A história por detrás das Stories

Se alguém perguntar ao Facebook o porquê de estar a copiar o Snapchat, a resposta é mais ou menos: “outros também copiam”.

O Facebook inventou o feed, o Instagram inventou os filtros e o Snapchat criou as Stories. A internet de hoje é feita com as ideias uns dos outros, que surgiram, por um lado, da nossa vontade de humanizar a partilha online e, por outro, das nossas tendências comportamentais nesse mesmo mundo digital.

Se alguém perguntar ao Facebook o porquê de estar a copiar o Snapchat, a resposta é mais ou menos: “outros também copiam”.

O Facebook tem razão. Quando lançou o News Feed em 2006, a receptividade dos então cerca de 100 milhões de utilizadores da rede social não foi uníssona mas hoje o feed é um conceito presente em todas as redes sociais. Aconteceu algo parecido com os filtros – a “febre” dos filtros começou no Instagram, agora é raro publicarmos uma foto sem a personalizarmos primeiro. O Tinder popularizou o deslize para a esquerda e para a direita como forma de dizer sim e não, o Blogger foi a primeira plataforma de blogues (antes da popularidade do WordPress), o Google é um conceito replicado pelo Bing, por exemplo. Podíamos dar outros exemplos, mas estes provam o ponto.

O Stories é um novo formato de conteúdos. Rápido, momentâneo, efêmero. Podemos criar um feed diário daquilo que fazemos e das coisas de que gostamos. Há espaço para sermos mais espontâneos ou até parvos porque o que partilhamos não fica “para sempre” guardado num perfil, desaparecendo ao fim de 24 horas.

É um formato fácil de criar e de consumir, que não era possível há meia dúzia de anos. Os telemóveis não tinham as câmaras e as ligações rápidas à net que apresentam actualmente, permitindo-nos partilhar em qualquer altura e em qualquer lugar. Basta captar e personalizar as fotos ou vídeos com desenhos, filtros, stickers e outros efeitos especiais antes de enviar. Ver as Stories dos amigos parece igualmente natural: abrimos uma história e tocamos para passar à frente, ou deixamos o feed correr – as histórias dos nossos amigos vão reproduzir-se, como slideshows, umas a seguir às outras.

O uso que fazemos das redes sociais mudou bastante ao longo dos últimos anos, em consequência, claro, dos smartphones. Deixou de ser algo esporádico, através do computador, para se tornar um hábito rotineiro ao longo do dia. O Facebook, que foi concebido na era pré-smartphones, terá sentido necessidade de se adaptar.

Podemos estar a entrar numa fase em que a nossa atenção estará dispersa por dois tipos de formatos. Por um lado, o News Feed, que “baralha” todos as nossas publicações e distribui-as pela nossa audiência consoante o grau de interesse que os algoritmos determinam para cada utilizador; dessa forma, quando abrimos o Facebook, o Instagram ou outra plataforma, o que encontramos é uma espécie de revista com actualizações dos nossos amigos e das coisas de que gostamos/que seguimos, automaticamente criada para nós. Por outro, as Stories, que nos permitem contar uma história cronológica, em que primeiro está o mais antigo e só depois o mais recente, e que dão-nos liberdade para partilhar mais e em cima dos acontecimentos.

Enquanto que as Stories foram inventadas pelo Snapchat, o seu conceito não era, à partida, difícil de copiar. Falhada a compra da aplicação de Evan Spiegel por Mark Zuckerberg, o Facebook decidiu replicar o formato efêmero nas suas quatro principais apps: primeiro no Instagram; depois o WhatsApp e o Messenger; por último, o próprio Facebook. Porquê Stories em todo o lado? Bem, o Facebook pode estar à procura de saber em que aplicações é que o formato pega, em que mercados e que funcionalidades têm popularidade. Monetizar as Stories com publicidade está nos planos. Aliás, isso já acontece no Instagram, onde é possível veres um anúncio entre duas fotos partilhadas por alguém.

O Facebook tinha do seu lado um trunfo gigante – mais audiência que o Snapchat – e precisava de avançar rápido. Quando o Instagram lançou o Stories no Verão do ano passado, de repente uma funcionalidade que antes só 100 milhões de utilizadores usavam diariamente no Snapchat passou a estar no telemóvel dos 500 milhões de utilizadores do Instagram. O Instagram Stories foi um sucesso. Meses depois, a empresa reclamava 160 milhões de contas a utilizar diariamente a histórias e anunciava o crescimento da aplicação para 600 milhões de utilizadores no total. Ora com os Stories no Messenger, o formato ficou disponível para mais de mil milhões de utilizadores e, no Facebook, o número é ligeiramente maior – 1,86 mil milhões de utilizadores (são os utilizadores do Facebook que usam a rede social no telemóvel).

Mas com esta viralização das Stories, o Facebook pode, alternativamente, conseguir a nossa exaustão do formato e, nesse cenário, ganha na mesma e o Snapchat também perde. Ainda assim, isso parece improvável dada a popularidade do Instagram Stories, que provocou marcas no Snapchat.

A empresa de Evan Spiegel não demorou a reagir – redefiniu-se como uma “empresa de câmaras”, passou a chamar-se a Snap Inc e agora diz que integra dois produtos: além dos Snapchat, que é uma aplicação de câmara que permite fazer fotos e vídeos com filtros e efeitos especiais para partilhar com os amigos, tem o Spectacles, uns óculos que colocam uma pequena câmara à frente dos nossos olhos. A entrada em bolsa da Snap Inc foi uma das mais bem sucedidas no campo tecnológico. No dia do IPO, Evan Spiegel e Bobby Murphy, os dois fundadores, aproveitaram a operação para arrecadar 272 milhões de dólares.