O puzzle dos Nine Inch Nails faz 10 anos

'Year Zero', mais do que um álbum, uma jogada de marketing na imberbe Web 2.0.

Nine Inch Nails

Embora Trent Reznor tenha tentado reduzir a campanha montada pelo próprio e pela 42 Entertainment a uma forma de levar as pessoas a comprar o álbum, Year Zero será mais lembrado pelo jogo/puzzle conceptual do que pela música que acaba ofuscada pelo mediatismo da pioneira ação digital. 

Reznor chamou-lhe banda sonora para um filme que não existe. Distópico, apocalíptico, certamente, como o ambiente descrito pelas canções e cuja ação situa em 2022, nos Estados Unidos, década e meia depois desta edição. Ainda não chegámos lá e não será novidade nenhuma dizê-lo, mas Year Zero manteve a atualidade que pretendia tratar em 2007: tensões bélicas, raciais, xenófobas e religiosas.

As t-shirts (algumas letras destacadas nas datas da digressão da banda criam a frase “I’m Trying to Believe”) do merchandising da digressão europeia que arranca com três datas no Coliseu de Lisboa dão o mote. O jogo começa em Lisboa, com as t-shirts e a primeira de três USB flash drives (as outras vão para Barcelona e Manchester) nos WC do Coliseu. Dentro das drives estão leaks (chamemos-lhes assim) do álbum. A partir daqui, a bola é dos fãs. Alguém acaba por encontrar o site imtryingtobelieve.com (hoje reencaminha para um outro da Entertainment 42 que, em traços gerais, explica a campanha, com screenshots de websites que hoje nos poderão parecer arcaicos). O jogo virtual haveria de se complicar e ramificar em várias personagens e organizações, tornando-se em algo quase exclusivo para fãs acérrimos.

Em linhas muito gerais, a sinopse da trama criada por Reznor é a seguinte: depois de sofrer vários ataques (ainda o pós-9/11), o governo norte-americano toma controlo do país através de uma teocracia fundamentalista que mantém controlo sobre as instituições, uma constante vigilância e adiciona uma droga à água que visa manter a obediência da população. Para uma descrição mais detalhada, sigam por aqui. O jogo termina num evento especial, o 1º encontro da resistência (a Art of Resistance), em Los Angeles, onde alguns fãs instruídos por telefone foram conduzidos até um concerto especial que é entretanto encurtado por uma intervenção fictícia de uma equipa SWAT que os encaminha para fora da sala.

Os resultados da campanha são um hino aos primórdios da Internet 2.0: milhares enviaram objetos artísticos, por seis vezes os sites da campanha estiveram no Top 10 do digg.com, foi a 3ª pesquisa mais popular no Yahoo, foram criados mais de 100 mil publicações em fóruns, feitas duas milhões de chamadas para os números indicados na campanha e enviados 50 mil emails. Sem 3D, sem realidade virtual, sem big data, sem Facebook (o newsfeed tinha acabado de ser lançado).

E a música, no meio disto tudo, sobrevive? O rock industrial sempre foi banda sonora perfeita para o apocalipse. Os méritos de Year Zero estarão mais na forma como casou a música com uma ação de comunicação bem construída e que agarrou os fãs mais acérrimos e interessou o público menos atento. A música passa esse ambiente distópico, desesperançado, futurista, com vozes sussurradas, riffs industriais e ritmos de bateria que devem algo ao hip hop.

Year Zero sucede With Teeth, o muito celebrado regresso de 2005, disco dançável e, a espaços, até luminoso (à escala Nine Inch Nails, está certo). Confirma o período mais rentável de Trent Reznor, numa altura em que a Era George W. Bush se aproxima do fim. O último registo da banda é de 2013, Obama recém-eleito. Entretanto, no pós-Donald Trump, os Nine Inch Nails já anunciaram que 2017 será o ano de dois grandes projetos da banda e uma nova campanha parece estar em marcha.