e, por isso, kudos, o resultado foi excepcional.

A terceira parte de concertos de academias deu-se no segundo e terceiro dia. As escolas de música do país entraram numa espécie de competição, com Adelino Mota, André Fernandes e Leonel Santos como júris. 15 organizações a brindar o jardim de inverno com actuações impecáveis e escolhas de temas ecléticas. (Deixamos em nota os vencedores do concurso das Escolas de Música*).

Art’J – Jobra

Os concertos

Num festival normal este seria o meu principal foco, mas na Festa do Jazz há muito mais por explorar para além dos concertos principais. Nesta questão fiquei-me mais pela captação de imagens que pudessem transmitir algumas actuações fora do comum.

  • Bruno Pernadas

Provavelmente o músico desta nova vaga que mais se faz ouvir fora deste meio. Através da Patacas Discos, Pernadas projectou um caminho para um público mais “rockalheiro”. Em 2016 lançou Worst Summer Ever e Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them, entretanto já o tinha visto com este segundo disco dos crocodilos no Mexefest. Agora, na Festa no São Luiz apresentou-se em quinteto para tocar Worst Summer Ever. Um álbum mais jazzístico que os outros dois que constam no seu cartório. No fim, a vontade foi a de dizer, só mais quinze minutos. Frenético de ponta a ponta, com cada músico a presentear-nos com solos de fazer levantar da cadeira e gritar “Faz-me um filho!”

  • José Salgueiro

O Mestre da percussão português está de volta com um disco que promete. Acompanhado por João Paulo Esteves da Silva no piano, Guto Lucena no clarinete e sax, Cícero Lee no contrabaixo e Mário Delgado na guitarra, José Salgueiro compôs uma performance com princípio meio e fim, narrada por Ana Sofia Paiva, que criou um sentido ambivalente nesta apresentação, ao ser preenchida por Free Jazz. Uma história emaranhada em ritmos impróprios para dançarinos. Isto lembra-me que tenho de ir, agora mesmo, escutar o Transporte Colectivo, se corresponder ao concerto, então temos um sério candidato a disco do ano.

  • Lisbon Freedom Unit

Bem é complicado de explicar o que vi, por isso, preparei-vos um Gif.

O que me chamou a atenção neste grupo foi quando vi que um dos 9 músicos iria tocar turntables. Li a descrição e fiquei intrigado. A fusão do free jazz com música eletroacústica e experimental é aliciante. A parte mais interessante é ver a quantidade de empenho e de treino que é preciso ter para se conseguir improvisar de forma tão livre. É um trabalho difícil de inteligir, mas para os amantes do Free Jazz, este é um grupo a seguir.

  • João Mortágua

Não se esqueçam deste saxofonista. Diz que é dos melhores que anda para aí. Tocou no concerto do Bruno Pernadas e também teve direito à sua jam. “Dentro da Janela” vai para além das fantásticas capacidades técnicas de João Mortágua, entrando num belo mundo graffitado por 5 músicos.

  • Michael Lauren All Stars

Vejam-me bem esta formação e depois pensem: Michael Lauren, Carlos Barretto, Diogo Vida, Jeffrey Davis, José Meneses, Hugo Alves, Nuno Ferreira. Eu não queria chamar monstro a ninguém, mas que monstros da música. É inevitável. Michael Lauren All Stars é como quem vai ver os Globetrotters. São para além do ridiculamente bom.

Um público engajado

Aplaudir no fim de um solo. Aplaudir ainda com mais força no fim de um grande solo. Durante o tema, o público compõe o silêncio. No fim da música, congratula-se o grupo que está a actuar. As regras para o público de Jazz são simples e o da Festa do Jazz cumpriu-as à risca. Dominado por músicos, famílias e apreciadores de música, os espectadores acima de tudo souberam ouvir. Reagiram nos tempos certos e entraram na música quando deviam. À porta do Teatro São Luiz, público e músicos reuniam-se para uma pausa. Um café, um cigarrinho, uma troca de palavras, uma oportunidade para felicitar o artista que acabamos de ouvir. Dificilmente alguém sai da Festa do Jazz insatisfeito e parte deve-se à entrega do público, que se deixa absorver por harmonias e contratempos.

Uma editora em prol do jazz

Já me tinha questionado se haveria vestígios da Clean Feed nesta edição da Festa. A maior editora de Jazz portuguesa tinha de marcar presença. E eis que me deparo, no segundo dia com uma banca de discos dentro do Teatro, de frente para a sala Luiz Miguel Cintra. Tudo acontece na garagem na Parede. A partir de lá já foram editados mais de 400 discos. Desde 2001 que lançam trabalhos predominantemente de Jazz contemporâneo, um pouco mais erudito. Black Bombaim & Peter Brotzmann, Carlos Bica, Gorilla Mask, Steve Lehman, são o exemplo de músicos que receberam o selo da Clean Feed nos seus discos. Entre um catálogo incrível e um cuidado redobrado com a imagem, há diversas características que fazem da Clean Feed uma das maiores editoras da Europa e que lhes permite ter um mercado externo como o seu modo de subsistência. Vale bem a pena visitar o site e explorar a panóplia de discos que lá habitam.

https://cleanfeed-records.com/

Um exemplo de festa

Com a 15º edição chegada ao fim só tenho de dar os parabéns à sons da lusofonia que em parceria com o Teatro São Luiz contribuem significativamente para a expansão do Jazz português, com esta festa que celebra o jazz do presente e do futuro. Concertos fantásticos e com a duração certa, um público que correspondeu e uma organização impecável fizeram da Festa do Jazz um dos melhores eventos que esta cidade já viu. Para concluir este artigo, cito uma frase do baterista Michael Lauren, e que encaixa perfeitamente no que se passou nesta festa de primavera, “Let’s make Portugal the next capital of Jazz”.

Se quiseres rever alguns concertos que perdeste, visita o Soundcloud da Festa do Jazz. Constam os Showcases, atuações das escolas de música e ainda alguns concertos selecionados.

https://soundcloud.com/user-475474395

*MELHOR COMBO
Escola Artística do Conservatório de Coimbra
MENÇÃO HONROSA COMBO
Escola de Jazz Luis Villas-Boas (HCP)
Ofício das Artes – Escola Profissional de Montemor-o-Novo
MELHOR INSTRUMENTISTA
Luís Lélis (piano) – Conservatório de Música Calouste Gulbenkian
MENÇÃO HONROSA INSTRUMENTISTA
Hugo Caldeira (trombone) – Conservatório de Música do Porto
Maria Castro (voz) – Tone Music School
Diogo Freire (bateria) – Art’s Escola das Artes Performativas da Jobra
Débora King (piano) – JB Jazz
Ana Mendes (voz) – Escola de Jazz do Barreiro
Tomás Freire (saxofone)- Conservatório de Música Calouste Gulbenkian

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