Só tens 15 dias para apanhar o BoCA: eis algumas sugestões

Antes que seja tarde demais.

BoCA
 
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Sejamos francos. Por muitos likes que tenhamos deixado até agora em posts sobre a Bienal de Arte Contemporânea (BoCA), o mais provável é que o olhar sobre o programa tenho sido en passant e te tenha deixado ligeiramente confuso. As actividades são tantas e tão distintas que se torna difícil fazer escolhas, quanto mais tomar a decisão que nos faça sair de casa.

O espectro do festival é amplo o que não facilita a tarefa mas pode tornar a experiência desta Bienal absolutamente inesquecível. É que ao contrário das tradicionais actuações de festival, o BoCA traz até Portugal uma filosofia de programação inovadora, responsabilidade do director artístico John Romão, também ele criador para este contexto.

A 15 dias do final da BoCA, trazemos-te um resumo do que ainda podes ver e visitar para que mais tarde não te arrependas de ter faltado a um dos certâmes mais disruptivos que por cá passaram nos últimos tempos.

Conversa com Tania Bruguera  – Transforming Affect Into Political Effectiveness

A primeira das nossas recomendações é já para o dia 18 e é protagonizada por Tania Bruguera, uma artista e activista cubana que vive e trabalha dividida entre Havana e Nova Iorque. Bruguera é filha de um antigo membro do Governo de Fidel Castro que, devido à sua ocupação, se viu várias vezes obrigado a viajar com a família um pouco por todo o mundo, contando na sua biografia com passagens por países como o Líbano e o Panamá. Foi no retorno a Cuba que ingressou na universidade de Artes em Havana e desde então não tem parado. É artista, performer e professora entre dois territórios que não podiam ser mais contrastantes.

No seu currículo destaca-se ainda o facto de ter fundado a primeira escola para artes comportamentais na América Latina, Catédra Arte de Conducta, que entre 2002 e 2009 funcionou em Havana lecionando na área das artes perfomativas e da arte (literalmente) útil, um conceito de que é uma das principais percursoras.

A conversa será dividida em duas partes: uma no Porto e outra em Lisboa permitindo, assim, tanto a sulistas como a nortenhos ter uma mini-aula com esta artista ímpar.

  • Transforming Affect Into Political Effectiveness (Parte 1) – Tania Bruguera
    18 de Abril, 17 horas, Faculdade de Belas Artes do Porto
  • Transforming Affect Into Political Effectiveness (Parte 2) – Tania Bruguera
    22 de Abril, 15 horas, Faculdade de Belas Artes de Lisboa

The World As Of Yesterday – Anastasia AX

Na lista de recomendações para o BoCA, não podíamos beber mais do espírito inesperado do festival, é por isso que como segunda dica te trazemos algo absolutamente diferente. The World as of Yesterday é um trabalho em dois actos: o primeiro acontecerá dia 19 de Abril e consiste numa performance visceral e destrutiva em que recorrendo a fardos de papel e tinta preta, Anastasia AX emprega toda a sua energia na criação de algo novo; o segundo acto é um convite à contemplação do resultado da performance. O resultado é altamente imprevisível tendo em conta as diversas valências da artista sueca que oscila do som à escultura, do desenho à performance.

Endgame – Tania Bruguera

Para terceira sugestão voltamos a escolher Tania Bruguera. Desta vez para apreciar o génio do seu trabalho em exposição. A artista que ao longo da sua carreira tem trabalhado na síntese e intersecção dos diversos quadrantes sociais, traz até Lisboa Endgame, uma obra complexa inspirada no trabalho homónimo de Samuel Becket. Endgame será assim uma encenação da peça de teatro original rodeada de particularidades. Para o efeito, Bruguera, construiu uma instalação cilindra com diversos andares onde o publico será convidado a permanecer, vendo o espectáculo de cima para baixo.

Esta intervenção pode ser vista dias 20 e 21 de Abril no Mosteiro São Bento da Vitória, no Porto, local onde a artista estará em residência durante o binómio 2017/18.

  • Endgame – Tania Bruguera
    20 a 21 de Abril, Mosteiro São Bento da Vitória (Porto)

Espaço de Fluxos – Diogo Evangelista

A partir de 22 de Abril e até 8 de Julho, a Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, estará de portas abertas a uma exposição sobre desejo e transformação, que explorará o potencial animista que a imaginação humana tem em se apropriar de conceitos, imagens e ambientes. “Espaço de Fluxos” terá trabalhos de Diogo Evangelista, que, no seu conjunto, criarão um ambiente único que imergirá o público em ideias como as da invisibilidade e da introspecção. O título da mostra é apropriado de um texto homónimo de Manuel Castells que descreve uma tipologia cultural de grande abstração e as suas interações dinâmicas com os media digitais. O conceito de ‘espaço de fluxos’ conceptualiza as novas formas de configuração espacial e temporal que se estabelecem sob o novo paradigma tecnológico, que, entre outras valências e características, permite interações síncronas à distância.

Campeonato Internacional de Fingerboard

Já ouviste falar de fingerboard? É uma prática com milhares de praticantes, centenas de marcas especializadas e até campeonatos em todo o mundo. Aqui os skates são miniaturas e as manobras são feitas com os dedos. O BoCA convidou alunos de design do IADE a criar objectos e espaços para um Campeonato Internacional de Fingerboard a ter lugar dia 22 de Abril no Museu Nacional dos Coches, em Lisboa. Nesse dia, não só poderemos ver as criações dos jovens do IADE como observar e vibrar com os truques e as manobras dos competidores, também eles jovens e adolescentes.

Que Difícil É Ser Um Deus – John Romão e Romeu Runa

John Romão é, além de director artístico do BoCA, actor e encenador. É nesta última condição que criou Que Difícil É Ser Um Deus, uma peça na qual John explora a fisicalidade-identidade do bailarino Romeu Runa, inspirado no conceito de dromologia (Paul Virilio), o estudo da velocidade e o seu impacto nos corpos de hoje. Que Difícil É Ser Um Deus é uma performance que procurar explorar o corpo humano enquanto princípio de linguagem, numa busca do humano dentro do humano. Em “Que difícil é ser um deus” o desaparecimento é referente ao corpo, enquanto camuflagem ou dissimulação.

O apurar de técnicas de desaparecimento associadas ao desenvolvimento do complexo industrial-militar-científico domina o quotidiano. O que hoje ocorre é o desaparecimento do lugar e do indivíduo ao mesmo tempo. E O desaparecimento do indivíduo dentro do seu próprio corpo? Ou a dissimulação do corpo por via do desaparecimento do indivíduo? Em “Que difícil é ser um deus”, o corpo surge como um objecto antropomórfico, como uma proto-linguagem que revela uma reduzida ocupação do humano dentro do humano.

Marino Formenti & Ricardo Jacinto

Para finalizar a lista de sugestões, guardamos uma sessão de conversa. Em debate Marino Formenti & Ricardo Jacinto, os artistas que juntos assinaram a instalação Nowhere de que já te falámos anteriormente. Após quase 30 dias de voto de silêncio, esta será uma oportunidade única para o público de ouvir da voz de Marino Formenti o resultado desta experiência.

  • Marino Formenti & Ricardo Jacinto
    30 de Abril, Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa)
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