O Tremor dos Açores sentido pela Vera Marmelo

As fotografias que aqui partilho acabam por misturar tudo, o território e os concertos e os concertos nesse território.

(Esta foi a minha quarta viagem até São Miguel, a terceira vez que lá fui por causa do Tremor. A primeira vez foi em 2012 e a razão foi um projeto difícil de explicar nestas linhas mas que podem espreitar aqui.)

O festival arrancou exactamente no sítio onde mais tempo passei na minha primeira viagem a São Miguel, Açores! Rabo de Peixe. Aterrar, no primeiro dia, no meio daquela gente curiosa, na mistura entre os “rabo-peixinhos” e os infiltras da cidade com sede de festival, naquele sítio, com aquele final de dia, explica muito o tom do festival.

Explicará tudo na verdade. E explicará também muito bem as realidades da ilha, quando passas de Rabo de Peixe para o Arquipélago, na Ribeira Grande, tudo num par de horas e enquanto o sol se põe.

Está nas mãos e na vontade de quem faz acontecer esta mistura entre os Açores e o resto do mundo. E vai muito além de um cartaz incrível, de músicos que queremos ver porque editaram “aquele” disco ou tiveram a “review” de 5 estrelas naquela revista que consegue hypar até a tua avó. Há uma tentativa, já há muito ganha, para nos cativar a ir ao Tremor por causa do território em que acontece.

As fotografias que aqui partilho convosco acabam por misturar isso tudo, o território e os concertos e os concertos nesse território. Pela primeira vez fui com tempo para aproveitar tudo, pegar no carro e ir ver os clássicos da ilha, ver todos os concertos surpresa (no hotel da cidade, no Spa das Furnas e no hangar da Sata), fazer a caminhadas por trilhos perdidos até à Lagoa das Empadadas ao som da música do Jacco.

Fui com tempo para as conversas em que participei, fui com tempo de conversar, de ser levada e levar gente a ver os cantos que a ilha tem e que se replicam vezes sem conta nas fotografias que povoam as contas do instagram de quem lá está.

Dias antes da partida estava a ouvir a conversa do António Pedro Lopes, um dos organizadores do festival, com a Inês, na Radar, e dei comigo a pensar que sim, que o Tremor está rodeado de maravilhas da natureza, que os músicos convidados vão sendo cada vez mais sonhos concretizados mas, acima de tudo, está também uma dimensão humana bonita, que deve ser acarinhada e que tem tanto de maravilhosa como de ingrata. Mas é especial quando vais para uma ilha, a 1429km de distância dos teus, para encontrares mais dos teus. É tropeçar nos cantos da cidade em constante mutação, com os sítios novos, as pessoas novas ou de energias renovadas, os miúdos novos e passar dias inteiros a sentir que fazemos parte de alguma coisa, de algum sítio, mesmo estando a vários km do meu Barreiro.

Sinto que cada vez mais vivo os concertos, os festivais, os discos, de uma maneira um bocadinho diferente. Estou naquele intermédio entre o espectador e o organizador e acabo por ficar sempre com o coração nas mãos sem saber o que fazer para me divertir como o primeiro ou ajudar o segundo. No meio disto tudo acabo por fotografar, para fazer o primeiro recordar o que viu e mostrar ao segundo o que lhe saiu das mãos e que não conseguiu viver.

Por essa razão as fotografias que partilho são muitas, são diárias, são diário de bordo de quem está parva por finalmente ver os Mão Morta, depois de ter levado um beijo na cara do Adolfo que estava a jantar ali ao lado, e diário de bordo de quem rouba um retrato daquela miúda que viste todos os dias e aproveitou tudinho o que tu aproveitaste. É diário de bordo de quem quer passar por todos os concertos, fotografei 32, e chega ao Bonga quase sem energia para dançar, mas ainda assim não consegue parar de sorrir e é diário de bordo para trazer postais das Lagoas e do Oceano para mostrar aos amigos e os convencer que sim, é um festival de música, mas que há muito mais a descobrir, deixemos os cabeças de cartaz para os festivais que acontecem no asfalto ou na poeira, fiquemos com os outros para os vermos no verde.

Finalmente aproveitei do Tremor tudo o que ele tinha para me oferecer e asseguro-vos que assim sim, a experiência é total. Não consigo imaginar o que passará no coração dos músicos, que tropeçam com as lagoas e no Atlântico durante o dia, quando vão tocar à noite.

E acho que às vezes o público não imagina o suor necessário para que possam viver o que estão a viver nos sítios onde estão.

Vera Marmelo
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